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É agosto, mas estamos cá nós. "Português Suave" na Rádio Observador. Eu sou o João Costa e Silva, comigo está o José Rafael Lopes e o habitual, sempre reconhecido no meio em que se destaca muito, que é a língua portuguesa.

Olá.

E nas redes sociais. Marco Neves, olá.

Olá, Marco.

Bem-vindo.

Seja bem-vindo de novo.

Não viste chinelos.

Não vim de chinelos. Olha, as pessoas olhavam e pensavam. Estou mais fresquinho do que é normal. Está muito calor. Eu estive uns dias em Peniche, já vos disse várias vezes. Aliás, nós fizemos a transmissão a partir de Peniche na última semana.

Exato, à distância.

Se bem me lembro. Foi na última semana. Está lá sempre um fresquinho agradável quando está calor no resto do país, quando está muito calor no resto do país. É um bom sítio para ir de férias.

E é bom peixe.

Tem bom peixe.

E deve-se comer muito bem. Entretanto, avisar só aqui os nossos ouvintes que neste mês de agosto vamos ter aqui menos episódios, mas temos uma surpresa que vamos revelar no final deste episódio.

Temos uma surpresa?

Temos, eu acho que sim. Acho que os nossos ouvintes vão gostar.

O Marco agora a pensar: onde é que eu pus aqui surpresas?

Acabei de inventar. Não, mas é mesmo.

Estou muito curioso para saber que surpresa é esta.

O que não é surpresa é a forma como começamos, Marco. Vamos à língua nas notícias.

Então.

A língua nas notícias, Marco, qual é que é a palavra ou as palavras?

José, que palavra é que tu me aconselhaste quando estávamos a conversar antes de entrarmos aqui?

Não pode ser dito nada na rádio. Não, estou a brincar.

Não, não é essa, é outra.

Tendo em conta as notícias desta semana, sugeri a palavra constitucional, mas não era essa que tinhas originalmente combinado.

Não, eu tinha pensado em férias. Mas pronto.

Constitucional é muito boa possível.

Podemos falar primeiro de constitucional e depois ir de férias.

Exato.

Constitucional, porque temos o Tribunal Constitucional nas notícias.

É verdade.

Posso dizer rapidamente, eu não tinha isto na cabeça, tive de ir ver, porque eu não tenho as palavras todas na cabeça, mas vem do latim constituo, que quer dizer "com estabelecer, estabelecer com". A Constituição é aquilo que nós estabelecemos uns com os outros. Mas atenção, os romanos não tinham o sentido de Constituição que nós temos hoje. Não havia uma Constituição do Império Romano, com esse nome, como existe a Constituição da República Portuguesa. Esse conceito de Constituição, na verdade, foi se desenvolvendo ao longo dos séculos. Aparece na Idade Média, por exemplo, em catalão, que é curioso, aparecem as constituições de algumas entidades. Mas com o sentido mesmo atual, eu penso, e se algum especialista em Direito Constitucional me quiser corrigir, terei todo o gosto, penso que será mesmo com a Constituição dos Estados Unidos. Aí é que aparece a primeira Constituição a sério, como nós pensamos hoje. Pronto, e agora de férias, porque isto já foi muito louco feito até agora. Já demos a volta à Constituição. E as férias, eu só queria dizer que estão ligadas à noção de sagrado. Vem de uma palavra.

É verdade, sagradas férias.

Só queria deixar isto aqui, nem sequer vou desenvolver muito. As férias são sagradas.

E são. Eu subscrevo.

E fica aqui.

Férias, um direito constitucional.

Um direito constitucional.

Está tudo ligado.

Sagrado. E é também por isso que vamos ter menos episódios este mês, porque eu também tenho direito a algumas férias.

Ainda assim, já disse, há uma surpresa. Marco, tu sabes o que eu estou a falar, mas pronto, estás a fazer de desentendido.

Estou a fazer de desentendido.

Ou se calhar não. Ou se calhar não estás a perceber patavina do que eu estou a dizer.

Vamos ver.

Adoro esta expressão, temos de falar dela um dia.

Patavina, sim, é verdade.

Patavina, de onde é que vem isto?

Há algumas que, por exemplo, quando nós mudamos e que as pessoas ficam muito irritadas porque querem corrigir, mas eu acho muito engraçado corrigir expressões populares como salganhada, que veio de salgalhada. Como é que eu vou dizer? Como são expressões populares, eu acho que faz parte da própria existência das expressões populares que o povo.

