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Boa tarde, bem-vindos a mais uma edição do "Porque Sim, Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Eu sou o Bruno Viera Amaral. Hoje vamos tentar responder não a uma, mas a duas perguntas de um ouvinte. Eu diria até que são questões recorrentes e de que já falamos aqui noutras ocasiões. Comecemos pela primeira, pelo princípio: como é que pais, o pai e mãe, com educações diferentes, contextos familiares diferentes, chegam a um consenso quanto à educação dos filhos? Boa tarde, Eduardo. Isto parece fácil, mas não é assim tão fácil. Como é que um pai e uma mãe com experiências de vida diferentes, depois se entendem quanto à educação a dar aos filhos?

Olá, Bruno.

Olá, Eduardo.

Com algumas discussões à mistura. Eu estava a tentar contornar a palavra discussão, mas pronto, já não consegui. Com algumas discussões à mistura, com algumas conversas, com trapalhadas pelo meio, com um a dizer uma coisa e às vezes o outro a dizer outra, um bocadinho diferente. Até por isto, porque o peso da educação que nós temos, às vezes condiciona-nos de uma maneira muito simples. Nós queremos tanto evitar alguns episódios, alguns gestos, alguns apartes dos nossos pais que nos magoaram, que às vezes damos voltas e voltas, e depois, sem darmos conta, acabamos a replicar os nossos modelos, pelo menos uma vez ou outra. E só quando o fazemos é que respiramos fundo e somos capazes de ultrapassar algumas imagens que nos ficaram e que de algum modo nos condicionam. Portanto, isto não se consegue logo. Consegue-se por ensaio e erro, consegue-se de contradição em contradição, coisas que são muito saudáveis para os pais e para as crianças, porque é na medida em que isto vai acontecendo, que os próprios pais, trazendo pontos de vista diferentes a tudo aquilo que eles imaginavam que era o razoável e às vezes chegando à conclusão que achavam uma coisa e estão a fazer outra completamente diferente. É deste caldo todo que eles depois vão aprendendo a ter uma forma de atuar, que é tendencialmente mais coerente, mais participada por um e por outro. E por isso é que os pais fazem sempre muito mais asneiras que os filhos mais velhos, porque estão a tapar a cabeça e a destapar os pés o tempo todo.

Ainda estão a aprender. A ideia de que um casal, antes de ter filhos, deve deixar estas coisas bem claras quanto à educação dos filhos, é uma ideia otimista demais? E que depois é completamente ultrapassada pela realidade, aquilo que o Eduardo estava a dizer, de que se têm às vezes ideias sobre a parentalidade, que se alteram com a experiência.

Sim, Bruno, é como querer andar de bicicleta antes de se sentar no selim.

Na teoria.

Sim, e portanto eu compreendo que às vezes definam um conjunto de princípios e que estejam de acordo. Só que depois se esquecem de todo o lado conjuntural deste tipo de experiências, porque às vezes as crianças falam por atos e por omissões, às vezes esticam muito a paciência dos pais até eles não poderem mais. Às vezes os pais estão de cabeça cheia, não estão com paciência para estar a explicar ou às vezes não têm aquele colo todo para aconchegar um protesto, uma birra e esse tipo de coisas. E, portanto, entre chegarem a uma espécie de acordo pré-parental, como é que nós havemos de fazer? E depois darem-se conta que chegados à altura de porem tudo isso em prática, as coisas se tornam, eu não digo mais difíceis, tornam-se muito mais reais, muito mais palpáveis e às vezes tapam a cabeça, destapam os pés. Aí faz alguma diferença. Eu acho importante que conversem antes de ter filhos, claro. Mas se me perguntar se é útil, muito útil, absolutamente indispensável para que consigam ser bons pais, não. Para serem bons pais precisam de ter só a humildade de aprender com os erros, porque obviamente os pais, todos os pais, tentam fazer o melhor que sabem, dão o melhor das suas convicções, mas são só pessoas e, portanto, como são só pessoas, mal seria que não errassem. Aliás, há uma coisa que preocupa muito, Bruno. São os pais mais jovens que passam a vida a navegar por receitas e soluções fáceis e outras coisas do gênero. E às vezes ficam tão empanturrados nestas receitas todas, às vezes que não têm nem pés nem cabeça e que são muito contraditórias, muitas delas, que depois parecem perder a capacidade de aprender a escutarem-se eles próprios, a lapidarem os erros. Isso aí é que me preocupa, porque pais de manual, não, por favor.

Não faz sentido.

Se for no registo pré-parental, claro que não.

E os pais? Um pai e uma mãe também são pais e mães de maneira diferente. Deve haver um chão comum, um campo comum, um entendimento da educação que querem dar aos filhos, mas depois, estabelecido esse campo comum, há formas diferentes de viver a parentalidade, até porque são pessoas diferentes.

