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Bem-vindo ao "Porque Sim Não é Resposta" com Eduardo Sá. Hoje vamos falar de frases e ideias que se colam às crianças, sobretudo às meninas, e que dificilmente saem. Olá, Eduardo. Como é que a ideia de que o amor se ganha com a perfeição pode entrar no ADN de uma criança?

Olá, Judite. Pode, porque depois de uma pessoa conviver muitas vezes com isso, parece que é uma coordenada mais ou menos incontornável do crescimento. E pode, muitas vezes, porque as mães, sempre as mães, Judite França, não é? Querem tanto, mas tanto, e de uma forma bondosa, ainda por cima, que as filhas, uma primeira filha, sobretudo, não faça as mesmas asneiras que a mãe fez ao longo do seu crescimento, que quando dão por isso, estão sempre a exigir mais um bocadinho. E não o fazem por mal, claro, mas é sempre mais um bocadinho e portanto, são tantos mais bocadinhos, que uma pessoa depois fica com a sensação de que todos os bocadinhos não chegam e que há ali uma insatisfação de base que nunca se resolve e que uma pessoa tem que ser perfeita. Às vezes há mães que exageram um bocadinho, claro, porque quando aparece um 90%, que é uma nota miserável, como sabe, na ânsia de estimularem, às vezes fazem um comentário: "Era só mais um bocadinho, não era?" Isto muitas vezes tem um impacto tão desorganizador na autoestima de uma filha que eu acho que é importante conversarmos acerca disto, porque longe de mim imaginar que as mães façam isto por mal, coisa nenhuma. Às vezes as mães até precisam do crescimento dos filhos, os pais igualmente, diga-se, para irem à boleia e para crescerem com eles e para ficarem mais jovens e para arejarem, mudarem o estilo, abrirem a cabeça. Mas a verdade é que às vezes isto magoa muito. E uma pessoa fica sempre com a ideia de que o melhor que tem para dar pode nunca chegar. O problema depois é que isto se transporta para outras relações, para as relações amorosas, inevitavelmente, para a relação com os sonhos, com os projetos, etc. E aí as coisas complicam-se mais, Judite.

Como é que uma ideia que podíamos sintetizar como algo do género: "Basta que sejas perfeita para que gostem de ti", passa de pais para filhos, mesmo sem ser dita desta forma?

Passa, Judite. Aqui entre nós, até é contagiosa. Porque às vezes, quando nós fazemos isso aos nossos filhos, estamos a fazer por uma de duas razões: ou porque já nos fizeram, por mais que isso nos tenha irritado imenso ao longo do crescimento, mas quando damos conta, estamos a repetir as fórmulas, ou porque às vezes não nos fizeram e queremos tanto compensar, com base em todas as falhas que fomos identificando nos nossos pais à medida que fomos crescendo, que quando damos conta, estamos a exagerar. Que fique claro, não exigir não é ser protetor. Os filhos gostam de ter um grau de exigência, porque os filhos, quando as mães dizem: "Olha, tu não precisas de ser o melhor, ok? Só quero que tu te dês positiva." Claro que as mães estão a fazer isso para tirar pressão, mas essa pressão aumenta muito. Por quê? Porque os filhos fazem uma leitura completamente ao contrário. "Se a minha mãe acreditasse em mim, não que não exigia, como não acredita, já estamos em serviços mínimos." Tudo ao contrário. E, portanto, exigir é um bocadinho como sal na cozinha, por favor. Exigir é acreditar, é dizer: "Atenção, nada de sermos batoteiros, de irmos a jogo numa de eu estou lá, se a bola vier ter comigo, eu faço um brilharete, mas não me apetece sujar os calções." Isso não. Tens que trabalhar, tens que ter um bocadinho de disciplina, tens que ter brio, sobretudo brio, quando se trata de ir a jogo. Magnífico. Ninguém quer que sejas perfeito, mas brioso, mas claro que exigimos. Agora, quando os pais caem no outro extremo e exigem por tudo e por nada, e o que é pior, Judite, é que às vezes estamos a falar, pegando em exemplos, de filhas que não têm 12 ou 14 anos, têm 30 ou 40, e têm uma mãe que continua a lidar com elas como se elas tivessem 12 ou 14. "Mas isso é um vestido para a tua idade. Mas tu já viste que tens aí uma barriguinha que não devias ter?" Ou por ali adiante. E isto é um bocadinho castrante, percebe? Não faz sentido, porque de repente parece que não podemos ser nós ao pé das pessoas de quem mais gostamos. E isso, de facto, faz mal. Portanto, "só basta seres perfeita para gostarem de ti" devia ser uma expressão rigorosamente proibida, porque por melhor que a intenção exista, tem um impacto, tem um custo tão grande, Judite, que não leva a lado nenhum.

