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Com os aumentos das taxas de juro, há muitas pessoas com dificuldade em pagar os créditos à habitação.

Dificuldades que podem ser multiplicadas por dois. Embora as regras do Banco de Portugal proíbam, há quem faça créditos pessoais para conseguir chegar ao valor da entrada necessária. O Edgar Caetano, jornalista da Rádio Observador, conta a história do Tiago. Edgar, o Tiago, nome fictício, é uma das pessoas que conseguiram contornar as regras. Como é que foi possível?

No caso desta pessoa com quem nós falamos, é um jovem, na altura tinha 26 anos, foi possível porque era alguém que não tinha poupanças suficientes para conseguir atingir o tal valor que tu referiste agora, que é a entrada inicial, tem que ser pelo menos 10% do valor, varia um pouco de banco pra banco, mas ele não tinha poupanças suficientes, mas acabou por perceber, quando falou com a imobiliária que ajudou na compra da casa, que era possível ir um bocadinho mais longe. Ou seja, em vez de estar a pensar em comprar uma casa de 90 mil €, que era o que ele achava que tinha entrada pra conseguir comprar, poder esticar-se um bocadinho mais. E foi a imobiliária que lhe disse pra não se preocupar, que havia ali conhecimentos nos bancos, etc., e que ele conseguia, se calhar, de alguma forma, obter aquela compra daquela casa. Agora, no caso dele, isso depois significou um crédito pessoal além do crédito à habitação.

Ou seja, fazer um crédito pessoal pra pôr aquilo que lhe faltava pra entrada.

É isso mesmo. São cerca de 6 mil €, que é um valor ainda relevante, e eram 6 mil € financiados com uma taxa de juro de 9% mais Euribor.

Que é uma enormidade.

É, sim, senhora. É uma enormidade. A história que foi contada é que ele um dia chegou à imobiliária e a imobiliária disse: "Olha, tenho aqui umas propostas", mas, na verdade, só lhe mostrou uma, que era do banco, que era ali porta com porta com a agência imobiliária, e ele acabou por aceitar. No fundo, o que ele fez foi pedir um crédito à habitação junto daquele mesmo banco e depois o mesmo banco dá-lhe também um crédito ao consumo. Isto é uma das formas como acontece. Outra forma como acontece, não foi o caso dele, mas é o caso que também existe em muitas pessoas, são pessoas que vão ao banco e perguntam ao banco como é que fazem pra conseguir chegar à entrada necessária, e é o próprio banco que diz: talvez queira pedir um crédito junto de uma daquelas empresas especializadas em crédito ao consumo, que todos nós conhecemos algumas. E, portanto, há essas duas maneiras.

Sim. Entretanto, como já percebemos, as regras, de resto, até são claras. Não é permitido fazer-se isto, mas os bancos, por isso mesmo, acabam por negar estas práticas.

Oficialmente negam. Mas eu posso dizer que o caso do Tiago, eu não digo qual é o banco que o Tiago usou, mas posso dizer que é um dos que oficialmente estão a negar, aparece no texto a negar oficialmente que fazem.

Tu falaste com vários bancos que negaram oficialmente, mas sabes que um desses foi o que deu o crédito pessoal ao Tiago.

Outro caso que temos no texto de uma jovem, a Joana, também é um nome fictício. Ela diz que fez um périplo por bancos e em todos, exceto um ou dois, lhe falaram nisso.

A verdade, Edgar, é que fazer um crédito ao consumo pra reforçar a entrada de um crédito à habitação pode dar muito mau resultado.

Pode, certamente. E no caso que usámos pra começar o texto, o texto Tiago, não correu mal, e ele até diz que até foi bom, porque foi a forma de ele conseguir ter a casa, mas ele andou a pagar juros caríssimos e acabou por conseguir pagar aquilo antes do tempo. E isso foi bom porque evitou que ele estivesse agora a passar a subida da taxa de juro que estamos a sentir neste momento. Agora, nós sabemos que isso foi uma prática tão generalizada, embora o Banco Portugal ache que não é generalizado, que a evidência não aponta pra que seja generalizado. Nós sabemos é que, ao contrário do Tiago, que já arrumou com essa questão, já só está a pagar o crédito à habitação, há muitas pessoas que estarão neste momento a pagar os dois créditos. E assumindo que estarão a pagar 2%, 3% ou até mais com a subida recente dos juros pelo crédito à habitação, também podem estar a pagar por depois mais uma prestação que às vezes pode ser uma prestação de mais de 150 € ou alguma coisa assim, que pode chegar muito facilmente também a haver um aumento daquilo que as pessoas têm que pagar todos os meses. No fundo, estão a pagar dois créditos pela mesma coisa. Agora, pode correr muito mal, porque a regra impôs estes limites, as pessoas sentiram que foram levadas a optar por esta solução. No fundo, são elas as responsáveis por assinarem. No fundo, por mais que se possa achar que os bancos aliciam ou que sugerem, é verdade, também isso é criticável e negam que o fazem, a gente sabe que isso é assim, mas chegamos a uma conclusão em que nesta situação de subida da taxa de juro, pode haver aqui gente que está em grandes apuros também porque recorreu a estes expedientes. É isso que nós tentamos contar aqui um bocadinho neste texto.

Obrigado, Edgar Caetano, jornalista da seção de economia da Rádio Observador.

Obrigado, Diogo.

"As loucuras que ainda há no crédito" é um artigo onde o Edgar Caetano conta a história do Tiago e está em destaque no site Observador.