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Já a meio do mês de março e o Português Suave não para. É todas as semanas, ainda por cima em dose dupla. Eu sou o João Costa e Silva e está cá o ninja que a língua portuguesa já reconheceu. E reconhece a cada episódio, até já os nossos ouvintes nos mandam áudios a dizer: "O ninja da língua portuguesa". Portanto, já é um reconhecimento da marca Marco Neves.
Tenho que começar a aparecer vestido de ninja.
Eu já disse. Aliás, já prometeste uma vez e não cumpriste. Portanto, nem vamos falar sobre isso.
Quando fizermos três anos de podcast.
Três ou 13?
Não, três. Pode ser três. Ainda está suficientemente longe para te esqueceres completamente.
Olha que eu não me esqueço dessas promessas. O que vamos ter esta semana?
Vamos falar de várias dúvidas. Esta semana não vamos ter um programa normal, vamos ter um programa misturado entre dúvidas e aquilo que é normal. Vamos falar da língua das notícias, do mapa da língua e dos mitos e origens, mas usando o trabalho dos nossos ouvintes, que nos enviaram excelentes dúvidas.
Exatamente, aos nossos ouvintes, que até mesmo durante o episódio, e nós percebemos isso quando estamos a fazê-lo, vamos recebendo muitas dúvidas através do nosso WhatsApp, porque depois vamos ver as horas que as mensagens são enviadas, e também muitos e-mails, o que prova que as pessoas estão a ouvir e que depois querem também ver as suas dúvidas respondidas, e nós agradecemos.
Eu também. Agradecemos os dois e vamos começar com a língua nas notícias.
Vamos a isso. E temos uma dúvida da Alice Miranda, e eu já explico qual é a relação com as notícias desta semana. Vamos ouvir?
Olá, Marco Neves. Eu quero saber por que o mealheiro chama-se mealheiro.
Como é que te chamas?
Alice Miranda.
Ai, que fofo. Fofo, neste caso.
Sim. Olá, Alice.
Receber este tipo de mensagens é incrível, ainda por cima de crianças. Torna o programa ainda mais próximo. Mais quentinho.
E a relação disto com as notícias é nenhuma, mas eu gostei tanto da mensagem da Alice que queria ouvi-la logo no início.
Eu gostava de ouvir outra vez, até.
Havemos de ouvir. Aliás, quem está a ouvir isto em podcast pode sempre andar para trás para ouvir. A resposta é curiosa. Nós dizemos mealheiro, porque esta palavra vem de mealha. Eu até posso ler o que o Museu do Dinheiro, do Banco de Portugal, escreveu há poucas semanas sobre isto. A origem desta palavra é metade de uma moeda, a mealha. Mealha era o nome dado a cada metade do dinheiro, que era o nome de outra moeda, uma moeda da Primeira Dinastia, que ao ser cortada ao meio, era usada como troco. Portanto, o mealheiro é o sítio onde nós púnhamos as mealhas, essas tais moedas de valor mais baixo. Agora, o que aconteceu com a palavra é que as próprias crianças, por vezes, reinterpretavam a palavra e pensavam naquilo como o sítio onde nós pomos as migalhas.
E não está errado. São as moedas mais pequeninas, no fundo.
As migalhas.
Aliás, eu não me surpreendia, diz-me se eu estiver errado, Marco, se um dia não tivéssemos aqui uma transformação.
Já está. Ia dizer dinossauros. Em dicionários, já aparece migalheiro como forma popular, como uma corruptela, como nós dizemos, embora corruptela seja uma palavra que só é atribuída a algumas palavras, mas na verdade, todas elas passaram por esse tipo de corrupção. Migalheiro é o sítio onde nós pomos as migalhas. Também está nos dicionários que migalheiro é aquele que se preocupa com migalhas. Uma pessoa que é um migalheiro, é uma pessoa que está só preocupada com aqueles pormenores. Mas muitas crianças usam como sinônimo de mealheiro. Mas mealheiro é a forma original. Mealheiro, o sítio onde nós pomos as mealhas, onde nós pomos as moedas de valor mais baixo para ir poupando e ficarmos depois com mais dinheiro. O que é curioso é que o dinheiro também é, na língua portuguesa, o nome de uma moeda. Obrigado, Alice, pela mensagem.