Que o povo possa alterar.

Que possa mexer nestas expressões, nestas palavras, de uma forma muito mais livre. Uma salganhada sempre foi a maneira como eu ouvia.

Olha, tenho aqui uma história interessante para contar, porque não sei se isto é de lá de cima, do Norte, vocês vão me ajudar. Quando se vai abrir um pacote, uma embalagem, pelo menos ali na minha zona, não sei se se usa aqui, nunca tive conhecimento disso, usa-se muito a palavra vou acertar.

Eu, cá em Lisboa, nunca ouvi ninguém usar isto, mas por exemplo, julgo, e não quero estar enganado, que na terra da minha mulher, a Zélia, em Condessura, já ouvi, mas posso estar enganado. Mas já ouvi várias vezes.

Eu não sei se é uma expressão de alguma região em específico.

Eu penso que é aqueles mapa no negativo. Em Lisboa não se usa, mas se calhar fora de Lisboa é muito comum.

Mas calma.

Fica a pergunta. Não acabou. Não é essa a história.

Eu só descobri na faculdade, quando estudei em Coimbra, porque a minha mãe em casa não dizia acertar. Minha mãe dizia enxertar, o que é uma adaptação desta expressão. E só a estudar na faculdade e quando estava com alguns amigos, é que percebi que em minha casa se dizia enxertar em vez de acertar. Eu sempre disse enxertar: "Vou enxertar um pacote de bolachas."

E é assim, esses dois sons, o C e o X e o Z, esses sons estiveram misturados ao longo da nossa história. Por isso é que nós acabamos, por exemplo, por ter o X no final das sílabas. Nós dizemos paz com X e temos o C no início e temos o Z entre vogais. Portanto, esses sons sempre andaram misturados. Vai se ver, se calhar é mais enxertar do que acertar.

Se calhar.

Mas pronto.

Vamos avançar. Vamos até ao Mapa da Língua. E Marco Neves, no Mapa da Língua de hoje, pelo que estou a perceber, vamos fazer aqui uma longa viagem até à terra dos Nihonjin, que são os japoneses, para falar de irmãos.

Sim, eu lembrei-me disso porque estive com os meus irmãos todos nos últimos dias em Peniche, como eu disse, porque eu tenho um irmão que vive em Inglaterra, estava cá, o Diogo. Também o Tiago vive em Peniche, a Vera vive aqui na zona de Lisboa, também lá estava. E eu lembrei-me de falar de irmãos, e isto é uma desculpa para falar de outras línguas e de um aspecto mais geral das línguas. Por exemplo, em japonês, se um inglês nos perguntar como é que se diz irmão, nós respondemos irmão para o masculino Irmã para o feminino. E nós temos de dizer masculino ou feminino. O inglês é a mesma coisa, também tem. Agora, em japonês, e eu não sabia, fui ver isto agora precisamente porque queria ter aqui mais umas informações sobre irmão, até foi para fazer um pequeno vídeo com o meu irmão. Em japonês, fiquei a saber que eles têm mais nomes para os irmãos. E vou tentar aqui dizer-vos. Por exemplo, para irmão mais velho, "ani". Sabes falar japonês?

Mais ou menos, estou a tentar.

Sabes dizer melhor do que eu. Por exemplo, irmão mais velho é "onisán", se for irmão de outra pessoa.

"Onii-chan".

"Onii-chan", pronto, exato. "Otōto" será o irmão mais novo, se for nosso, se estou a perceber. "Imōto" é a irmã mais nova, se for nossa, e podia continuar por aqui. Ou seja, depende se é irmão ou irmã, se é feminino ou masculino, se é mais velho ou mais novo e se é nosso ou se é de outra pessoa. Ou seja, tem muitos termos para irmão.

Não queria ter irmãos japoneses, ia ser uma complicação.

Se calhar.

Usamos o nome.

Se nós falássemos japonês, íamos pensar: "Os portugueses não fazem distinções nenhum, é tudo estranho."

Se calhar é por ter. Tens o irmão, tens o mano.

