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Começa agora mais um "Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar de ex-casais que continuam sem se entender ao fim de anos de separação e quem paga são os filhos. Olá, Eduardo. É frequente que anos depois de uma separação, os ex-casais continuem sem conseguir comunicar sobre os filhos? Não é esperado que isso se vá resolvendo com o tempo?
Olá, Judite. Devia ser. Mas são duas pessoas e às vezes nas duas pessoas há pelo menos uma que cria barreiras que são verdadeiros muros da vergonha, mas que existem e que a pretexto da forma como se sentem vítimas, lesadas, ou seja o que for, criam dificuldades todos os dias aos seus filhos e os amargam mais do que pode parecer. Eu acho que a certa altura os pais quando se separam, e acho muito bem que se separem, se entenderem que é esse o seu caminho, têm que perceber que os filhos não podem estar permanentemente a ser onerados por isso. Ninguém exige, eu não, de certeza absoluta, aos pais que depois de se separarem, vão jantar de 15 em 15 dias com os filhos e coisas do gênero, porque isso às vezes não é tão verdadeiro quanto à primeira vista pode parecer, por mais que eu respeite a intenção. Mas ser necessário a um filho explicar que há uma conta da farmácia pra dividir, que as propinas da natação permanecem por pagar e outras coisas do gênero, é uma coisa tão humilhante que eu não consigo entender, Judite, não consigo mesmo. Como é que ao mesmo tempo, quem promove isso, por mais que tenha ressentimentos e às vezes com toda a legitimidade, seja o que for, não consigo entender como é que ainda assim se considera uma boa mãe ou um bom pai, porque está a magoar, está a negligenciar e muitas vezes está a maltratar. Isto é uma coisa que não pode ser admissível e eu tenho esperança, devo dizer, que um dia os tribunais, quando os magistrados tiverem, se calhar, outra formação e os órgãos que decidem e deliberam no âmbito do direito da família forem mais plurais, porventura, tenho esperança que, de facto, isso configure negligência e maus-tratos e que daí se retirem consequências, porque tenho a ideia que se não se for por aí, se não se for até aí, coisa que eu gostaria muito que não fosse necessário, há muitos pais que se não forem advertidos, fazem isto com uma naturalidade, sem pensarem nos filhos. E portanto, o egoísmo, e é de egoísmo que se trata nessas circunstâncias, independentemente das dores que possam ter, não é compaginável com a parentalidade, tanto como se calhar eles imaginam.
Muitas vezes um dos pais sente que a sua opinião sobre a educação ou sobre a saúde dos filhos não tem o mesmo peso do que a do outro, mesmo quando formalmente ambos têm a mesma autoridade parental. Esse desequilíbrio é muito difícil de gerir.
Judite, é tão difícil que eu já vi tribunais a perderem duas horas, mas literalmente duas horas, pra decidirem quem é que paga o táxi quando é preciso ir buscar uma criança à natação. Portanto, quando chegamos a estes pormenores, significa que os pais já se inabilitaram pra parentalidade muito mais do que deviam. Agora, é claro que o clássico dos clássicos é os pais não acertarem na escola, é um deles querer escola pública, o outro querer escola privada, porque valha a verdade, muitas vezes também não têm a mesma robustez financeira para fazerem esse tipo de opções. Mas depois pegam nisso e é um ir e aito. "Eu não estou de acordo que ele ande no futebol, porque ao domingo ou ao sábado não me apetece levantar mais cedo." É legítimo que uma mãe ou um pai digam isso, mas se calhar também há soluções pra esse tipo de coisas. E portanto, isto é muitíssimo mais frequente no dia a dia dos tribunais. E por mais que eu às vezes fique atônito com algumas decisões judiciais e pergunto: "Meu Deus, será que essas pessoas são mães?" E eu digo mães, porque neste momento os tribunais de família são sobretudo compostos por mulheres. Será que são mães pra terem esse tipo de decisão? Às vezes eu não sei o que se passa, mas eu também percebo que o dia a dia destas magistradas, sobretudo das magistradas, é horrível, porque é estarem a confrontar-se com pessoas que estão a esgrimir argumentos, às vezes, absolutamente demagógicos, Judite. Completamente demagógicos. Eu já vi um recurso de um advogado em relação a um tribunal a dizer: "Não, eu exijo que o filho da minha constituinte consuma iogurtes da longa vida, em vez de consumir iogurtes de marca branca." E quando nós chegamos a este patamar, Judite Significa que os pais estão numa deriva de insensatez e alguém, nem que seja com algum músculo, precisará de os chamar à razão, porque no fundo estão a fazer muito mais do que imaginam mal aos seus filhos.