Alice, podes enviar mais áudios, os que quiseres. Só para ouvir esta tua voz tão querida.
Que nós responderemos.
Muito bem. Ficamos por aqui na língua das notícias, não é?
Vamos ao mapa da língua.
Vamos a isso. E vamos a algum sítio em específico?
Vamos até ao Alentejo e à Estremadura espanhola, mas vamos ouvir um áudio do Diogo.
Olá, João. Olá, Marco. Antes de mais, muito obrigado por nos ajudarem a navegar melhor nesta nossa língua portuguesa. Tinha uma dúvida que surgiu num convívio de amigos, alguns deles alentejanos, sobre como se diz o nome da terra: Estremoz ou Estremoz. Agradecíamos a ajuda a tirar esta teima entre nós. Mais uma vez, muito obrigado e parabéns pelo programa.
Então, Marco Neves.
Estremoz ou Estremoz? Vamos ver. Quando uma palavra termina em OZ, eu aqui vou sugerir que se leia um artigo de Carlos Rocha, que está no Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, um recurso importantíssimo da nossa língua, que foi escrito no dia 21 de novembro de 2005, com o título "A pronúncia de Estremoz e Badajoz". E ele explica aqui que nós temos várias palavras terminadas em OZ, em que não há uma regra para a leitura. Nós podemos reparar que temos voz com o A aberto, arroz com o O fechado, e depois temos vários outros casos destes. Para se perceber de onde é que vem esta pronúncia, muitas vezes vamos à origem das palavras. De onde é que ela vem? Do latim, o que é que havia no latim? Conseguimos perceber como é que os falantes acabaram por dizer arroz, mas dizer voz. No caso de Estremoz, como explica o Carlos, nós não temos a certeza de onde é que vem a palavra. Nós não sabemos de onde é que vem este nome. Os próprios dicionários etimológicos não esclarecem. José Pedro Machado, o nosso grande especialista, também não esclareceu. Não sabemos. Portanto, é uma questão de olharmos para aquilo que Os próprios habitantes da terra dizem ao longo do tempo.
São eles que editam as regras.
Neste caso, sim. E o mais habitual, e podemos ver isso em vários recursos, será mesmo Estremoz, com o O fechado.
A outra opção parece-me-
Estermós, eu já ouvi, de facto. Há pessoas que dizem Estermós. Estão simplesmente a dizer aquela palavra de forma diferente daquilo que os próprios habitantes, ou pelo menos a maioria dos habitantes. Eu acontecia de dizer Estremoz, mas é mesmo só porque é o mais habitual. Aqui estamos mesmo perante uma questão de hábito, como, aliás, muitas das questões da língua acabam por ser questões de hábito. A língua é um conjunto de hábitos ao longo dos séculos que as pessoas vão mantendo e de vez em quando vão mudando em alguns pontos. Eu lembro que para aqueles lados, temos Badajoz, que tem a particularidade de já ter tido um nome português. Badajoz já foi, em português e em galego, Badajoz. E com esta origem, nós poderíamos dizer que o mais natural seria dizermos hoje Badajôs. Mas Badajoz parece ter sido influenciado pela própria pronúncia espanhola, que é muito mais aberta, e por isso nós acabamos por dizer Badajoz cá em Portugal. Não sei se tirei a teima ou não, se é uma questão de vida ou morte.
Se os amigos do Diogo vão ficar mais tranquilos com esta explicação ou não.
Se for mesmo a questão de vida ou morte e se estiverem todos a discutir, eu digo: é Estremoz. Portanto, ganhou quem disse.
Não, ao contrário.
É Estermoz. Já estou meio confuso. É o que acontece. É Estermoz. Às vezes os ninjas também se enganam.
