Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

É mais um ano vermelho para a Mutualista e quem tem acompanhado, a par e passo, a situação na Associação Mutualista Montepio é o jornalista de economia do Observador, Edgar Caetano, que se junta agora a nós. Boa tarde, Edgar. Tal como sublinhávamos, esta é a maior associação mutualista do país. Fazem parte da Associação Mutualista do Montepio 600 mil pessoas, é isso que escreves também no artigo que assinas. O que é que sabemos, afinal, Edgar, sobre os resultados anuais da Mutualista, que ainda vão ser divulgados, ainda não são conhecidos de forma oficial?

Isso mesmo. O que nós conseguimos apurar é que este ano de 2020 foi mais um ano de prejuízos para a Mutualista. De acordo com as nossas informações, deverá ser, como disseste, um prejuízo entre 15 e 20 milhões, que vem na sequência de prejuízos de mais de 400 milhões em 2019, quando na altura a Mutualista teve de registar uma imparidade muito grande no valor do banco, que é o Banco Montepio. Ora, o que nós sabemos é que, além dos prejuízos, novamente este ano, sabemos que foi muito tensa a negociação com esse auditor externo, a PwC, que acabou a colocar reservas às contas, o que é uma decisão muito dura nestas situações, como sabemos, e que se explica pelo facto de a PwC não considerar válidos aqueles chamados ativos por impostos diferidos, que são basicamente 800 milhões de euros, que são ativos nas contas, que valem para os rácios, mas que são artificiais, porque não são ativos liquidáveis a qualquer momento. Sem esses ativos, como nós já escrevemos no ano passado, a Mutualista passaria a estar oficialmente falida, tecnicamente falida, com um desequilíbrio de mais de 500 milhões de euros e como sabemos, como disseste, João, são 600 mil pessoas e é sempre que lembrar que o primeiro-ministro disse em 2018 que as poupanças dessas pessoas estariam salvaguardadas, acontecesse o que acontecesse.

E para os próximos meses, e é pelo menos essa a previsão, vamos ter eleições, vão realizar-se eleições na Mutualista e são as primeiras sem Tomás Correia, o que recordamos foi durante longos anos presidente da Associação Mutualista do Montepio. Quantas listas é que é provável que haja neste ato eleitoral?

Sim, as eleições não estão ainda marcadas. A pandemia também veio aqui atrasar um pouco este processo, o que até acabou por ser conveniente para a gestão atual. Mas sim, as eleições devem acontecer até o final do ano e já se escreveu que haverá três listas diferentes na corrida, ou seja, a lista incumbente mais duas concorrentes. Mas como nós dizemos no nosso texto, isso é um cenário ainda muito longe de se confirmar. Como sabemos, o atual presidente é Virgílio Lima, um homem da casa, que era administrador de Tomás Correia e que acabou por herdar a presidência quando este saiu no final de 2019. E pelo que apuramos, Virgílio Lima tem estado muito ativo a reunir nomes de peso, conseguiu o apoio de Maria de Belém Roseira, que é ex-ministra socialista, Alípio Dias, mas também pessoas que estão a trabalhar com ele e que são mais da esfera do PSD, como o advogado José Eduardo Martins. Além disso, garantiu também o apoio de João Carvalho das Neves, também um nome muito bem conhecido do setor financeiro português, está na Comissão de Remunerações da EDP neste momento e é professor do ISEG. Ele nas eleições passadas estava com uma das listas alternativas. Além disso, pelo que percebemos, Virgílio Lima também está a namorar, digamos assim, António Godinho, que foi o líder da lista C em 2018, que foi a lista mais votada entre as que perderam. A mais votada depois da lista incumbente de Tomás Correia em 2018. Por outro lado, essa antiga lista C e também a lista B estão de certa forma unidas há vários anos a trabalhar em conjunto e nesta fase o nome que se afigura poder liderar esse movimento é o de Miguel Coelho, que foi administrador com Tomás Correia, até os dois se incompatibilizarem em 2018 e que fez agora recentemente, no verão passado, penso eu, um discurso muito duro na Assembleia Geral. Exigiu que se apresentasse um plano realista de reabilitação do banco e da associação, o que passaria necessariamente por um apoio público, que é totalmente descartado pela atual gestão. Entretanto, parece ter surgido uma possível terceira via com quadros do banco, como Pedro Alves e Pedro Líbero Monteiro, que são presidentes da Montepio Crédito, a Montepio Valor, respetivamente. Mas para responder à tua pergunta, nesta fase é impossível dizer se no final teremos três listas, ou duas, ou uma.

Vamos ter que aguardar, portanto, mais alguns meses. Edgar, no texto que tu assinas no site do Observador, em observador.pt, olhas não apenas para a Mutualista, mas também para o Banco Montepio, que é, neste caso, o principal ativo da Associação Mutualista. Como é que está a situação do banco, que tem sido, aliás, assinalado por muitos como fonte de preocupação no quadro das instituições bancárias portuguesas?

É uma situação muito difícil. Aliás, nós sabemos que os rácios de capital e as exigências regulamentares da Europa estão nesta fase, há uma tolerância a esse nível neste momento. Se não fosse isso, a situação podia ser ainda mais sufocante. Nós sabemos, e isso já é oficial, o banco teve prejuízos de mais de 80 milhões de euros em 2020. Nós apuramos que o banco está neste momento, estamos em abril, e o banco está neste momento a contar que já vai ter prejuízos também em 2021. Isto num cenário em que outros bancos já estão a ter lucros muito assinaláveis. E o que nós sabemos é que temos uma pessoa no Banco de Portugal, Mário Centeno, que reconhecidamente nunca teve no Montepio um dos seus temas de conversa favoritos e que pouca gente imagina que ele esteja disponível para deixar a situação arrastar-se muito mais. O banco está muito descapitalizado, o acionista não consegue capitalizá-lo convenientemente e é por isso que a situação é muito complicada, não só a nível do capital do banco, mas também porque se sabe que existe muita instabilidade num banco que está a ter um plano de redução de pessoal muito agressivo e que às vezes se percebe muito confronto entre os órgãos sociais, neste caso, entre o presidente da Comissão Executiva, que é o Pedro Leitão, e o presidente do Conselho de Administração, que é o Carlos Tavares, ex-presidente da CMVM. Ora, nós sabemos que, nomeadamente no que diz respeito àquele banco de empresas que o Carlos Tavares quis lançar, há muitas discórdias no seio daquela instituição e, portanto, é muito difícil imaginar qual é a solução rápida para estabilizar o banco. E o que sabemos é que Mário Centeno não vai ver com bons olhos, certamente, passar muitos mais anos com o Montepio como um problema ou como uma ferida no céu da boca, como foi uma expressão usada por uma das fontes com quem falámos. E portanto, nesta fase, há gente que acredita que o Montepio pode estar a caminhar sem grande possibilidade de uma alternativa para uma solução como o Banif, que o banco foi vendido a outra instituição e os depósitos foram assegurados, passaram para essa outra instituição. Sabemos que isso é o cenário da bomba atómica, mas não é neste momento um cenário que qualquer pessoa possa excluir, tendo em conta as dificuldades que o banco tem. Por outro lado, também é possível dar a volta, claro que sim, mas sabemos que isso vai ser uma missão muito difícil.