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Boa tarde, bem-vindos a mais uma edição do "Porque Sim Não É Resposta", a última desta semana, com o psicólogo Eduardo Sá. Eu sou o Bruno Viera Amaral. E Eduardo, hoje vamos aqui a uma expressão que o Eduardo ouviu alguém e que diz assim: "Ser feliz é não ter problemas." Está aqui a chave da felicidade é não ter problemas. Há muito pra dizer sobre esta frase tão simples.

Primeiro, olá.

Olá, Eduardo.

Eu fiquei quase em choque. Olá, Bruno. Às vezes é. Às vezes nós temos esta ideia de que somos felizes, sobretudo, quando há uma espécie de alinhamento tal que toda aquela poeira dos dias, de repente, parece ter assentado e as coisas são simples.

Está tudo encaixado, está tudo no sítio certo.

Caixadinho, exatamente. Mas a verdade é que não é assim. A verdade é que, se calhar, nós somos mais felizes quando aprendemos a reconhecer os problemas. Às vezes, nem sempre nós reconhecemos e de certa forma, vivemos com eles. Somos, se calhar, mais felizes quando não fugimos às dores. É claro que falar de dores a propósito da felicidade é um parvis, mas é verdade. Às vezes é preciso passarmos por algumas dores duras, muito duras, pra percebermos até que ponto é que as pessoas que estão ao pé de nós são capazes de as entender e já agora, são capazes de nos resgatar. Às vezes, as dores são uma espécie de teste do algodão pra felicidade. E, portanto, não é não ter dores, mas também é verdade que se pode ser feliz com dores. A felicidade não pressupõe obrigatoriamente o fácil, mas é evidente que quando nos sentimos felizes, todas as complicações do mundo parecem uma brincadeira de crianças. É preciso trabalhar muito pra chegar ao fácil e eu tenho medo que às vezes fique no ar a ideia que é tão fácil, que qualquer Photoshop resolve e não é verdade. Portanto, quanto mais somos capazes de perceber que as coisas muitas vezes são difíceis e ainda assim não baixamos os braços, somos também mais capazes de ser felizes.

É que eu estava aqui a pensar no sentido da frase. Nós podemos ver aqui um lado que é a condição pra felicidade é não ter problemas, ou seja, quando não tenho problemas, então é aí que posso ser feliz. Mas também podemos alterar aqui os termos e pensar que quando somos felizes, não temos problemas. Ou seja, aqui é a felicidade, a condição para não termos problemas, não para não termos dores, não termos problemas tout court, mas para não olhar para os problemas de forma que eles nos impeçam de ser felizes. Ou seja, dar a real dimensão, olhar os problemas na sua real dimensão.

Eu acho que quando nós nos sentimos felizes, continua a haver governantes no mundo que não são pessoas equilibradas, continua a haver maldade, às vezes, ao nosso lado, continua a haver crises e o mundo, que podia ser um sítio lindíssimo, às vezes parece mais adoentado do que devia, continua a haver isso tudo. Mas, de repente, nós percebemos que nada disso nos impede de ser felizes. E mais, que o fato de nos sentirmos felizes apesar de tudo isso, nós entendemos melhor do que noutras circunstâncias que de fato a felicidade não pode ser vendida como um produto. A felicidade é um estado espírito, é uma conquista. E constrói-se na relação com outras pessoas. Às vezes fica aquela ideia do Vinícius: até que ponto é que podemos ser felizes sozinhos? Às vezes podemos, claro que sim, mas precisamos de estar permanentemente a perceber quem são os cúmplices que podem estar presentes nesta nossa ousadia de nos querermos encontrar com a vida e ter com ela uma relação feliz. E eu percebo que quando nós somos capazes de lá chegar, a felicidade não tem a validade de uma cabeça de um fósforo, mas eu percebo esta expressão, porque no fundo Ao pé de sermos felizes, tudo o resto parece não ser problemas. Isso é uma coisa fantástica.

Isso não significa que, em estado de felicidade, ignoremos a existência de problemas e olhemos para o lado e façamos de conta que os problemas não existem.

Claro que não. A felicidade não é uma bebedeira, valha-me Deus, é um estado de lucidez, um estado de uma enorme lucidez. E eu tenho até a ideia de que quando se passa esta noção de que felizes nós somos ou vivemos alheados, é qualquer coisa que foi posta a circular por alguém que se calhar tinha uma inveja enorme da felicidade dos outros e que depois tenta criar estes condicionamentos, como se, no fundo, quem não consegue ser feliz tivesse, às vezes, muita dificuldade em aceitar a felicidade dos outros.

É um problema também a medição ou comparação de graus de felicidade.

Sim. Nós vivemos num mundo estranho, não é? Porque nós, na maior parte das vezes, confundimos a euforia com a alegria. A alegria resulta de um estado de felicidade. A euforia é um estado de alguma emancipação solitária em relação à dor, é uma coisa diferente. E, portanto, sim, é legítimo que nós possamos lutar, mesmo num mundo que às vezes nos diz: "Não, não, não." Ou o caos ou a euforia, nós temos a legitimidade de dizer não. Nós temos uma cabeça para pensar e queremos ser felizes. Isto não é uma utopia, não é qualquer coisa que às vezes as pessoas mais velhas nos dizem: "Sim, eu quando tinha a tua idade também achava isso." Não. Quando nós lutamos por aquilo em que acreditamos, ficamos mais bonitos, começando pelo princípio, e não é uma coisa tão insignificante, mas já agora ficamos muito mais capazes de conseguir aquilo em que acreditamos. E às vezes fala-se pouco das coisas em que acreditamos e na esperança que podemos ter nisso, como se tudo fosse um fast food e em relação à felicidade, obviamente, não é.

E é assim, felizes que chegamos ao fim da semana e vamos para fim de semana. Eu vou para férias, Eduardo, e vou feliz. Vou feliz e havemos de nos reencontrar aqui para o "Porque Sim, Não é Resposta". É sempre um prazer enorme conversar consigo e estar aqui para os nossos ouvintes. O "Porque Sim, Não é Resposta" continua sempre em podcast, nas plataformas habituais, no site observador.pt. Continue a enviar-nos as suas questões, dúvidas e partilhas através do e-mail eduardosa@oobservador.pt. Eduardo, um grande abraço. Muito obrigado e até um dia destes.

Até um dia destes. Boas férias.

Muito obrigado.