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Começa agora mais um "Porque Sim Não É Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar de boas turmas. Olá, Eduardo. Quando pensa numa boa turma, o que é que lhe vem primeiro à cabeça? São os alunos, o professor, o ambiente?
Olá, Judite. Quando falo de boa turma, vem-me primeiro à cabeça o professor. Aliás, vem-me sempre primeiro à cabeça o professor, porque um professor é tão precioso, tão indispensável, pode ser tão revolucionário na vida dos nossos filhos que não tenho como pensar noutra alternativa. De facto, pode ser muito importante, pode lhe abrir tantas janelas, tantas avenidas na cabeça, que o papel de um professor, se calhar, às vezes não é bem medido por nós, porque se fosse, teríamos mais exigência, mas ainda mais respeito por todos aqueles professores que fazem parte da vida dos nossos filhos.
Numa turma heterogênea, com dificuldades e necessidades educativas diferentes, o que ganha uma criança com a diversidade?
Ganha humildade, Judite. Ganha a possibilidade de descobrir que por muitas coisas boas que saiba fazer, ainda assim não é tão onipotente como imagina. Ganha a possibilidade de aprender com os outros também e de aprender à maneira dos outros, ou seja, de ver outras formas, seguramente muito diferentes, de refletir sobre o mesmo tema e de, com isso, ir complementando tudo aquilo que sabe com outro tipo de perspectivas. Portanto, quanto mais heterogêneo, dentro do que é razoável, sem dúvida nenhuma, melhores são as turmas.
Há um número a partir do qual se perde a atenção de cada criança, de cada aluno?
Judite, vamos lá ver. Eu acho que uma turma para ser uma turma não é um grupo de explicações, portanto não são cinco ou seis meninos, mas também não acho que seja razoável que sejam 26, 27, 28 ou 32. Nessas circunstâncias, tudo o que seja acima de 15, eu acho que é importante, porque de alguma forma já dá para criar uma grande diversidade e dá, sobretudo, para criar depois vários grupos que hoje têm um formato, amanhã outros completamente diferentes, mas à medida que vão interagindo e se vão reconfigurando, trazem novos desafios e novas apostas na aprendizagem, porque cada grupo tem a sua forma de estar. Depois andam ali um bocadinho à retalhada para ver quem é que ganha protagonismo, porventura, a liderança. Mas tudo isso junto traz ganhos muito grandes a um aluno no contexto de uma turma.
Avaliar por trabalhos e apresentações obriga cada aluno a expor-se perante os colegas. Isto é difícil para uma criança ou para um adolescente?
Não, é difícil para todos nós, Judite. É difícil mesmo para todos nós, mas eu acho importante que isso aconteça, porque desde logo fica claro se um aluno teve o trabalho de discorrer sobre as coisas, de pensar sobre elas, de formular problemas, de as colocar em perspectiva, e portanto, é muito importante. Depois, porque naturalmente tem que ser claro, sintético, e isso é uma sabedoria que se vai apanhando à medida que se vai experimentando fazer esse tipo de coisas. Tem que saber defender os pontos de vista no contexto de uma interpelação que lhe possa chegar de vários lados, professor incluído. Isso tudo junto acaba por ser muito importante nessas circunstâncias. Se calhar, eu gosto mais das apresentações individuais por isso. Porque são mais exigentes, porque obrigam muito mais os nossos filhos a não se esconderem na dinâmica de um grupo e a terem que se desembaraçar de uma forma muito acutilante diante das questões que lhes colocam.
Se uma boa turma não se avalia pelas boas notas, como é que os pais a reconhecem?
Judite, também se avalia pelas boas notas. Eu acho é que nós definitivamente temos que perceber que as boas notas não são notas como pó de arroz. Eu acho muito importante que os alunos sejam avaliados por aquilo que aprenderam, não tanto por aquilo que repetem. Às vezes, aquilo que repetem não tem a ver com aquilo que aprenderam. Aprender é recriar um conhecimento, é repensar, é ter uma ideia própria a partir daquilo que de alguma forma se aprendeu. Isso eu acho muito importante que os pais percebam. Não se trata de papaguear, trata-se de repensar. Por outro lado, eu também acho importante que haja esta diversidade toda de formas de avaliação. Um teste escrito não me choca nada, por ora essa. Por quê? Porque pode ser o momento em que o aluno é colocado perante um conjunto de exercícios e tem que, com paciência, mas também com alguma determinação, pensar sobre eles. Tudo o resto é importante: a capacidade de iniciativa, a capacidade de se envolver nos projetos de turma, tudo aquilo que acaba por ser também a inovação que traz à própria turma, no sentido de ir à procura de temas de interesse e, já agora, no sentido da sua resolução. Portanto, eu acho que nós temos mesmo que repensar a sério toda a avaliação, porque já todos percebemos que a avaliação muito centrada nos testes, muito centrada nas notas, muito centrada, às vezes, em alguns centros de explicações que magicamente sabem com antecedência uma certa configuração do teste que vai acontecer dois a três dias depois, não é séria sequer, porque faz com que os nossos filhos trabalhem para as notas. Eles até entram na universidade, às vezes, com notas muito altas, mas que são notas um bocadinho pré-fabricadas. Isso não é razoável, porque muito rapidamente depois a vida encarrega-se de pôr verdade onde, a certa altura, nós tínhamos, sobretudo, um bocadinho de vaidade e isso só os prejudica, o que se ganha se eles forem por aí.
Eduardo, hoje ficamos por aqui. Amanhã voltamos com mais um tema. Um grande abraço, obrigada e até amanhã.
Olá, Judite. Até amanhã.