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Bem-vindos ao "Porque Senão é Resposta", com o psicólogo Eduardo Sá. Eu sou o Ricardo Conceição e hoje estou de regresso. Olá, Eduardo, cá estamos nós de novo, juntos.

Olá, Ricardo.

E ainda bem, para conversarmos mais um bocadinho.

Claro que sim.

E hoje vamos pegar numa notícia recente sobre o Clube dos Pequenos, em Gualtar, Braga. O que é o Clube dos Pequenos? É uma creche que está aberta até de madrugada. Está aberta sete dias por semana, das 6h30 à 00h. Foi pensada, sobretudo, para apoiar os trabalhadores do Hospital de Braga e da Universidade do Minho. A procura, podemos dizer, foi muito superior à oferta e não é caso único em Portugal, de uma creche que está aberta, neste caso, até à 00h. E aqui, Eduardo, esta é uma oferta que claramente nasce da necessidade dos pais que trabalham por turnos, que têm empregos, por exemplo, no hospital, em que é difícil conciliar com a vida familiar. E eu aqui, sem ironia, pergunto-lhe: isto é algum problema? É alguma coisa de mal? Há alguma coisa de mal aqui? É apenas estranho, mas necessário? Eu daqui a pouco já faço a pergunta ao contrário.

Ricardo, eu acho que é um problema. Eu compreendo, de facto, isso que está em cima da mesa, os investigadores, os profissionais de saúde, etc. Em Lisboa, há creches que são pensadas, por exemplo, para os funcionários da TAP, que têm outro tipo de necessidades, nomeadamente quando se ausentam em trabalho. Mas eu acho que é um problema, de facto, por uma razão simples: porque depois aquilo que nós vamos observar é que nem sempre as estadias e o tempo que essas crianças estão numa creche coincide com o trabalho efetivo dos pais. Às vezes vai muitíssimo para além de tudo isso. E, portanto, eu tenho medo que nós estejamos a banalizar uma situação, à boleia de alguma verdade, e estejamos a banalizar uma situação que, no final de contas, possa ter consequências muito judiciais. As crianças ganham em estar numa creche. Eu volto a dizer que um dia nós temos que pôr a tutela das creches no Ministério da Educação, porque nas grandes cidades uma creche já não é uma resposta social para as famílias socioeconomicamente desfavorecidas. É uma resposta que há creches absolutamente exemplares em Lisboa, no Porto e por este país, que no fundo prestam um serviço educativo que, se calhar, há uma geração atrás parecia supérfluo e neste momento começa a ser indispensável. O que eu acho que também é importante é nós percebermos que uma creche é um quanto baste de creche, o mínimo possível de creche, dentro do que for razoável, e tudo o que for muito para além disto, acaba por não ter tantos ganhos assim. E, portanto, eu tenho medo que fiquemos todos muito descansados porque estes profissionais têm onde deixar as crianças, mas tenho mais medo porque me diz a experiência que depois, à boleia disto, há crianças que passam mais tempo na creche do que passam com os pais e isso não tem graça nenhuma.

Eu já lá vou, mas ainda quero fazer aqui de advogado do diabo, porque, Eduardo, os hipermercados também estão abertos ao domingo, as rádios funcionam 24 horas por dia, sete dias por semana. E os pais, estes profissionais, não têm ter soluções?

Não. Por isso é que eu acho que nós estamos a mentir com a verdade. Eu percebo que eles têm um determinado tipo de compromisso, mas os pais crescidinhos, peço desculpa pelo tom que pode não ser o mais justo, reconheço, têm a obrigação de se orientar de uma forma disciplinada, de uma forma metódica, para que o seu trabalho seja compatível com uma função que é a mais preciosa, nomeadamente a de serem pais. E eu acho que nestas circunstâncias, nós corremos o risco de deitar mão a uma solução que pode ser uma solução tão sedutora que o resultado está à vista. Uma solução desta, depois do sucesso que teve, vai ter replicações nas grandes cidades muito mais depressa do que podemos imaginar. E com isto tudo, eu teria tentação de dizer que a Comissão de Proteção de Crianças e de Jovens em Perigo tem um trabalho acrescido, que é o de perceber até que ponto é que, de facto, estas crianças têm naquele recurso uma forma de estarem protegidas e, já agora, de terem um conjunto de solicitações educativas que as favoreçam ou, pelo contrário, se de alguma forma vivem um bocadinho abandonadotas, embora tenham uma mãe e um pai que estão disponíveis.

