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Português Suave, episódio extra. Todas as quartas-feiras contamos com o Marco Neves para nos ajudar, de certa forma, a resolver estas dúvidas, tirar esta pulga atrás da orelha.
Eu admito que às vezes as dúvidas ainda se multiplicam, porque as coisas são mais complicadas do que parecem. Mas é assim, não vou mentir. Temos a tua dúvida ainda desde domingo, que é abacaxi e ananás, mas não vou responder hoje. Vamos ficar com essa pendurada.
É uma palavra que é o teasing, o teaser, que é muito difícil de arranjar pra português, ou não?
Esta não é exatamente a mesma coisa, mas temos, por exemplo, aquela velha palavra baseada na auga, que é augada. A pessoa fica augada, porque é comer qualquer coisa. Não é a mesma coisa, mas o teaser, o que poderá ser o teaser em português? Ficamos com expectativa?
Pelo menos eu não me estava a vir nenhuma agora.
As línguas são todas diferentes e quando elas estão em contato muito contínuo, como acontece com o português e com o inglês cá, porque nós todos aprendemos inglês e usamos muito, de repente começamos a reparar nas palavras que a outra língua, por acaso, até consegue acertar de forma um pouco mais direta no conceito e temos alguma dificuldade. Mas aconteceria o mesmo ao contrário. Se por acaso os ingleses vivessem num mundo em que o português era a língua internacional, eles também ficariam: "Epá, os portugueses conseguem dizer aquela coisa exatamente de uma forma muito precisa e nós não". Portanto, não representa uma maior qualidade do inglês, é apenas uma característica do contato entre línguas.
Isto encadeia bem, até porque vamos falar de Porto e Oporto.
Exato, vamos falar, e de Lisbon também. Por que razão é que os ingleses e os espanhóis dizem Oporto? Quer dizer, os ingleses dizem mais Oporto. Diziam. Nós já falamos disto aqui, mas a dúvida apareceu tantas vezes que eu decidi repetir. Muitas pessoas dizem: "Mas que disparate é este? Por que razão é que os ingleses fazem isto?" E também hoje decidi, além de responder esta dúvida de novo, falar de onde é que vem a palavra Lisbon. Porque ninguém se chateia com essa, o que é curioso. Vejo muitas pessoas do Porto muito aborrecidas, porque os ingleses diziam, cada vez menos, mas diziam Oporto, mas os lisboetas em geral não se preocupam muito com o Lisbon e acham natural. Não sei porque há esta diferença. Talvez porque no Porto a diferença está no início da palavra. Os espanhóis continuam a dizer Oporto, os ingleses já perderam esse hábito. Isto é muito fácil de explicar. Vem do artigo, o porto. Nós dizemos sempre a cidade do Porto ou o Porto é uma cidade e os ingleses, espanhóis e por aí fora, decidiram juntar o artigo ao nome da cidade. Nós também já fizemos isso até com regiões portuguesas, Algarve. O Al é o artigo árabe e nós juntamos e criamos o nome em português, Algarve. É o que se chama tecnicamente Oporto, tanto em espanhol como em inglês, é o exônimo, ou seja, é o nome de uma cidade numa língua que não é a língua dessa cidade. Agora, em relação a Lisbon. E antes disso, as pessoas perguntam: "Então, mas está mal?" Não está mal. Nós também usamos Londres, não usamos London. Nós usamos Milão, não usamos Milano. Nós usamos Nova York, não usamos New York. Portanto, quando uma língua tem um nome pra cidade, esse nome faz parte dessa língua. Não é nenhum erro, é uma característica das línguas todas. Nós também usamos Pequim, nós usamos Tóquio, que não é exatamente em japonês. Portanto, quando os falantes de uma língua sentem necessidade de criar, por algum motivo, um nome próprio pra uma cidade, criam. E não há nenhum drama nisso.
Mas é mesmo por necessidade, porque, por exemplo, Madri é Madri em todo lado.