É verdade. Olhe, já que estamos aqui no Alentejo, dar os parabéns aos Bandidos do Cante, que vão representar Portugal na Eurovisão e vão levar o Cante Alentejano, que nós já falamos aqui da questão do cante e do canto, à Eurovisão, à Áustria.
Muito bem.
Boa sorte, rapazes. Ou como eles gostam de dizer, bandidagem. Eles gostam de se chamar assim.
Ainda estava a conversar com a minha mulher, que é alentejana, a dizer: a Eurovisão está-se a transformar no mapa da língua.
Pois é. É verdade. Involuntariamente.
Estamos a enviar todos os anos uma região em particular, com características linguísticas também.
Já tivemos também nos Açores, penso eu, a Elisa. Eu não tenho a certeza, mas acho que ela era açoriana. Já vou confirmar.
Mas é bom.
Estamos a percorrer o país.
Vamos aos mitos e à origens.
Vamos a isso.
Vamos começar com um mito. Depois, temos uma dúvida, que eu infelizmente desta vez não vou conseguir resolver de forma cabal.
Ui!
E depois temos só uma outra mensagem que nos vai dizer aquilo que é um hábito muito português dos tempos de hoje. Então, o Felipe Costa enviou uma mensagem a dizer que eu estava errado, que ok, não é que gorice.
Estavas errado.
Que ok é o contrário de QO, diz o Felipe. Agora, a verdade é que o Felipe é que está errado. Agora vamos ter de fazer um braço de ferro. Não, este é um daqueles mitos, o ok ser o contrário de QO, é um dos vários mitos sobre a palavra. Falamos aqui de vários nesse episódio, está errado. A origem que eu descrevi naquele episódio está muito bem documentada. Eu, aliás, indiquei uma fonte onde as pessoas que quiserem podem ler toda a investigação. Eu não a vou descrever toda, mas está bem documentada. Aqui, neste caso, não tenho dúvidas. Ok ser o contrário de QO é só uma brincadeira com tanta base como nós. Eu lembro-me de ouvir a história: stop quer dizer se tens olhos, para.
Se tens olhos, para. Eu ouvia isso desde pequeno, desde miúdo.
É giro, é uma brincadeira, mas quer dizer, stop não tem essa origem. Portanto, o Felipe está enganado. Ok é graficamente o contrário de QO, mas a origem não é essa. Não é por causa de ser o contrário de QO que nós dizemos ok. E agora vamos ouvir um áudio de António Coelho.
Vamos a isso.
Olá, equipe do Português Suave. Então estava eu aqui há uns tempos em casa de família, no Alto Alentejo, quando antes de irmos para a mesa, eles me pedem para pôr a sogra em cima da mesa. A sogra? Ora, eu sendo do Baixo Alentejo, nunca tinha ouvido esta palavra para designar, sabe o quê? A base de cortiça sobre a qual nós costumamos pousar os tachos e as panelas. Então fiquei muito surpreendido. Depois fui procurar e é verdade que no Priberam existe uma entrada de sogra como regionalismo para designar uma roda de tecido torcido que se põe na cabeça para apoio de fardos. Ok, a partir daqui já temos uma pista, mas daqui até à base de cortiça, eu normalmente aqui em minha casa, chamamos simplesmente de base ou cortiça, daí até chegar até base, parece-me que houve um pequeno passo ou um grande passo, que talvez o professor Marcos Neves possa explicar. Um abraço.
Espero que o António Coelho não tenha começado a olhar para a sogra com outros olhos.
Posso dizer uma coisa. Eu também tenho a minha sogra no Alto Alentejo.
Ou seja, tens conhecimento de causa.
Tenho conhecimento de causa, embora eu nunca tivesse ouvido esta expressão. Já agora, eu sou obrigado por lei a dizer que a minha mulher faz anos amanhã, portanto não lhe vou dar os parabéns. A excelentíssima filha da minha sogra, que está no Alentejo, faz anos amanhã. Não lhe vou dar os parabéns porque é só amanhã. Dizem que dá azar. Eu não acredito em bruxas, mas enfim.
