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Creio que conseguimos fazer aqui um ponto de situação, também com a ajuda de Miguel Pinheiro, diretor executivo do Observador. Miguel, tudo aprovado com larga maioria. Fica clara a imagem deste congresso e vamos depois ainda ter o discurso de Nuno Melo, mas fica clara esta ideia de união em torno daquilo que foi feito e em torno dos próximos órgãos que são muito semelhantes aos que estavam agora em funções.

Sim, não há espaço pra oposição. O CDS acabou de sair da unidade de cuidados intensivos e seria incompreensível que houvesse aqui algum tipo de oposição organizada, ou mesmo isolada. O ambiente não está para isso. Houve pessoas seguramente que passaram por aqui e que não perceberam que o partido está em outra. Cecília Meireles, por exemplo, que sempre pertenceu a uma ala mais pragmática, mais liberal do CDS. De certeza que aqui, ao ouvir falar em família tradicional, em aborto, em eutanásia, em valores, seguramente que não se reconheceu muito neste partido, mas fez o que tinha a fazer, foi discursar, até ouviu alguns aplausos e seguiu em frente com a sua vida. O CDS está a tentar recuperar a sua capacidade de ter votos e o partido é Nuno Melo. Aliás, nós durante este dia e meio, fomos ouvindo toda a gente que chegava ao púlpito. A primeira coisa que fazia era agradecer a Nuno Melo por tudo o que fez. Nuno Melo não é um líder que consiga levantar as massas com os seus discursos. Seguramente, não é um líder que tenha conseguido criar a afetividade com a militância que o Paulo Portas tinha. Seguramente também que não é, mas era ele que estava lá quando foi preciso ter alguém pra segurar as pontas e foi ele que conseguiu durante estes dois anos manter o partido vivo. Por isso, eu não tenho nenhuma dificuldade em fazer as escolhas que entender. Mas, dito isso, sentiram-se aqui as tensões de sempre. Qual é o caminho que o CDS quer seguir pra frente? O partido, nos últimos anos, sempre esteve dividido entre um conservadorismo mais duro e entre o tal pragmatismo liberal. Paulo Portas conseguiu manter o partido unido, conseguiu manter o partido unido aí, conseguiu manter a tal posição em que à direita do CDS estava uma parede, essa expressão célebre que vem de Fraga Iribarne e do Partido Popular Espanhol. Mas depois de Paulo Portas sair, tornou-se evidente que havia uma luta subterrânea pela alma do CDS, o célebre congresso em que Francisco Rodrigues dos Santos se opôs a João Almeida. João Almeida representava a continuação do portismo. Francisco Rodrigues dos Santos representava uma ruptura com o portismo. Francisco Rodrigues dos Santos venceu. Os resultados foram dramáticos, se bem que a decadência já vinha de trás, não é justo dizer que foi Francisco Rodrigues dos Santos que matou o CDS, não é nada disso. E agora que o CDS voltou à vida, voltamos a ter aqui a tal divisão de sempre. Tivemos aqui Manuel Monteiro a representar este conservadorismo mais duro, a defender um CDS mais preocupado com os valores do que os impostos. Ele disse: "Sim, claro, é importante baixar impostos, com certeza, mas os valores também são importantes." Por isso Manuel Monteiro não quer o partido dos contribuintes, apenas, o partido dos pensionistas, apenas. Ele quer mais do que isso, quer o partido da família tradicional, quer o partido da defesa da vida. E agora vai ser interessante perceber se Nuno Melo faz um equilíbrio ou não. Nuno Melo sempre esteve próximo da ala conservadora, mas mantendo-se dentro do portismo. Ele conseguiu sempre, durante os tempos de Paulo Portas como líder, esse equilíbrio. Ele era a direita conservadora que o portismo aceitava. Foi o candidato a eurodeputado e foi o eurodeputado do partido durante muito tempo. Convém lembrar que quando Assunção Cristas era ainda a líder do CDS e houve umas eleições europeias, mesmo antes de umas legislativas, Assunção Cristas ficou um bocadinho desconfortável com a campanha que Nuno Melo fez nas europeias. Ele falava de armas, de ser caçador, e já estava a tentar impedir que o Chega conseguisse entrar no eleitorado do CDS. Assunção Cristas ficou desconfortável. Houve até uma entrevista na Rádio Observador em que lhe foi perguntado quem é que tinha dito uma determinada frase e tinha sido Nuno Melo, e de facto parecia que tinha sido outra pessoa, e ela ficou muito desconfortável com isso. Portanto, Nuno Melo manteve-se sempre enquanto candidato e personalidade com algum poder no tempo do portismo, e agora a ideia que eu tenho é que está a fazer um bocadinho o papel contrário, ou seja, agora que o CDS está a ir pro lado do conservadorismo, ele é um bocadinho a ponte. Ele é aceito pelos conservadores, mas é uma espécie de conservador light, e é aceito por esta onda conservadora e tenta fazer a ponte com o outro lado.