Sim, isto é uma conclusão que eu queria chegar no final. Temos muitas maneiras de dizer isto. Mas antes de chegarmos lá, vamos ver outros casos em que nós também temos esta divisão diferente, da realidade, não dos irmãos em si. E só uma curiosidade, há línguas da América onde tio e pai é a mesma coisa, o que é muito estranho.

"Uncle and father"?

Não em inglês, mas as línguas dos indígenas americanos, algumas, têm a mesma palavra para tio e para pai, que o importante é ser um homem que está naquela zona da família.

A sogra também é uma mother-in-law, não é?

Exatamente. Ou seja, há línguas que separam mais, há línguas que unem mais. Mas agora afastando-nos dos irmãos, temos em inglês "toes and fingers". Para nós, já falámos disto aqui, são tudo dedos. Depois temos, em português, parede e muro. Em inglês, é tudo wall. Eu estou a dar os exemplos todos do inglês. Temos em russo duas palavras para azul. Temos "siniy", devo estar a dizer mal, que é azul, e depois um azul mais claro, "goluboy". E vocês podem pensar: "Tá, mas nós também temos várias palavras para azul, mas não consideramos estas palavras como cores principais." Temos o azul turquesa, temos o ciano, mas são tudo variantes.

Azuis mais compostos.

Nós todos associamos ao azul, azul é azul. Para os russos, aquilo são duas cores diferentes, como para nós também é o rosa e o vermelho, quando há línguas, como o finlandês, onde rosa e vermelho são dois tons da mesma cor. Para eles, não há uma divisão dessa cor. E podia continuar por aqui fora, mas isto tudo para vos dizer uma coisa que eu acho muito importante, é um aspeto da linguagem humana. Nós, por vezes, dizemos que as línguas, e muitas pessoas acreditam nisto, obrigam-nos, ou melhor, limitam-nos no que podemos dizer. Umas línguas permitem-nos dizer uma coisa, outras línguas permitem-nos dizer outras coisas, o que não é bem assim. Se vocês pensarem bem, nós conseguimos dizer irmão mais velho, tal como os japoneses, irmão mais novo, o irmão mais novo de outra pessoa, nós também conseguimos perceber pelo contexto. Também conseguimos dizer dedos do pé, dedos da mão. Aquilo que na verdade distingue as línguas umas das outras é aquilo que elas nos obrigam a dizer. Ou seja, nós temos de dizer o feminino e masculino para um objeto em português, em inglês não. Os russos têm de dizer se é azul escuro, se é azul claro, não podem optar por dizer uma coisa geral, eles têm mesmo de dizer. Nós podemos dizer: "Ah, é azul." Depois só especificar se quisermos. Nós temos de dizer se estamos perante uma parede ou muro, os ingleses podem dizer um wall e é uma coisa que logo se vê. Portanto, o que eu quero dizer é que as línguas obrigam os falantes a fazer distinções de maneira diferente, mas essa é a grande diferença. Isto para dizer o quê? Não são limites ao pensamento ou à expressão, mas sim são canais que nos obrigam a ir por aquele lado. E pronto, foi o Mapa da Língua desta semana.

Fica por aqui a nossa viagem. Várias viagens pelo Japão, pela Rússia.

Mas eu gostei muito de ouvir falar japonês.

Sim, tens imenso jeito, Zé.

Diz aí umas coisas que são em japonês, qualquer coisa. Eu chamo-me José.

"Watashi wa Zé desu."

Pronto.

Estou impressionado. Eu tenho de aprender uma língua também.

Uma língua diferente.

Sim. Ficamos por aqui no Mapa da Língua e vamos seguir agora para os Mitos e Origens da Língua também. E Marco, para fechar este episódio, o que é que trazes nos mitos ou origens da língua?

O mito é uma pergunta que, na verdade, tem um mito por trás. A pergunta é, e eu recebo esta pergunta muitas vezes: qual é a língua mais antiga do mundo?

Qual é? Pronto, o indo-

Essa língua já não se fala. Quer dizer, nós falamos essa língua. Mas uma das línguas que muitas pessoas respondem é o basco. Basco, aqui perto de nós, porque está ali há muitos anos, pensa-se que há 7 mil anos, pelo menos, que está ali o basco. Então as pessoas tendem a dizer: "Isto é a língua mais antiga do mundo. Está ali há tanto tempo, não tem relação com as outras à volta." E já agora, o basco é uma daquelas línguas também como o japonês, muito estranhas e diferentes para nós, para a nossa sonoridade. "Bem-vindo" é "ongi etorri!"

