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Conversamos desde já com Rui Pedro Antunes, o editor de política do Observador. Rui, deste primeiro dia sai aqui uma tentativa de encontrarem a identidade deste CDS e muitos congressistas pedem uma identidade conservadora.

Sim, eu acho que o partido está num momento de redefinição ideológica ou, se quisermos, de regresso ao passado naquilo que eram as suas principais bandeiras. O CDS já foi muita coisa. Já foi o partido dos agricultores, o partido dos pensionistas.

Hoje já escutámos Manuel Monteiro dizer que já foi o partido dos ciganos.

Dos ciganos, exatamente, que até inclusivamente lhe faziam segurança. Uma comunidade cigana lhe fazia segurança no Alentejo, creio que nos anos 70, não sei se estou a precisar bem a data que ele referiu aqui na Rádio Observador, mas já foi muitas coisas o CDS. E há uma perspectiva de que aquilo que se pensava que o CDS o tornava um partido de nicho e que não havia mais espaço por onde crescer, se quiseres mais lenha por onde arder, verificou-se que não era assim. Ou seja, foi quando Assunção Cristas tentou ir para aquela perspectiva de um catch all party, de ir para o centro, que na verdade o CDS perdeu mais votos. E ao ir para o centro, ajudou a abrir um vazio, que foi aberto por completo, de onde surgiram outros dois partidos. Rui Rio também foi responsável por isso, também recentrou o PSD, também o colocou ao centro, e então a Iniciativa Liberal e o Chega apareceram. O CDS neste momento tenta mostrar que é uma direita que defende as mesmas coisas que o Chega em alguns aspetos, mas com uma vertente mais social, com mais preocupações do ponto de vista humanista. E está nessa fase de definição, ou seja, voltar ao velho CDS, mas atualizado.

Mas ainda há espaço para ocupar nesse lugar da direita?

O que o CDS tenta vender é que é uma espécie de direita que defende esses valores, por exemplo, da família, da vida humana, aspetos que até alguns já estão muito bem resolvidos na sociedade portuguesa, mas para estas pessoas não estão e devem ser remexidos, mas com uma perspectiva responsável, ou seja, tentar cavalgar a ideia de que o Chega e André Ventura são muito instáveis e que não são tão sólidos naquilo que defendem como é o CDS. E portanto, desde o primeiro dia, há uma pulsão para voltar aí, porque se percebeu também que é um saco grande de votos. Há pessoas que defendem estas coisas, há ali um público para isto, há ali um eleitorado para isto. Obviamente não é só isso, não só aí que coube grande parte do eleitorado do Chega, porque também há um voto de protesto, antirregime, pessoas que estão saturadas da corrupção, pessoas que veem até em André Ventura uma figura que corresponde àquilo que são as ambições dela, porque estão zangadas com a vida ou porque estão contentes com a vida, não faço ideia. Isso é um tipo de estudo que não tenho, mas de facto a própria figura também conta. Agora o CDS percebeu que tem aqui uma vantagem face ao Chega. É que conseguiu pôr o pé na porta do governo, onde já esteve várias vezes. O PSD confia nele, está dentro do Conselho de Ministros, pode também combinar com o PSD ter algumas conquistas que ao PSD até não ficassem tão bem junto a alguma parte do eleitorado do CDS e ir combinando isso para também crescerem juntos. Qual é que tem que ser aí o pacto entre PSD e CDS? Precisamente o CDS não ir roubar votos ao PSD e tentar ir a áreas onde vai buscar votos ao Chega. Por isso também não é surpreendente que neste primeiro dia as grandes figuras tenham também atacado bastante o Chega, a começar logo no líder do CDS, e que isso seja sempre uma referência, essas várias indiretas ao Chega para marcar precisamente a diferença. E nas várias semelhanças que tem com o Chega, por exemplo, na questão da imigração.

Sim.

O CDS também não quer portas escancaradas, quer rigor máximo, quer o regresso do SEF, mas quer mostrar que tem um lado mais humanista, que é estar mais preocupado com as condições das pessoas que estão cá e não se vêm do Médio Oriente, se são muçulmanas.

Já se falou também durante a tarde dos atrasos na revisão de vistos, nessas dificuldades todas e que o CDS quer resolver esse tipo de problemas.

Sim, o CDS tem preocupação com segurança, mas não lhe coloca uma tónica tão grande do ponto de vista racial, porque André Ventura o que diz, e o Chega muitas vezes, é que é diferente a origem e de onde é que vêm esses imigrantes. O CDS, até pela raiz democrata cristã, e mesmo sendo democrata cristão, tem uma raiz mais ecumênica nesse aspeto. Não se importa que os imigrantes venham ou sejam de outras religiões, etc. Claro, com rigor, com segurança, etc. Portanto, tenta marcar aqui muito a diferença. Eu diria que houve duas grandes pressões neste dia. Uma foi essa, que Manuel Monteiro teve muito tempo, teve muito palco.

Quarenta minutos de discurso.

Quarenta minutos. Falou muito. Mesmo Talmo Correia disse que quis defender a família.

Dois terços do discurso também.

A maior parte das pessoas que aqui foram sendo aplaudidas foi quando falaram de ideologia de gênero, foi quando falaram da defesa da família, dos valores da identidade da família, mesmo da eutanásia, do aborto, das questões da vida humana, e se percebe que as pessoas reagem mais facilmente a esse estímulo de alguma coisa que acham que podemos classificar como sendo mais conservadora. E, portanto, nesse aspeto, foi a primeira grande pressão. A segunda grande pressão é que o CDS está-se a meter em bicos de pés para dizer que, na verdade, não está no governo por favor, mas que foi muito importante para que Luís Montenegro seja neste momento o primeiro-ministro.