Toda a cautela, não é?
Toda a cautela. Então, o que eu posso dizer é que o António diz-nos que o mistério está entre a passagem daquele pano enrolado em cima da cabeça para pôr um fardo, que nós vemos Em várias imagens até, e que conhecemos, ele diz que o mistério está na passagem desse pano para a base de cortiça, que nós podemos procurar e vemos que está havendo e de fato chama-se sogra. Mas não parece que aí haja grande mistério. Simplesmente, havia uma peça com essa forma e o nome passou para a peça de cortiça que tem a mesma forma. O mistério está entre a sogra, mãe do cônjuge, e a sogra peça. E eu não consigo resolver esse problema, não sei de onde é que vem esta palavra. De facto, ela existe, é usada, é um regionalismo.
E se alguém tiver uma solução.
Se alguém tiver mais alguma pista para este mistério. É como o autocolismo. Eu não sei se alguma vez aqui tinha falado do autocolismo.
Penso que já.
Eu também acho que é um grande mistério, porque autocolismo tem origem em dois elementos gregos. Portanto, é claro como é que se formou a palavra, mas foi só em português. Alguém, em português e em Portugal, no século XIX pegou em dois elementos gregos e criou a palavra autocolismo. Portanto, algum vendedor de autocolismos tinha ali uma predileção pelo grego. Temos aqui mais um mistério e não o posso resolver.
Fica em aberto.
Fica em aberto. Vamos agora só ouvir um áudio do Rui Noura.
Olá, Marco. Olá, João. Muitos parabéns pelo vosso programa. Gostaria só de vos deixar aqui um pequeno texto sobre uma temática que me amesca os nervos. Caro Marco, escrevo sobre aquilo que é epidemia daquilo que são as palavras a mais. Por que já ninguém analisa o orçamento sem invocar primeiro aquilo que é a estrutura daquilo que foram as decisões daquilo que será o nosso futuro? Aquilo que eu pergunto é: perante aquilo que é esta cacofonia daquilo que são os quês, estaremos perante aquilo que é o fim daquilo que é clareza ou é apenas aquilo que é o enchido de ar daquilo que é a nossa retórica? Fico à espera daquilo que será a sua outra resposta sobre aquilo que é este vício, antes que aquilo que é a minha sanidade sofra aquilo que é um colapso. Com aquilo que é a minha estima, um abraço.
Não queremos colapsos.
Não.
Eu também já estava a ficar com aquilo que é alguma.
Usou aqui uma palavra que eu adoro, que é cacofonia.
Sim, cacofonia.
É uma palavra engraçada, bonita de se dizer.
Cacofonia parece o nome de uma discoteca.
Sim, ou de uma banda.
Será que já houve alguma discoteca chamada Cacofonia ou alguma banda?
De certeza que alguém já propôs.
É como metafonia, que é o nome de um fenômeno fonético particular, que eu também acho que é muito bonito, mais até do que cacofonia. Cacofonia tem ali uma certa cacofonia.
Verdade.
O Rui, só digo que vamos terminar o episódio com este áudio, é um aviso para que não exageremos naquilo que é um hábito, mas que não deixa de ser uma expressão perfeitamente normal. Agora, se nós começarmos a usar a mesma expressão muitas vezes, é claro que ela vai começar a ser aquilo que é um pouco irritante.
Exatamente. Mais dúvidas e e-mails. O que quiser enviar. É muito simples. O Marco Neves diz o e-mail.
portuguessoave@observador.pt e o João vai dizer o telefone.
Exato. Através do nosso WhatsApp 910024185. Envie-nos um áudio. Nós neste episódio, no fundo fizemos a estrutura habitual, mas ouvimos os nossos ouvintes. E é sempre bom, não é? Gostamos muito. E na quarta-feira voltamos, mas com um episódio mais curtinho, mas também com muitas dúvidas. Até lá, Marco Neves.
Parto.