Entrou na AD porque agora sabe que está debaixo do PSD e que também não pode entrar em grandes ondas.

É por isso, mas é também porque o CDS não desistiu de tentar ser a tal casa comum da direita. Vocês estavam a falar há bocadinho com o Telmo Correia e ele falou um bocadinho dessa expressão, a casa comum da direita, e reconheceu bem, é um bocadinho difícil nós dizermos que somos a casa comum da direita, porque agora há o Chega e a Iniciativa Liberal, realmente fica um bocadinho ridículo. Mas a grande ideia está lá. Aquilo a que nós assistimos neste congresso é que sempre que se falava de questões mais conservadoras, era também dito: "Bem, mas nós na economia somos liberais. Sim, somos liberais, mas com preocupações sociais". O CDS continua a ter esta aspiração de ser a casa comum das direitas, a casa comum de democratas cristãos, conservadores nacionalistas e de liberais económicos. Mas o partido sabe que isso é difícil. Independentemente disso, Nuno Melo vai continuar a tentar fazer essas pontes. Foram decretadas tréguas, e bem, claro, malfeito fora, nestes dois anos. O CDS esqueceu os ataques. Aliás, nós vimos imagens que seriam difíceis de imaginar há uns tempos, em que tínhamos no mesmo espaço Manuel Monteiro, Assunção Cristas, Paulo Portas, convém lembrar que Assunção Cristas, enquanto foi líder, não aceitou o regresso de Manuel Monteiro, meteu esse processo na gaveta até se ir embora. Manuel Monteiro só recomeçou depois com Francisco Rodrigues dos Santos. Manuel Monteiro e Paulo Portas, como saberão as pessoas com mais idade e memória, passaram de aliados no começo, quando ambos tinham 30 anos e tomaram conta do CDS, para inimigos. Manuel Monteiro chegou a sair do partido pra fundar um outro partido, a Nova Democracia. E ele lembrou isso também aqui na entrevista ao Observador. Manuel Monteiro, no fundo, tentou fazer aquilo que André Ventura conseguiu fazer, que foi um partido conservador nacionalista, seria este tal Nova Democracia. Aliás, é interessante porque um dos autores do programa do partido Nova Democracia foi Diogo Pacheco de Amorim. E houve ali uma pequena polêmica depois com o Chega, porque se dizia que o Chega tinha copiado o programa do Nova Democracia do Manuel Monteiro. Não era cópia, o autor é que era o mesmo, era Diogo Pacheco de Amorim. E por isso Manuel Monteiro tentou fazer esse partido conservador nacionalista, falhou, e agora voltou ao CDS pra tentar levar o CDS nesse caminho dizendo: "Eu tinha razão, vocês deviam ter ouvido, nós devíamos nos ter tornado um partido mais conservador, não fizemos isso e agora olhem, André Ventura tem um milhão de votos, quase 20% dos votos e 50 deputados. Se vocês me tivessem ouvido, se calhar nós estávamos naquele lugar."

Não é bem assim, porque ao mesmo tempo o CDS diz: "Nós não queremos um partido populista e sabemos que no Chega não é bem assim".

