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Bem-vindos ao "Porque Sim Não é Resposta", com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje falamos de uma mãe que, depois de anos no ensino Montessori, pondera mudar a filha para a escola pública. Mas esta mudança de escola está a preocupá-la, porque reconhece que a criança esteve numa bolha e teme que a entrada no ensino público seja um choque. Olá, Eduardo. Uma mudança destas pode, de facto, ser difícil para uma criança?
Olá, Judite. Claro que sim. Mas vamos lá devagar. Uma mudança é sempre difícil para qualquer pessoa, mesmo quando se é uma pessoa pequenina. E, portanto, uma mudança nunca é bem um passeio, nunca é bem um upgrade. É um episódio que implica turbulências diversas e, num contexto destes, naturalmente faz-se sentir mais. Por quê? Porque, no fundo, o ensino oficial será um bocadinho mais diretivo, enquanto que o modelo Montessori antes pelo contrário. Portanto, é natural que esta turbulênciazinha se dê. Mas aquilo que eu acho muito importante é que os pais, quando ponderam uma mudança, têm que ter presente, sobretudo, as suas convicções em relação às escolhas que fazem, que são invariavelmente o indicador mais sensato. Se imaginam uma mudança e a querem muito, a dar-se de uma forma muito almofadada, sem que haja ali um mal-estar no ar e às vezes desabafos até mais ou menos desagradáveis: "A outra escola é que era." Bom, então podem ter a certeza que isso acontece não só na mudança de uma escola Montessori para uma escola oficial, mas na mudança entre todas as escolas em que os nossos filhos tenham andado até um determinado momento e que depois abandonem em favor de outro projeto educativo. Isso nunca é fofo, nunca é almofadado, implica alguma dor, sempre. Depois, a dor bem gerida pode ser um fator de crescimento magnífico e, portanto, eles não saem a perder. E eu tenho sempre muito medo que haja uma tendência no ar para protegermos tanto os nossos filhos das mudanças, que às vezes eles começam numa turma e passados 12 anos de escolaridade obrigatória, têm grande parte dos amigos na mesma turma e isso eu não acho que seja uma mais-valia, porque nada na vida é assim claro.
A mudança está relacionada com vários fatores, mas também com o facto desta criança ter estado até aos 10 anos numa espécie de redoma.
Judite, ganha-se em muitos aspetos, perde-se noutros. Se de facto for uma redoma, eu acho que se perde, inevitavelmente. Por quê? Porque eu compreendo que estar em uma escola pequenina pode ser uma coisa muito importante.
Sim, é uma escola com poucos alunos, não é?
Claro. Se for uma escola que acabe por trazer uma atmosfera, porventura, mais empática em relação aos ritmos e aos processos educativos de cada criança, eu não tenho dúvidas nenhumas que pode ser muito importante. Se com isso se puder ir buscar um conjunto de ganhos acrescidos na maneira como cada criança reflete, pensa, discorre sobre determinados temas da sua aprendizagem, sem dúvida, é muito importante. Mas atenção, eu também acho fundamental que nós não percamos de vista que depois eles também vão ter que fazer um processo que não devia ser sempre assim, mas muitas vezes é. Vão ter que se adaptar à maneira de pensar de um professor, à forma como explica, à forma como pensa. E é este pingue-pongue que faz com que eles cresçam muito bem. Uma redoma não é necessariamente só um sítio muito protegido. E já agora, é também muito importante um outro aspecto. É que às vezes os pais compram projetos educativos que são vendidos como o modelo A, modelo B, modelo C, e esses modelos, grande parte das vezes, trazem aparentemente mais-valias ao processo de aprendizagem de um filho, mas às vezes os pais nem sempre tomam em consideração que os modelos não correspondem milimetricamente àquilo que de alguma forma eles se propõem. Ou seja, há seguramente, como em todas as escolas, não vale a pena fazermos disto sequer um drama, mas há seguramente intérpretes do método Montessori que são magníficos na maneira como trazem as crianças para a aprendizagem, e outros que são assim, assim. E como no ensino diretivo, há professores magníficos e outros que nem sempre correspondem àquilo que os pais pretendem. Portanto, às vezes os pais agarram-se muito a esquemas alternativos em termos de aprendizagem, como se com isso prolongassem a infância. Ora, eu não acho que seja necessariamente assim. O que eu acho muito importante é que os pais não percam de vista que a escola é mais importante do que muitas outras atividades, mas calma, os pais não podem continuar, seja qual for O projeto educativo que queiram para os seus filhos é pôr a escola à frente da infância, porque se for assim, não há projeto educativo que compense aquilo que uma infância mal vivida deitou a perder.