São pessoas diferentes, têm histórias diferentes, têm experiências de filhos completamente diferentes. Têm experiências de pais diferentes, evidentemente, que trazer nove meses um bebê ali dentro e depois haver uma cumplicidade tão íntima, tão extrema, não é bem a mesma coisa do que estar a par de todo o crescimento e tentar participar nele. Não é a mesma coisa quando se é pai e mãe de um rapaz ou de uma rapariga. Depende um bocadinho daquilo que os pais imaginem que é mais fácil ou mais difícil de educar. Tem tantas nuances nisso tudo. Para isto depois que não se é igualmente pai ou mãe de uma mesma forma, à primeira, à segunda, à terceira ou à quarta. São tantas variáveis nisto tudo, que mais vale os pais não quererem acertar muitas vezes, quererem dar o melhor de si. Em piloto automático, os pais vão lá muito facilmente. Os pais têm um sexto sentido notável. Às vezes, o que me preocupa dos blogs, dos livros, etc, é que às vezes atrofia o sexto sentido dos pais, porque eles, através do sexto sentido, vão lá muito facilmente entre as probabilidades de errarem e a quantidade dos erros. A diferença é tão pequenina que, de facto, os pais são capazes de aprender muito depressa.

Eduardo, vamos à segunda questão desta ouvinte, que é uma questão mais espinhosa e que talvez até depois seja necessário mais do que um programa, que tem que ver com a interferência da sogra na educação dos filhos. Aqui já não é as diferenças entre os dois pais e diferentes formas de pensar a educação dos filhos. Estamos a falar de uma interferência, e mesmo interferência a sério, ou seja, ao ponto de a avó ir verificar a escola, ler as bulas, pôr em causa os medicamentos que são receitados pelo pediatra. Como é que uma mãe, sobretudo uma mãe de primeira viagem, lida com este tipo de problemas?

Com uma sogra assim? Estando todos os dias a imaginar que se aquela sogra continua a exorbitar funções, o filho da sogra arrisca-se a ter a mala à porta, não tarda nada. Porque depois é o pai do bebê que tem esta grande dificuldade de mediar duas mulheres que o amam e que às vezes estão ali a medir forças. Eu acho sempre que uma sogra tem o estatuto de utilidade pública, porque em vez de nós nos zangarmos com uma ou outra tolice das nossas mães, basta que uma sogra faça um comentário ligeiramente ao lado e nós já achamos que ela é terrível e tudo mais.

Que há sempre uma segunda intenção.

Sempre. Portanto, ela faz de uma maneira qualquer e a cotação da nossa mãe tem uma revisão em alta, e mais outra. E portanto, quanto mais ela faz este tipo de pequenas tolices, às vezes são mesmo pequenas tolices, a nossa mãe não para de ter ali um valor facial cada vez maior. Agora, eu tenho medo das avós. Eu acho que nós um destes dias devíamos falar sobre isso. Tenho medo das avós, porque são magníficas. Mas num primeiro filho, a mãe da mãe do bebê ou a sogra da mãe do bebê, tem um papel que muitas vezes nem sempre é tão organizador. Às vezes, na ânsia de ajudarem, desqualificam muito facilmente.

E despertam muitas inseguranças.

Aumentam-nas, mas aumentam-nas tanto. Que de repente é da maneira como se amamenta, a forma como se dá banho, a maneira como se muda a fralda, etc. E na ânsia de ajudar, desastre completo. Se, para além disso, tem este tipo de coisas, de ir por trás ler a bula, ir por trás ver a escola, andar ali por trás a fazer uma espécie de controle, mais ou menos clandestino, dos atos de uma mãe. Uma sogra que faz isso está a arranjar lenha para se queimar.

E como é que se afasta diplomaticamente?

Não se afasta diplomaticamente. Tem que, de uma forma cordial, educada: "Mas, por favor, vá lá, dona Isaura, não faça isso. Agora vamo-nos zangar as duas ao canto do seu filho, que nós adoramos, e da sua neta, pela qual nós estamos as duas babadas". Mas é muito difícil pra uma mãe magoada fazer as coisas com algum jogo de cintura. As mães magoadas deitam fumo pelo nariz e fazem uma cara muito feia e não resmungam, mas o olhar delas resmunga várias vezes e, portanto, às vezes tem que ser o filho a ser crescidinho o suficiente pra mediar esse tipo de conflito com muito bom senso. E não é daquela maneira de: "Mãe, não diga isto à Paula porque ela não gosta", porque ainda é pior a emenda que o soneto. E portanto, sim, um destes dias devíamos falar das mães ou das avós dos bebês de primeira viagem, porque elas querem ajudar, sim, mas às vezes ajudam e de que maneira.

Fica prometido para um próximo programa, porque é um assunto que sem dúvida deve preocupar muitos pais e mães, e não só de primeira viagem, mas fica prometido para um próximo "Porque Sim, Não É Resposta". Este chegou ao fim hoje. Estamos disponíveis em podcast, nas plataformas habituais e no site observador.pt e pode sempre enviar-nos, como foi o caso desta ouvinte, questões, dúvidas, através do e-mail eduardosa@observador.pt. Eduardo, muito obrigado, um grande abraço e até amanhã.

Eu é que agradeço. Um grande abraço e até amanhã.