Que adulto se forma a partir de uma criança que aprende que o amor é uma recompensa e não é um dado adquirido?

Edite França, que pergunta tão difícil, por uma razão simples, porque eu, aqui entre nós, também acho que o amor é uma recompensa. Calma, mas é uma recompensa em função do amor que nós damos. E, portanto, as duas coisas fundem-se. Quando nós sentimos que basta sermos quem somos, basta existirmos como somos para gostarem de nós, sendo que isso não invalida que sempre que é razoável que exijam, se faz favor, isso faz com que nós sintamos que o amor é uma recompensa. Agora, quando fomos à bitola no ou perfeito ou nada, parece que não há amor que chegue e que não há qualidades que bastem. É como se, no fundo, fôssemos um produto a precisar de ser certificado por um departamento de qualidade e não fôssemos só pessoas com direito a crescer, com os nossos pequenos defeitos, quem não os tem, com os nossos erros e tudo mais. E isso é que eu acho que muitas vezes as mães e os pais não têm a noção, que os filhos precisam de ter a ideia que errar, enganarem-se e às vezes até serem um bocadinho parvos, se for o caso, não impede que sejam fantásticos, que façam coisas muito bonitas e que nós os amemos perdidamente. Agora, esta ideia de que ou 20 ou nada, não, por favor, porque isso não é amar. Pode parecer, é um papel colorido, mas tem um efeito muito mais castrante, muito mais inibitório, verdadeiramente assustador, que é tudo aquilo que quem ama não pode pedir.

E isto tem relação com o perfecionismo.

Tem.

E acaba depois por ter relação com a ansiedade, o medo de desiludir.

Claro, porque depois são aqueles miúdos que querem muito ter sucesso, mas que depois nunca se envolvem a sério. Por quê? Porque têm medo de não conseguir. E portanto, são os falsos balas. São aqueles que deixam andar, não porque não gostem de ter sucesso. Adoram. Aliás, quando têm uma boa nota, são luz por todo lado. Mas é um bocadinho como quando se tem um treinador numa actividade desportiva, que está sempre zangado, sempre a exigir. E uma pessoa quando vai para marcar um penálti, que apesar de tudo, tem ali muito espaço para onde meter a bola, basta olhar para os olhos dele e nós percebemos que é um tirem-me deste filme porque eu não aguento. E portanto, não, isto depois mexe com tudo, com uma depressãozinha, com uma angústia quando chega a altura de marcar um gol e fica-se num tirem-me daqui, com aquela ideia de que eu gosto é de ser uma segunda figura. Que é uma maneira das pessoas nunca se exporem ao desafio, nunca poderem ter o gozo de ser uma primeira figura e dos outros estarem a reparar nelas. Isto não, porque faz estragos e estragos grandes. Ainda por cima, quando tem um empurrãozinho de quem gosta de nós, não, não pode ser.

Os pais que reconhecem em si esse discurso, muitas vezes é herdado dos seus próprios pais.

Às vezes é herdado das coisas que eles se deixaram pelo caminho, que eles entenderam que eram os sonhos pelos quais nunca lutaram. São pais que muitas vezes querem proteger os filhos das asneiras grandes que fizeram, tudo isso. Portanto, não são maus pais, não são mesmo. O que é importante é que percebam que a estratégia não é essa. A estratégia não passa por dizer: "Tu és genial" e ao mesmo tempo exigir. Trata-se de exigirem quanto baste, mas perceberem que as pessoas na vida não tiram 20 a tudo, os pais não tiram 20 a tudo. E qual é o direito que os pais têm de passar a vida a exigir a perfeição quando eles próprios estão longe disso? Felizmente, digo eu.

Estamos todos, felizmente.

Pois estamos.

Eduardo, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.

Outras dites e até amanhã.