Mas isso na verdade pode ser palpável? Pode ser só conversa.

O CDS até agora tinha uma questão que era, quando integrou outros governos, podia mandar o governo abaixo e dar cabo de uma maioria. Neste momento não tem isso, mas também não é útil que eles se zanguem e que o CDS saia do governo e que o Governo da AD passe a ser só PSD numa circunstância como esta. Portanto, o CDS tem alguma força negocial. Também não vamos agora pensar que o CDS, ao ter dado um contributo de 50, 80 mil votos que seja, e que isso tenha sido fundamental pro Luís Montenegro ter mais 50 mil votos do que Pedro Nuno Santos, que agora o PSD vai fazer todo o tipo de cedências e ceder completamente ao CDS, coisa que, aliás, aqui as figuras do CDS vão exigindo, quase como se houvesse uma dádiva, uma gratidão que o CDS tenha dado ao PSD e que no fundo tenha essa relação de ter que dar mais do que aquilo que deu até agora. Portanto, o primeiro dia acaba por ser um bocadinho marcado por isto, por estas duas vertentes. Um partido a definir-se muito bem do ponto de vista da sua matriz ideológica, a tentar até voltar em algum momento a um passado onde o CDS acha que foi feliz. Mas claro, mesmo para um conservador, se quiser ir buscar jovens, é bom que instale o TikTok. Portanto, hoje tudo muda. É bom que também haja qualquer coisa de direita moderninha no CDS que quer ser conservador. As coisas não são necessariamente inconciliáveis. Aliás, André Ventura, que tem uma postura muito conservadora relativamente a determinados temas, consegue comunicar muito bem por via do TikTok e das redes sociais. E nesse aspeto, isso é uma atualização que o CDS tem que fazer e conta agora com isto. Há pouco o Nuno Melo dizia: "Sejam felizes". Antigamente, o CDS quando estava no governo distribuía os cargos na Segurança Social, cargos nos centros hospitalares, cargos nos centros do IFP. Isso agora não vai ser assim. O PSD vai ficar com boa parte disso. Não estou a dizer que não ajuda nomear algumas pessoas, mas aquilo que ajuda também às vezes a manter um partido, que é ter as suas pessoas na máquina do Estado, não sei se isso vai acontecer como noutras alturas. Está um desafio também muito grande. O CDS passou este teste da sobrevivência, sobreviveu, mas agora não é fácil crescer, até porque o Chega está muito bem instalado, os liberais ocuparam muito bem o seu espaço.

Eu queria falar precisamente sobre essa questão dos liberais, porque parece haver uma tentativa de recuperar eleitores que tenham passado do CDS para o Chega, mas não parece haver uma tentativa de recuperar eleitores que tenham fugido para a Iniciativa Liberal. Parece que esse espaço fica quase reservado pra o parceiro de coligação, o PSD, que tente recuperar esses votos e o CDS os do Chega.

Há aqui uma coisa curiosa, que o CDS é muito pela liberdade do mercado. Não é só a economia social do mercado, nem mesmo se quiseres o mercado mais liberal possível, rulado, uma coisa quase à americana. Mas tem depois um outro ponto, que é: defende o SNS, e além disso, defende uma grande complementaridade do SNS, não com o privado, mas com o setor social. Por quê? O CDS também tem na sua base as misericórdias, as IPSSs. É uma área muito importante para o CDS, toda essa área do assistencialismo. E portanto, nesse aspeto, o CDS quer sempre intervenção do Estado. Isso também vem da democracia cristã, da parte de ajudar o outro, daquilo que até a esquerda critica, porque é mais pela subsidiariedade, que é a chamada caridadezinha, os bancos alimentares, etc. É uma área em que o CDS está bastante confortável, mas em que quer a presença do Estado, enquanto a visão mais liberal, pura e dura da economia é do gênero: "Ok, cria lá a tua empresa, safa-te e a partir daí vai à tua vida, queres saúde, compra um seguro de saúde". Uma visão neoliberal tem tudo isso. Não estou a dizer que a Iniciativa Liberal é assim, não é. Também não tem uma visão de um liberalismo ao nível dos Estados Unidos. Mas o CDS é muito mais, se quiseres, do Estado e ter essa parte do apoio do Estado, não abdica, comparado com a Iniciativa Liberal, porque é muito difícil ir buscar os votos desses yuppies que vivem por si, que são self-made men, que não estão muito preocupados com o dia de amanhã e se vão ter uma determinada reforma, estão preocupados se conseguem ter as suas bitcoins a valorizar a um milhão por ano ou coisas desse gênero. Portanto, nesse aspeto, não sei se o CDS consegue ir a esse público da Iniciativa Liberal, conseguirá certamente ir a outros. Perdeu muita gente pra lá, o que mostra que também haviam alguns liberais no partido e havia essa tradição liberal do CDS, até da parte das empresas, do apoio às empresas, do liberalismo econômico. O CDS também sempre concordou, por exemplo, com a descida do IRC, que é uma medida que também está no programa da AD, e nessa parte, sim. Mas depois na parte, se quisermos, mais estatizante, também há muito CDS e por isso talvez não seja tão fácil cativar os liberais mais jovens.