Há a possibilidade de uma ajuda externa, uma mediação familiar?
Eu faço parte, desde o princípio, da primeira associação de mediação familiar. E eu acho que com a minha intenção, o Dr. António Farinha, um homem de uma bondade, de uma clarividência imensa, quando a criou, tinha isso em mente, e não só ele, o Dr. Lebrenha Lúcio e tantos mais. Mas eu acho que não, Judite. Eu acho que se não for o músculo de um magistrado a assustá-los um bocadinho, eu acho que a certa altura eles acham que podem tudo. Os filhos são deles, eles podem tudo e à boleia disso criam, volto a dizer, situações que são muitas vezes negligência, noutras vezes maus tratos. E eu chamo a atenção para isso, porque há uma lei que define muito claramente o que é perigo para uma criança e às vezes os tribunais de família, por ponderação, como é óbvio, não dão o devido entendimento a essa lei nesses contextos, mas eu às vezes gostava que dessem para pôr estas coisas graves todas um bocadinho mais no lugar, tal como elas deviam estar.
E depois há o impacto que isto tem nas crianças, nomeadamente, vamos pensar nos adolescentes que crescem com os pais que não conseguem falar a uma só voz. Sobre temas importantes, ainda por cima.
Sobre tudo, Judite. Até sobre o dia a dia, porque às vezes há crianças que crescem em realidades paralelas. A mãe acha que ele tem que se deitar às 21h e há pais que por birra dizem: "Mas em minha casa mando eu, se eu quiser, ele deita-se às 23h30". E às vezes quando nós perguntamos: "Dê-me um argumento." "Porque sou eu que mando." E quem diz em relação ao deitar, em relação a tantas coisas mais. Eu estou a dar os exemplos mais banais, como é evidente. Também há mães insensatas, infelizmente. Em casa da mãe não utiliza, por exemplo, uma consola senão ao fim de semana, durante algum tempo. Em casa do pai está à descrição o tempo todo que entende que deva estar. E portanto, crescer em realidades paralelas a mim incomoda-me, porquê, Judite? Porque não limite. Eu depois acho que estes pais só podem ter um bocadinho de lata quando se preocupam com a baixa autoestima de uma criança, mas como é que uma criança pode ser segura se vira sanduíche no resto do tempo entre um fogo cruzado dos pais? Não pode. Que ficam preocupados porque não conseguem ter resultados escolares condignos. Como é que podem ter cabeça quando às vezes passam por humilhações sobre humilhações? E isto é mais regular do que devia. E portanto, nós temos que falar muito destas coisas para estes pais caírem neles, que aliás é uma expressão muito bonita, caírem neles e perceberem que podem estar forrados de razão em relação aos ressentimentos todos que tenham em relação ao pai daquele filho. Eu entendo isso. Meu Deus, como é que se concebe do ponto de vista humano, que o melhor de nós, neste caso um filho, seja ao mesmo tempo alguém que seja dividido pelo pior de nós, isto é, a mãe ou o pai de quem nos separámos de uma forma sangrenta e irreparável? Eu percebo que isto é dificílimo, mas os pais têm que ter a noção que se não se chegarem à frente para protegerem estes filhos, este fogo cruzado bem não lhes faz. E eu gostava que eles não perdessem de vista que isto, em muitos momentos, é negligência e quando a negligência é continuada, sem qualquer reparação no entretanto, passa para o mau trato e era bom que houvesse alguém que lhes pusesse o dedo no nariz e dissesse: "Acabou-se, não podemos andar desta forma porque estamos a estragar uma criança bonita e que merece muito mais em relação às suas necessidades, em relação aos seus direitos do que este tipo de atitudes."
Sem dúvida, Eduardo. Espero que haja muitos pais a ouvi-lo agora. Um grande abraço. Obrigada e até amanhã.
Muito paciência, Judite. Até amanhã.