Claro, é evidente que depois, para o CDS convencer os eleitores que perdeu pro Chega a voltarem, tem que mostrar que é diferente. Não basta dizer: "Esqueçam lá o André Ventura e venham aqui ter conosco". E a diferença está aí. Manuel Monteiro focou muito esse ponto de dizer: "Nós não discriminamos grupos". E falou muito dos ciganos, disse que se há pessoas que recebem subsídios sem fazer nada, nós somos contra, mas tanto podem ser ciganos como não ciganos. E aqui na entrevista à Rádio Observador lembrou que em 76 o CDS era conhecido como o partido dos ciganos e quando ele ia ao Alentejo participar em ações do CDS, a segurança era feita por ciganos. Manuel Monteiro está à procura deste caminho estreito que permita ao CDS ir recuperar bandeiras que perdeu pro Chega, ir recuperar eleitores que perdeu pro Chega e ir buscar eleitores que nem eram do CDS, estavam na abstenção e que o Chega conseguiu fazer com que saíssem de casa pra irem votar. Agora, neste discurso do Nuno Melo, vai ser interessante perceber pra onde é que ele vai. Ou seja, se ele vai tentar prolongar por mais tempo esta posição de estar à frente de uma direção de unidade nacional, é quase uma junta de salvação nacional. Aquilo que ele teve nestes dois anos foi uma junta de salvação nacional. Vamos esquecer as divergências, vamos esquecer as lutas internas, vamos juntar todos pra salvar o partido. Muito bem, isso funcionou durante dois anos. Agora, vai ser interessante perceber se ele acha que estamos numa nova fase ou não. Manuel Monteiro acha que estamos numa nova fase, acha que ultrapassado este momento de dificuldade e de ameaça à sobrevivência do CDS, é a altura de refocar o partido para crescer. Nuno Melo chamou à sua moção Tempo de Crescer e neste discurso ele vai ter que definir como é que vai ser esse crescimento, se vai ser optando pelo tal conservadorismo ou se vai ser tentando prolongar esta indefinição onde tanto cabem conservadores como democratas cristãos, como liberais. Ele vai ter que nos dizer qualquer coisa neste discurso, disso não há dúvida.

Vamos ver o que é que sai desse discurso de Nuno Melo. Está neste momento a ser exibido um vídeo em que se mostraram imagens e discursos dos diferentes líderes do CDS. E neste momento mostram-se imagens de Nuno Melo também em congresso e também em ações de campanha da AD, a mostrar imagens do líder do CDS durante os últimos anos. Tempo de crescer, nome da moção global de Nuno Melo, tempo de construir também já foi em tempos. Neste momento, há essa indicação para o crescimento. Ontem, no discurso de abertura, podemos dizer assim, durante a manhã, Nuno Melo falou na necessidade de desfrutar o momento de regresso, mas também de olhar para o futuro e de começar a construir este partido e a fazer alargar este partido. A imagem que se vê agora nos ecrãs é esse momento do regresso do CDS à Assembleia da República, em que Nuno Melo colocou a placa do grupo parlamentar do Partido Popular CDS-PP. Ontem também deixou essa referência no discurso. Foi muito aplaudido no momento em que deixou essa referência e aqui está o aplauso deste congresso às imagens que foram transmitidas. Miguel, perguntar-te o que achaste também das reações aqui dos partidos, principalmente do Chega agora por junto. Ele a dizer que não são um partido extremista e que não se reveem naquilo que são acusações de extremismos feitas neste congresso do CDS e dos restantes partidos. João Paulo Rebelo a dizer que não ficou surpreendido. Ficaste surpreendido com alguma reação partidária que acabamos de escutar?

