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"Portugal daqui a 25 anos" é o título da crônica assinada no site "Observador" pelo André Abrantes Amaral, que é o nosso colunista do dia. Seja bem-vindo, André. Obrigado por ser o nosso colunista do dia.
Obrigado.
Estamos prestes a entrar em 2025. É sempre aquele tempo habitual de balanços. Por que é importante olhar desde já para o país que queremos daqui a 25 anos, em 2050?
Antes de mais, porque vamos entrar no último ano do primeiro quartel do século XXI e acabamos nos aproximando de uma data que tem algum significado. E depois, porque olhando para trás, por exemplo, desde o ano 2000, vemos que passamos estes últimos 24 anos sempre atrás do prejuízo, com a sensação de que estamos sempre atrás de alguma coisa que vai ocorrendo, e nós nunca temos algo mais em vista do que isso. E também, por coincidência, foram duas décadas e quase meia em que assistimos, eu não vou dizer a um empobrecimento do país, no sentido de nós não estamos a viver pior do que vivíamos há 25 anos, mas sem dúvida que há um empobrecimento na medida em que o país tem muito menos condições hoje para se desenvolver para o futuro e se preparar para o futuro do que tinha no início deste século. E nessa medida, nós sentimos que algo está a passar por nós e que não conseguimos controlar. Não é que nós não possamos controlar tudo o que acontece na nossa vida, muito menos no país, como é óbvio, mas pelo menos procurar antever ou pensar o que nós gostávamos que Portugal fosse daqui a 25 anos, em meados do século XXI.
Ou seja, no fundo, ter uma visão de futuro, que é aquilo que o André considera que tem faltado aos mais recentes líderes políticos e de governo.
E não só, eu acho que também tem faltado, porque também gostava de refletir um pouco sobre isso. É muito importante que os políticos tenham essa visão, mas também é muito importante que os cidadãos se predisponham a ter essa visão e a querer escutá-la, porque nós às vezes falamos de que, por exemplo, olhamos para a televisão e só vemos comentadores que falam dos assuntos corriqueiros, só vemos colunistas nos jornais a falar dos assuntos do dia a dia.
Que no fundo são aqueles problemas mais urgentes do momento, não é?
Exatamente. Nós também temos que ver que se calhar, quando alguém fala de algo mais a longo prazo e pensa de uma forma mais profunda, seria bom que nós escutássemos ou procurássemos escutar. Porque veja, nós este ano comemoramos os 50 anos do 25 de abril, e nessa altura foi uma época de grande convulsão, tudo o PREC e tudo mais, mas havia uma visão para o país. Mário Soares, Francisco Sá Carneiro e Diogo Freitas do Amaral, para citar aqueles dos partidos que acabaram por fazer valer o seu ponto de vista, eles tinham uma visão para o país. Queriam uma democracia ocidental, um Portugal inserido, na altura, na Comunidade Econômica Europeia, e queriam o fim do império, a descolonização, o fim da guerra, etc. E havia essa visão do país com desenvolvimento. E hoje em dia, ou melhor, desde meados, mais ou menos da década de 90, parece que esse projeto se esgotou, talvez porque tenha sido concretizado, e não se pensou em absolutamente mais nada, ou seja, não há uma visão do que nós queremos. E como isso não existe, nem sequer é discutido, por exemplo, o papel que Portugal pode vir a ter com todas as alterações que estão a ocorrer no mundo, com o ressurgimento da China, do Oriente e tudo mais, que é um processo interessante nós olharmos a muitíssimo longo prazo, porque é o regresso de uma realidade que existia antes dos descobrimentos portugueses. Ou seja, a China sempre foi uma grande potência mundial. Acontece que na altura os países não estavam tão ligados como estão hoje. E que papel nós podemos ter no Ocidente, sendo que nós somos um dos poucos países europeus que têm ligações com todos os continentes. E isso é algo que nós poderíamos pensar e discutir, e que tipo de desenvolvimento é que queremos, que tipo de democracia, e não andar sempre atrás dos imprevistos. Até porque quando nós andamos atrás dos imprevistos, nós acabamos por ir atrás daqueles que se aproveitam desses imprevistos. Eu recordo-me, por exemplo, nos anos 90, que por acaso, na altura em que esse projeto europeu parece ter consumado, e começamos a perder o que queríamos, saber o que queríamos. Eu lembro que se discutia muito, ainda hoje, talvez, às vezes, volta à discussão, as touradas. E eu, tudo bem, acho que é um assunto muito interessante de discutir, mas não é, sem dúvida, a coisa mais importante que o país tem para discutir. Mas de facto, no final dos anos 90, discutiu-se muito isso, quando o país caminhava para aquilo que veio a ser o endividamento excessivo e que nunca se pensou sobre esse assunto. E hoje em dia, nós estamos atrás muito, nessa altura era muito uma narrativa do Bloco de Esquerda, e hoje em dia nós estamos atrás muito uma narrativa do Chega, que é outro partido que se aproveita destes imprevistos. No caso da imigração, em que sem dúvida que há problemas, mas nem sempre os problemas assumem os contornos que o Chega refere, e naturalmente as soluções não são aquelas que o Chega menciona. Por quê? Porque nós não pensamos os assuntos a longo prazo, não fazemos o diagnóstico sobre o que se está a passar e como aconteceu no passado, corremos o sério risco de falhar na solução e daqui a 25 anos, em vez de olharmos para trás e vermos que é algo que se foi construindo, vemos que foram uma série de oportunidades perdidas. Espero bem, espero que não, espero estar enganado, mas às vezes eu fico muito otimista.
Fica esse desejo para os próximos 25 anos. André Abrantes Amaral