Gostava que os ouvintes pudessem ver as nossas caras ao longo deste episódio. Estou fascinado.

Basta pensar que basco em basco é "euskara", não tem nada a ver com basco. E podíamos continuar com palavras estranhas. Eu não sei basco, mas sei umas palavritas.

Sabes, Zé? Não.

Agora o Zé começou aqui a falar.

O Zé agora era especialista também.

Um basco fluente. Pronto, e só para vos dizer que esta é uma resposta que se dá muitas vezes. Há outras pessoas que dizem o chinês, porque o chinês já tem registros escritos há muito tempo. Nós podemos ver qual é o registro escrito mais antigo de uma língua, e é o sumério. O sumério tem os registros escritos mais antigos, mas o sumério, entretanto, desapareceu. Das línguas atuais que se falam hoje-

Isso é pré-egípcio, os hieroglifos?

É assim.

Ou os hieroglifos não contam.

Os hieroglifos apareceram umas poucas centenas de anos depois da escrita cuneiforme, é quase ao mesmo tempo. Deve ter havido uma ligação, mas o registro escrito mais antigo continua a ser do sumério. Depois os hieroglifos, depois os chineses também, os caracteres chineses aparecem logo a seguir e também na América apareceram já depois. Apareceram em vários sítios, mas os mais antigos são aqueles. Agora, das línguas que se falam hoje Na verdade, a única resposta certa que podemos dar é que quase todas têm a mesma idade, porque se pensarmos bem, o português vem de línguas anteriores, vem do latim, que já tinha vindo do protoindoeuropeu. O basco também não é igual ao basco de há 2 mil anos, é tão diferente como o português é do latim. Portanto, todas estas línguas têm uma sequência e por isso não é possível dizer qual é a língua mais antiga. São todas quase tão antigas, mas podemos dizer que há algumas línguas mais recentes que outras. E vou só dar duas respostas a isto. Uma das respostas são as línguas criolas, que já falámos delas aqui, que são criadas quase de raiz com vocabulário de outras línguas, e as outras são as línguas gestuais, que também são muito mais recentes, tanto quanto se sabe. E já falámos disto aqui, mas eu só queria apontar para este mito que há uma língua muito antiga, mais antiga que as outras todas à volta, que é o basco. É, na verdade, um mito, porque o basco também evoluiu, também mudou, tal como as nossas. E pronto.

Fechamos assim os mitos e origens da língua.

Qual é a surpresa?

A surpresa é assim: os nossos ouvintes se calhar vão ficar tristes, porque na quarta-feira não temos episódio, mas no domingo temos um episódio só com dúvidas. Aposto que já tinham saudades, porque vai ser um episódio mais longo, sem aquela limitação dos 10 minutos. Portanto, é um miminho de férias para quem nos ouve e para quem ouve também o "Português Suave", quer seja na Rádio Observador, quer seja em formato podcast. Entretanto, envie as suas dúvidas para o e-mail.

portuguesSuave@observador.pt.

E sabes o número?

Não sei o número de telefone, não consegui decorar.

Vamos lá.

Eu agora vou para a praia, vou estar uma semana de férias e vou estar a decorar.

A trautear o número.

A trautear o número. As pessoas ao pé de mim na praia a pensar: "O que é que ele está aqui a fazer? Olha o telefone."

É o 91 002 41 85. Envie os seus áudios através do WhatsApp. Nós temos todo o gosto em ouvi-los e depois partilhá-los por aqui, porque a língua portuguesa tem sempre muitas dúvidas e nós estamos cá para esclarecer. Quer dizer, eu e o Zé não, mas tu, Marco.

Então, hoje o Zé.

Quer dizer, o Zé hoje foi estrela.

É verdade. Todas as dúvidas sobre língua japonesa podem enviar também para. Japonês suave, não. Mas a brincar, isto já me valeu um dia ajudar três turistas japoneses com o pouco que eu sei para comprarem bilhetes de comboio. Bilhete que é um "kippu". Então isto me calça.

E o turista estava assim: "Ele estava só a falar em japonês, eu não percebi o que é que ele queria dizer com aquilo." Mas pronto, até para a semana.

Exato, até domingo. Um abraço, Marco.