A tendência é: quando uma cidade é importante numa cultura, essa cultura vai criar um nome ou vai adaptar o nome. Madri é importante, apesar de tudo, nós estamos aqui mesmo ao lado. A tendência é essa, mas não é uma regra. Por vezes acontece que o nome original é tão próximo do nosso, que nós simplesmente usamos o nome original da nossa fonética e não temos necessidade de ir criar um novo nome. Mas, por exemplo, Sevilha, em espanhol, não é bem Sevilha.
É Sevilha.
Sevilha, e é com dois L.
Com L e com B.
Nós adaptamos, exatamente. Bilbao também adaptamos ligeiramente. Portanto, é uma questão de quando nós usamos muito o nome, se ele for suficientemente diferente, ou melhor, se os sons desse nome não se encaixarem na fonética da nossa língua, o mais natural é nós criarmos um exônimo. Por vezes, alguns desaparecem. Por exemplo, Frankfurt, que já foi Francoforte e hoje já ninguém usa Francoforte, é muito raro. Vamos passar à seguinte dúvida, que é uma dúvida que eu próprio trago, porque ninguém me perguntou isto, mas eu achei que era interessante. Por que razão é que os ingleses dizem Lisbon, e tem aquele N no fim. Os franceses dizem Lisbonne, os alemães dizem Lissabon, os italianos dizem Lisbona ou algo parecido. De onde é que vem aquele N, que não existe em português? Nós dizemos Lisboa e não tem lá nenhum N. Não tem agora, mas já teve. Ou seja, o nome desta cidade tem uma história que eu não vou agora referir, porque é muito polêmica de onde é que vem o nome, mas em latim era Olissipo. E este Olissipo depois levou à criação de uma palavra no latim tardio, tendo em conta a forma como a palavra variava de acordo com o caso, acabou por ficar Olissipona. Que depois foi mastigada pelos árabes que vieram pra cá e ficou algo como Lisbuna ou Lisbona. E os próprios falantes de latim, que continuaram a existir mesmo durante o domínio árabe, começaram a usar cada vez mais Lisbona. Lisbona era o nome que a maior parte das pessoas de Lisboa davam à cidade. Até muito tarde, este nome continuou a aparecer mesmo em português. Não era o maioritário, mas aparecia, até ao século XVI. Tem ainda mapas portugueses no século XVI, muito depois, onde o nome da cidade é Lisbona. Por que não é já Lisbona? Porque a nossa língua vem do norte e vinha com um hábito muito forte pra deixar cair Os N no meio de duas vogais. Nós dizemos "Lua", não dizemos "Luna", já falámos disto aqui muitas vezes, e em muitos outros casos também deixamos cair esse N. E por isso os falantes de português que vieram do norte, ao virem para esta cidade, acabaram por impor o nome que usavam para a cidade. Portanto, Lisboa, na verdade, também é um exônimo do norte para uma cidade que aqui é chamada de "Lisbona", mas que depois acabou por ficar Lisboa. As outras línguas à volta. Os castelhanos decidiram seguir o nosso exemplo e dizem Lisboa, não dizem "Lisbona". Mas os franceses, alemães, ingleses e italianos, basicamente criaram nomes baseados no nome mais usado há uns séculos aqui por esta zona, que era Lisboa.
Um pouco como nós também fizemos, de Milano passámos a ter Milão.
Exatamente. Só que aqui o curioso é que é como se nós fizéssemos isso e de repente fôssemos todos viver para Milão e disséssemos: "Olha, a partir de agora o nome é aquele que nós dissemos." Foi o que aconteceu cá. Os habitantes do norte, os galegos, ao expandir o país para baixo e ao povoar o país, trouxeram o nome que eles davam à cidade, que era Lisboa, cá, e acabaram por impor esse nome. Impor, não, ninguém andou a dizer: "Só podem dizer Lisboa." Foi simplesmente o uso, foi tão frequente e tão comum que acabou por ficar Lisboa.
Quando é aceite pela sociedade.
Sim, fica assim.
Torna-se padrão na língua. Marco Neves, muito obrigado. Sempre ótimos esclarecer dúvidas contigo. Marcamos encontro para domingo.
Até domingo.
Português Suave para as manhãs 360 de fim de semana, ok?
Até domingo.
Grande abraço, Marco.