Não, foi tudo muito tranquilo, tudo muito previsível, exceto esta declaração de João Tilly. João Tilly nunca é previsível, de facto. Não sei se isto é uma ideia própria ou se é uma ideia que o Chega agora vai tentar agarrar, esta de que há dois partidos à direita do Chega e que, portanto, o Chega não é um partido radical. Eu pensei que o Chega queria ser visto como um partido radical. Era a ideia que eu tinha, mas pelos vistos, não. Agora assinala o ADN e assinala o ERC à sua direita. Eu acho que, na realidade, o PCP e o Bloco poderiam fazer a mesma coisa. Podem dizer que têm à sua esquerda o PCP, MRPP, o POS e que, portanto, não são partidos radicais. Era jogo divertido se fôssemos entrar nele. Enfim, e prepara-se agora, vamos ter aqui mais uma grande guerra à volta do 25 de Novembro. É mais um ponto simbólico, uma causa simbólica e o governo da AD vai tentar, através dessa causa simbólica, tirar espaço de manobra ao Chega. Vimos aqui o PS um bocadinho incomodado com isso. Enfim, não temos aqui tempo para estar a falar do 25 de Novembro, só referir dois pontos. Um é que o 25 de Novembro foi feito muito por Mário Soares. O grande pivô político do 25 de Novembro foi Mário Soares e por isso acho que é sempre estranho ver agora que o PS considera que o 25 de Novembro foi uma espécie de perversão do 25 de Abril, quando foi Mário Soares que esteve politicamente por trás do 25 de Novembro. E o segundo ponto é que a direita desconfiou muito do 25 de Novembro. A direita do PSD, Francisco Sá Carneiro desconfiou muito do 25 de Novembro e a direita ficou muito desconfortável na altura com o facto do 25 de Novembro não ter ido suficientemente longe. Francisco Sá Carneiro queria até uma ilegalização do PCP, mas a direita viu o 25 de Novembro como momento de contemporização com o MFA. Viu o 25 de Novembro como uma espécie de perpetuação do papel dos militares no processo político e por isso a direita o que queria era outra coisa. E eu olho para este amor absolutamente babado da direita ao 25 de Novembro. Na altura, a direita não queria o 25 de Novembro. Mas enfim, o que é que interessa à história se podemos ter propaganda política? Não interessa para nada. Portanto, nos próximos meses vamos ver. Do ponto de vista da tática política, é um bom ponto para o governo da AD, que realmente tem que tentar ao máximo esvaziar com o Chega. Nós ouvimos também aqui Paulo Rangel muito contente com o facto de o CDS estar a ganhar força. E bem.

Mas percebe-se que esta questão do 25 de Novembro, o Nuno Melo até diz, foi algo concertado já com Luís Montenegro, mas deixa essa apresentação dessa intenção para o lado do CDS, para que o CDS possa também ganhar com isso e seja o CDS também a ter a melhor receita desse esvaziar, da tentativa de esvaziar o balão do Chega.

Certo, mas o PSD quer que o CDS faça esse papel de ir buscar votos ao Chega. O PSD não quer chegar-se excessivamente à direita e o CDS está lá para isso. Aliás, esta metáfora que Telmo Correia também usou aqui na entrevista à Rádio Observador, realmente está certíssima. O CDS quer ser o braço direito do PSD. Ou seja, o corpo é o PSD, a cabeça é o PSD e há ali um braço direito que é o CDS.

E o braço esquerdo mexe muito.

E o braço esquerdo, seguramente haverá um braço esquerdo. Há fações do PSD para fazerem o papel do braço esquerdo e irem buscar eleitores que estejam indecisos com o PS. Mas, de facto, o Paulo Rangel tem toda a razão. Ter um CDS em boa forma é ótimo para o PSD enquanto esta concertação dos dois partidos se mantiver. Claro, enquanto houver aqui uma relação em que os dois partidos não se fundem, mas vão andando de mãos dadas, ok, claro, agora na Madeira não vão, mas para o que realmente interessa, vão sempre de mãos dadas. Isso facilita o facto de terem dois partidos, facilita precisamente estes movimentos em que é preciso ir mais à esquerda ou mais à direita buscar eleitores e buscar votos. E por isso, acho que o PSD faz um favor ao CDS ao permitir a Nuno Melo fazer este anúncio aqui no Congresso sobre as comemorações dos 50 anos do 25 de Novembro no próximo ano. Faz-lhe esse favor, mas na realidade faz um favor a si próprio, porque esta articulação só vai beneficiar a Luís Montenegro.

É o ponto final deste Congresso do CDS. Tivemos também a sorte aqui a análise de Miguel Pinheiro, diretor executivo do Observador, neste Pavilhão Cidade de Viseu. Já não há congressistas, há ainda jornalistas, alguns funcionários já de limpeza também para arrumar este Pavilhão Cidade de Viseu. O Congresso do CDS termina. Volvo a emissão para estúdio porque Rita Caberneiro há tempo para atualizar toda a informação na Rádio Observador.