Esta mãe pensa que a filha, que fez o primeiro ciclo neste método de ensino Montessori, pode, através de viagens e de outras experiências, compensar aquilo que se chama o ensino público menos personalizado. Isto faz sentido?
Pode. Quem sou eu para dizer o contrário? Claro que pode. Eu continuo a achar, acho que achamos todos, que uma criança com mundo e com vida tenha a escola da vida a trazer-lhe um conjunto de recursos que são muito preciosos para a maneira como aprende. Nada opôs. Mas cuidado, volto a dizer, que às vezes este tipo de modelos, dependendo dos intérpretes, que fique muito claro, nem sempre fazem com que as crianças acompanhem uma escolaridade a um ritmo dentro daquilo que está planeado pelo próprio Ministério da Educação, no que respeita às metas curriculares. E às vezes acontece que os pais ficam muito sossegados por um primeiro ciclo, que é de facto um ciclo muito importante para a aprendizagem de uma criança e para a sua relação com o conhecimento e com a escola, mas nem sempre aquilo que, de alguma forma, eles têm para aprender, lhes dá os argumentos indispensáveis para que depois continuem a crescer com o mesmo registo. E por outro, eu não me canso de chamar a atenção disto, e nada contra o ensino particular e cooperativo, mas eu acho que às vezes nós corremos o risco de diabolizar um bocadinho o ensino público. E aquilo que nós observamos invariavelmente, são os nossos filhos a tentarem ter notas muito altas para entrarem, mais tarde ou mais cedo, no ensino público. Ou seja, afinal de contas, ele não é assim tão escorregadio, tão mau. Se calhar, pode ir-se buscar muitos bons exemplos, boas práticas do ensino particular e cooperativo e de alguns destes modelos, não tenho dúvidas disso, mas é importante que nós possamos perceber que estas escolas, sendo mais meninos, sendo mais plurais, às vezes não sendo tão personalizadas como à primeira vista pode parecer, não são escolas tão más como às vezes nas entrelinhas se deixa fazer crer.
E também pode pensar esta mãe que a mudança de escola não é definitiva. O percurso pode se ir ajustando.
Invariavelmente, às vezes nós comparamos o modelo porque achamos que a forma como ele nos é vendido tem tudo aquilo que nós esperávamos para um filho e depois esquecemos que são os professores que fazem o modelo. E às vezes entre os professores, a prática pedagógica e o modelo, há diferenças muito grandes. Portanto, nessas circunstâncias, eu gostava que não houvesse esse tipo de choques, mas há. Faz parte da vida, muitas vezes, e faz parte da gestão da própria escola, às vezes, com coisas tão simples e que deviam ser melhor pensadas, como por exemplo, a maneira como se distribuem as crianças numa turma, que nem sempre é aleatória, às vezes é batoteira, e logo aí começam enviesamentos que todos juntos podem contribuir para que um projeto educativo, podendo ser bonito no papel, depois tenha uma discrepância entre a arquitetura e a engenharia que ele leva a efeito e as coisas às vezes sejam muito distantes, mas mesmo muito umas das outras.
Eduardo, hoje ficamos por aqui. Já sabe, pode sempre escrever-nos para eduardosa@observador.pt. E quanto a nós, Eduardo, encontramo-nos amanhã para mais um programa. Até amanhã e obrigada.
Até amanhã, Judite. Um abraço para si e obrigada.