Porque os bebês não têm de trabalhar por turnos como os pais. Agora, deixe-me fazer aqui uma pergunta, Eduardo. O Eduardo acompanha crianças há muitos anos e os pais também. Deixe-me lá ver se eu consigo pôr aqui a minha ideia na minha pergunta. Os pais hoje em dia não têm noção de que ser pai também é abdicar de uma parte da sua vida ou da sua realização profissional em prol de uma outra vida que eles têm de nutrir. E aqui o sentido de nutrir é em todos os sentidos, desde a alimentação à educação. Os pais de hoje em dia não têm esta noção de que, se calhar, não podem ser tudo aquilo que imaginam ser, porque é preciso dar um pouco de si àquela vida que têm ali nas mãos?

Ricardo, tanto têm que passam a vida de tutorial em tutorial. Às vezes até são tutoriais em excesso, que inibem aquilo que o bom senso da natureza humana recomendaria. Mas sejamos razoáveis. Os pais hoje têm a ideia que o mundo é muito mais exigente e que tenham a humildade de perceber que ao longo das gerações, a vida dos pais teve exigências muitíssimo maiores, sem este tipo de respostas. E os pais continuavam a ser pais. Alguns, verdade, tinham de ser pais, entendiam que tinham de o ser, mas muitos outros escolhiam ser pais e faziam em função dessas escolhas, outro tipo de escolhas que acabam por ser adjacentes a estas. Portanto, eu não acho que os pais lhes falte qualquer informação que seja. E acho que às vezes não podem ter a ilusão, porque se for assim, a Comissão de Crianças e de Jovens em Perigo tem que ir mesmo para o terreno ver o que se passa. Não podem ter a ilusão de que é fixe ter uma criança. É, de alguma forma, um compromisso que para um ou para outro, seguramente para muito poucos, mas ainda assim para alguns, não é um compromisso de carreira. É muito mais do que isso.

Claro.

E que isso tem um conjunto de custos e de compromissos que começam logo por isto, Ricardo. Um pai e uma mãe são produtos de primeira necessidade, não são um bem-estar eventual que se pode trazer a uma criança e, portanto, as crianças precisam de estar muito mais tempo com os pais acordadas, de preferência, do que quando estão ao cuidado de uma creche.

Então, que sinal é que nós estamos a dar também enquanto sociedade, enquanto país?

Nós?

Sim, todos nós. Todos nós juntos.

Ricardo Conceição, nós vivemos num mundo estranho, não é?

Sim.

Vamos começar por dizer que todos nós sabemos que tudo aquilo que se passa dentro de uma barriga tem repercussão no desenvolvimento psicológico de uma criança. E nós validamos uma gravidez em útero alheio, como se, no fundo, nós não estivéssemos a falar de crianças e isto não tivesse implicações na vida das crianças. E, portanto, eu acho muito importante que a par de tudo isto, nós possamos estar a fazer aquilo que estamos a fazer agora, Ricardo Conceição.

Exato.

Que é dizer assim: "Cuidado, porque este deslumbramento que às vezes nós temos, este movimento um bocado narcísico em que vivemos, metafórico, nada tem implicações", não é verdade. Tudo tem consequências na vida de todos nós. E era muito importante que os pais tivessem a noção que quanto melhores pais forem desde o princípio, mais as crianças são saudáveis. O que não é razoável é nós dizermos: "Sim, temos que dar toda a atenção à saúde mental, mas só a partir dos quatro anos." Vamos supor isso como hipótese, porque entretanto já criamos condições necessárias e suficientes para que a saúde mental esteja muitíssimo mais constipada do que devia, protagonizada por pais de classe média, pessoas claramente informadas, diferenciadas em termos profissionais, a quem, a meu ver, não pode ser admissível uma solução deste tipo.

Eduardo, é sempre bom pensar e conversar consigo. Um grande abraço e um bom fim de semana.

Um grande abraço para si, Ricardo, e um bom fim de semana também.

Obrigado.