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Começa agora mais um "Porque Sim Não É Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar de beleza. Olá, Eduardo. Concorda com a ideia de que não há belezas normais?

Olá, Judite. Eu concordo.

Ou seja, a beleza é, de alguma forma, uma exceção?

É tão hábil, Judite. Eu disse isso e agora fiquei embaraçado. Vamos lá ver. Judite, eu gostava de lhe dizer que a beleza não é uma exceção, mas é verdade que em muitos momentos nós temos a impressão, todos, acho eu, que as pessoas não são tão bonitas ou parecem não fazer questão de ser tão bonitas como podiam. Acho que, às vezes, elas fazem mais questão em ser bonitas por fora do que propriamente bonitas por dentro. E também é verdade que se só forem bonitas por fora, fica ali um lado mais ou menos misterioso e distante, que nos faz perguntar como é que elas são por dentro. Claro que as pessoas podem dizer: "Ei, mas quando alguém é muito bonito por dentro, isso sente-se por fora". Também é verdade. Há aquela expressão que eu acho realmente fora de lugar, que são aquelas pessoas que depois mostram a sua graça, que muitas vezes era associada um pouco à graça de Deus, mas é como se tivessem uma luminosidade absolutamente fora de lugar, que as torna únicas. Agora, a verdade é que eu acho que todas as belezas são raras, todas. E não é por serem esparsas, muito poucas, etc. Acho que as pessoas quando fazem questão de se mostrar tal como são, de uma forma transparente, sem que se produzam, como se se vendessem como um produto. As pessoas são, de facto, com todas as particularidades que fazem parte delas, são belezas tão raras, que mais uma razão eu acho que acaba por existir para nós dizermos: "Mas por que diabo é que elas acham que têm que ser só normais, quando são singulares, únicas e às vezes parecem ter quase medo de assumir isso?"

Mas os filtros e as redes sociais estão a criar um padrão de beleza impossível?

Judite, às vezes, nós se calhar vamo-nos confrontando muito com a sensação de que as pessoas bonitas são aquelas que têm as medidas meticulosamente no lugar e que depois vai-se a ver e têm tanto Photoshop ou são, como agora se diz com algum sarcasmo, tão turbinadas, que de repente parece que não é uma beleza natural, é uma grande produção. As pessoas que ousam ser bonitas, são aquelas pessoas que se permitem ser uma beleza natural, isto é, que são iguais a elas próprias, que não precisam de andar a pensar as palavras que dizem ou os gestos que têm, porque de alguma forma acabam por ser tão soltas, tão livres, que inevitavelmente nos tocam com aquilo que têm para dar. A diferença é que me parece que nós todos temos muito mais essa potencialidade do que parece e que às vezes nos encolhemos como se fôssemos demasiado normais, tomando em consideração aquilo que nós definimos empiricamente como o ideal de beleza, como se disséssemos, por outras palavras, que ao pé dele ficássemos sempre aquém e fôssemos demasiado normais para aquilo que gostávamos de ser.

Porque muitas vezes aquilo que nos distingue é aquilo que mais escondemos.

É verdade. Nós temos a ideia, que se calhar todos fomos construindo, uns mais, outros menos, de que aquilo que nós somos pode não chegar para que as pessoas gostem verdadeiramente de nós. Acho que sem quererem, as pessoas com quem cresceram foram dando a entender ou pelo menos foram permitindo que nós construíssemos essa ideia de que aquilo que somos pode não chegar. É preciso um bocadinho mais, que é quase como se permitissem que nós construíssemos a ideia de que temos que acrescentar sempre alguns aspectos àquilo que somos para que finalmente gostem de nós. E, portanto, sem quererem Eu acho que nos foram dando empurrõezinhos para nós sermos pequenos camaleões. E quando é assim, nós estragamos todos, porque ficamos numa situação muito desencontrada com as coisas que, afinal de contas, são indispensáveis para nós. E portanto, nessas circunstâncias, parece que a nossa simplicidade fica sempre um pouco aquém daquilo que devia para que finalmente as pessoas gostem de nós tal como somos.

As crianças nascem a acharem-se bonitas?

Não, nascem a acharem-se lindíssimas.

Mas há um momento em que começam a olhar para o espelho de outra forma?

Não obrigatoriamente. O espelho das crianças é o olhar dos pais. E quando as crianças olham para o olhar dos pais, vejam o seu olhar. Por exemplo, a olhar para um filho, o olhar dos pais é o olhar de uma luminosidade que não é comum. Às vezes aquilo que separa o pai da mãe é que o pai e a mãe têm a noção que a maneira como cada um olha para um filho transmite uma luminosidade que manifestamente, às vezes, não conseguem transmitir de um para o outro. E quando as crianças sentem essa luminosidade, elas são aparentemente egocêntricas e por isso é que é fantástico que nós vamos com elas pela rua e elas são pequeninas e elas dizem olá a toda a gente, espalham magia, como dizem as adolescentes, que é como se dissessem: "Eu estou tão habituada a ser olhada com uma luz desmedida, que eu não tenho como não me considerar bonita". E, portanto, é natural que depois as crianças, quando as pessoas não as cumprimentam à medida da sua gentileza, fiquem mais ou menos atônitas a perguntar assim: "Mas o que aconteceu àquela pessoa?" E é este olhar que nos faz sentir muito bonitos. A questão que coloca é uma questão muito sensível. Mas por que diabo é que tendo sido praticamente todos nós muito educados com este tipo de aprendizagem, a certa altura nós fomos desencontrando dela a ponto de imaginarmos que aquilo que somos não chega para as pessoas gostarem de nós. E isto é que é talvez a grande questão, porque depois, claro, quando se é adolescente e o nariz cresce demais e as ancas andam aos saltos, etc. Claro que depois quando uma pessoa olha ao espelho pensa: "Esta não sou bem eu". Mas lá está, se mais uma vez houver quem saiba olhar para nós, nós percebemos perfeitamente que podemos não ser as pessoas mais inacreditavelmente belas por fora, mas de repente sentimo-nos tão amados, e é isso que nos dá segurança, que percebemos que podemos não ter as medidas standard e tudo mais, mas no final de contas sentimo-nos belezas raras e isso dá-nos a sensação de que se calhar todas as pessoas não têm de gostar de nós, mas não há como não existir alguém que não venha gostar muito de nós.

E é uma beleza que vamos de fim de semana também.

Podemos trabalhar para ela e tudo.

Exatamente. Bom fim de semana, Eduardo. Um grande abraço e obrigada.

Muito obrigado.