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Menopausa sem tabus. Eduardo, boa tarde. É a promessa deste programa, deste "Porque Sim Não É Resposta", falarmos de menopausa, perimenopausa e outras coisas acabadas em pausa. Também podemos falar da andropausa. Eu acho que para isso é melhor um programa sozinho.

Eu acho que ganhávamos com isso.

Eu acho que sim, porque acho que também é pouco abordado. Dito isto, a questão da menopausa também tem havido aqui um despertar sobre o tema, mas a verdade é que se os homens tivessem menopausa, isto já estava mais estudado.

Olá, Judite. Antes de mais, acho que isso é um bocadinho sexista.

É um bocadinho.

Judite, não acho. Acho que convivermos com o envelhecimento não é uma coisa simples. Sobretudo quando o envelhecimento nos dá alguns sinais de que o nosso corpo já não é milimetricamente o que era, e isso é uma coisa que custa. Muitas vezes, antes da menopausa, estamos nós sentados a tentar ler um jornal e de repente reparamos que os nossos olhos já não fazem a focagem com a eficácia devida. Portanto, nós quando convivemos com o facto de estarmos mais velhos, é uma coisa que tem um impacto muito grande dentro de nós. E não acho que seja trágico, devo dizer. Acho que às vezes falamos pouco destas coisas, como se no fundo passássemos por elas com uma leveza que não é verdade. E, portanto, sim, a menopausa não é uma coisa fácil, de modo algum, sequer. Sim, sentirmos o nosso corpo a mandar em nós é uma chatice, porque de repente percebemos que tudo aquilo que fomos construindo em relação a ele ou no relacionamento com ele, fica numa termadeira fora de lugar. E de repente também percebemos que entramos ali num conjunto de transformações, que são transformações corporais, que é a maneira como conseguimos ou não gerir o peso, a forma como nos relacionamos com um conjunto de aspectos emocionais à nossa volta e a forma como às vezes reagimos mais acaloradamente a cada um deles. Tudo isso junto faz com que a menopausa tenha, de facto, um peso grande e tanto maior quanto mais ela é clandestina.

Mas aquilo que nós sabemos hoje em dia é que a menopausa não é só uma questão física. E cada vez temos mais dados da influência da menopausa no estado de espírito, no humor, na saúde mental. E outro dia estava a ler um texto muito interessante que me passou pelas mãos, dizendo que não é o fim de uma era, mas uma transição para um novo e significativo capítulo na vida das mulheres. A verdade é que elas deixam para trás a fertilidade e para muitas mulheres isso está intrinsecamente ligado com o seu eu.

Olha Judite, começando pelo princípio, nada é unicamente físico. E, portanto, às vezes nós criamos esta ideia, um bocadinho fora do sítio, de que há aspectos que são físicos e aspectos que são psicológicos. Tudo se mistura. E mais, tudo se influencia reciprocamente, que é uma coisa que nem sempre ajuda, nomeadamente nalgumas circunstâncias.

Mas nós temos o cérebro a regular a produção de estrogénio, portanto, isto também tem influência.

É verdade, mas também a reagir através de comportamentos, de emoções.

Aos sinais.

Aos sinais emocionais e a tudo o resto que faz parte dele. E verdade seja que quanto mais uma mulher é saudável, mais tem uma leitura fina de todas estas mudanças corporais e inevitavelmente reage a elas como se fosse ali uma espécie de gráfico de um sismo, que muitas vezes é mal interpretado e que é, acima de tudo, sinal de saúde mental. Eu tenho medo, todavia, Judite, dessa leitura das mudanças como se, de repente, a coisa bem embrulhada... Vamos lá ver. Uma mulher sente que já não manda na fertilidade, de um certo ponto de vista, até pode ser-

Libertador?

Libertador. É verdade que de um ponto de vista, por exemplo, da sexualidade, está imensamente mais madura do que quando tinha 20 ou 30 anos. E evidentemente que estas mudanças todas podem fazer com que ela fique mais atraente, mais bonita, depende da forma como se coloca nisto tudo. Às vezes eu tenho medo das pessoas diante do envelhecimento, alguns homens também, já agora que falamos deles, porque às vezes arranjam ali uma embalagem toda muito mais jovial e fresca, que não corresponde àquilo que de facto se passa e que, mais do que assumir uma mudança, acaba por significar iludi-la, mascará-la, quando na realidade o que se passa é isto: nós vamos ficando mais velhos. Mais velhos pode significar mais sábios, mais bonitos, com outro tipo de leitura em relação ao mundo e em relação às pessoas e a nós próprios. Mas é verdade que o primeiro impacto não tem graça absolutamente nenhuma, porque de repente há ali um sinalzinho do nosso corpo que diz: "Nada de peneiras, por mais que tu estejas mais bonita, ou te sintas mais bonita, ou te sintas igual à rapariga que eras quando tinhas 18, 20 ou 25, ainda assim O corpo às vezes marca a hora e isso dói.

Há aqueles sintomas comuns, que toda a gente já ouviu falar: as ondas de calor, os suores noturnos, as insônias, mas também há fadiga, alterações no peso, dores nas articulações, dores musculares. E depois há a irritabilidade, a ansiedade, em alguns casos depressão, dificuldades de concentração, alterações de humor. E depois há o risco de doenças cardiovasculares, alterações metabólicas.

Cá parou.

É verdade. É que há uma série de linhas hoje em dia que falam em cuidado com a alimentação, prática de exercício físico, o estilo de vida saudável, a terapia hormonal de substituição. Ou seja, para cada um destes problemas, o apoio psicológico, claro, têm surgido opções de tratamento e estratégias para lidar com os sintomas. Em compensação, um homem quando chega à meia-idade compra um Ferrari.

Quer dizer, era ótimo que comprasse, porque era sinal que tinha dinheiro para o fazer.

Sim.

Às vezes muda o visual e passa a ideia de que as mulheres envelhecem e os homens ficam mais interessantes. Eu lamento, mas não subscrevo.

Ainda bem.

Gostaria muito de subscrever, devo lhe dizer, mas não subscrevo, porque esses sintomas todos que refere são sintomas potenciais que basicamente acabam por ser também inerentes ao fato de estarmos vivos. Verdade seja dita.

E todos nós esperamos não ter estes sintomas ou ter menos.

Como é evidente. E todos nós temos a noção que morrermos ou ficarmos doentes é uma questão de tempo. E quando nós temos essa leitura, nada de trágico trabalharmos para que no fundo nos tornemos mais saudáveis todos os dias, dentro daquilo que está ao nosso alcance. É evidente que sim. Eu não acho que os homens fiquem assim tão mais bonitos. Acho que às vezes, quando iludem a idade com um carrão ou com um conjunto de tiques e de manias, ficam adolescentes aos 50 anos e devo lhe dizer que não tem graça absolutamente nenhuma. Porque aquela ideia de que, no fundo, dizem meia dúzia de banalidades, de preferência, dentro da tendência do momento, e fazem de conta que têm 40 e se vendem como 40 e às vezes se apresentam como se tivessem 40.

Ficam sempre nos 40.

É uma coisa tão deprimente, é uma coisa tão feia e, desculpe, tão estúpida, porque parte do pressuposto que anda toda a gente a dormir e que não repara o óbvio. E, portanto, sejamos razoáveis. Nós todos somos, em muitos aspectos, muito mais saudáveis do que imaginamos, mas somos muito mais frágeis e, portanto, às vezes não é uma mudança que nos desequilibra, mas às vezes uma mudança de idade, chamemos-lhe assim, é o empurrãozinho que às vezes nos faltava para deixarmos a nu uma mão cheia de fragilidades que estavam mais ou menos retocadas com maquiagem, e de repente ficam mais claras. Só isto, mais nada do que isto. Agora, eu também acho que às vezes as redes sociais marcam agendas. Acho muito bem que a esse nível elas marquem, devo dizer, mas de repente é um bocado como na saúde mental. Quando as pessoas falam de saúde mental: "Bom, eu sim, eu também ando em acompanhamento psicológico e vamos falar da minha saúde mental". E de repente era quase chique dizer isso. Agora é quase chique falar da menopausa e das transformações que isso dá. E eu às vezes acho muito importante que as pessoas possam falar daquilo que sentem. Meu Deus, só acho. Mas às vezes, entre o falar e o exibir um bocadinho, há uma linha ténue. E quando exibem, quer dizer que se calhar essas mudanças todas, que era suposto que elas estivessem a viver com mais ou menos dificuldade, mas a viver de uma forma madura, em muitas circunstâncias, estão a ser ali muito retocadas com o surfar na maionese, que nem sempre corresponde àquilo que devia ser.

Nós prometemos um programa sobre a andropausa.

Andropausa.

Ok.

Eu acho que era tão importante.

Está combinado.

Acho mesmo, sinceramente.

Está combinado. Até podemos fazer já amanhã.

Aproveitamos a embalagem.

É assim altamente democrático. Já agora, tenho que lhe dar os parabéns, porque saíram hoje os rankings de podcasts e o "Porque Sim Não É Resposta" está num lugar que a todos nos honra e nos deixa muito felizes.

Olhe, Francisca, temos que nos dar os parabéns, porque como sabe, nós os dois somos cúmplices nisto e se as coisas correm bem, a culpa é nossa. Quando correm mal, é nossa também.

Agradeço-lhe a parte que me toca. Quanto a mim, é uma honra fazer o programa consigo.

E a mim.

Eduardo, um grande abraço. Obrigada. Encontramo-nos amanhã. Amanhã para a andropausa, não esquecer.

Está combinado, eu não esqueço.

Até amanhã.

Até amanhã.