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Junta-se agora a nós o editor de política do Observador, Rui Pedro Antunes. Rui, boa noite. Fazendo aqui as contas, JPP e PS conseguem 20 deputados, mais um do que o PSD, que nesta fase ainda não anunciou nenhum acordo. O que nos espera na Madeira? Será sempre um governo minoritário, seja de um lado ou do outro?

Sim, governo minoritário, no sentido de ter um apoio completo de governo ou os partidos todos do governo terem um suporte maioritário no Parlamento, parece-me difícil neste momento. Mas antes disso, Elvis Sousa disse que ia dormir e que a noite é boa conselheira. Pelos vistos, ainda não acordou, está a sonhar ainda. Estes dois partidos, o PS teve 11 mandatos e o JPP nove, têm os 20 que tu acabaste de repetir. O PSD sozinho tem 19 e em conjunto com o CDS tem 21 e se juntarmos aí o Chega, que nunca se juntará a estes partidos, dá os tais 25. A única hipótese disto ter algum sentido, esta geringonça, ou como lhes chamava, creio que o Carlos Pereira, miscelânea significativa, ou para fazermos a tal expressão utilizada em Espanha, esta espécie de Frankenstein, cheio de retalhos, só era possível se o CDS e a Iniciativa Liberal estivessem disponíveis para fazer um acordo com o PS e com o Juntos pelo Povo. Não está, pelo menos têm dito que não estão. E isso torna difícil, porque uma solução alternativa de governo exigia que o partido que não ficou em primeiro lugar tivesse uma maioria de suporte parlamentar. Por exemplo, António Costa, na verdade, não venceu as eleições, mas tinha uma maioria no Parlamento em 2015. Ou seja, quem está em segundo tem uma maior necessidade de ter essa legitimação. Quem é o mais votado normalmente não precisa, governa com a chamada maioria relativa. Há outras estranhezas. É que o JPP conseguiu agora ser metido no bolso pelo Paulo Cafôfo, porque o JPP está a pouquíssimos votos, a escassos milhares de votos, de ultrapassar o PS e ser a verdadeira alternativa, e não quis. Ficou debaixo do braço de Paulo Cafôfo. Parece-me muito difícil que haja aqui uma solução governativa. Parece-me que isto é mais para pressionar o representante da República, que até podia desejar, enfim, Marcelo Rebelo de Sousa a controlar a partir do continente poderia desejar que Miguel Albuquerque não fosse presidente do governo regional, mas parece-me muito difícil. Só para ver a estranheza, obviamente, Filipe Sousa, que é o irmão de Elvis Sousa, o fundador do JPP, começou no Partido Socialista. Mas eu vou ler-te aqui o que é que o Elvis Sousa disse há seis meses quando falou com o Observador sobre o PS: "Estão cheios de vícios, era preciso arranjar uma máquina de lavar para lavá-los bem lavadinhos". Isto é uma das frases que ele disse. Sobre um dia integrar um governo com um partido que fosse o PS ou o PSD, Elvis Sousa respondeu o seguinte: "Vale mais manjar uma côdea de pão em paz do que estar num banquete em ansiedade". Ora, não há nada de coerência entre o que Elvis Sousa disse com o acordo de governo que nem sequer tem um suporte parlamentar. E a dúvida que fica é assim: então, que solução é que existe? Eu acho que isto tem algum efeito, que é se Miguel Albuquerque quiser levar uma solução que tenha mais deputados, tem que, se calhar, meter o CDS no governo. Ou seja, em vez de ir à navegação e esperar que o programa de governo seja viabilizado pelo CDS, se calhar tem que o colocar no governo. Logo aí a questão numérica é ultrapassada, porque PSD e CDS juntos têm 21. Ora, Juntos pelo Povo e PS têm 20. Não é a maioria, mas permite. Juntando aos quatro do Chega, que não vão para o governo, André Ventura vai fazer voz grossa e dizer que não, etc, faz 25. Dá a tal maioria. É por aqui a única solução possível. E por que eu acho que, independentemente do que o André Ventura disse, esta solução é possível? Porque nos Açores foi isso que aconteceu. Passou o programa de governo, o orçamento está prestes a passar. Portanto, neste momento, parece-me que esta é a solução mais viável. Vamos ver o que os partidos vão levar amanhã ao representante da República, que Irineu Barreto vai receber todos os partidos. Mas neste momento, isto parece-me uma espécie de folclore político, é um bailinho da Madeira, porque PS e Juntos pelo Povo não têm hipótese nenhuma de se entender. Elvis Sousa até tem aqui um erro estratégico, pôs-se debaixo de Paulo Cafôfo quando está prestes a ultrapassá-lo e podia ser a verdadeira alternativa e a verdadeira líder da oposição no próximo ciclo, e não quis. Agora, não me parece que esta solução tenha pernas para andar. Teria sim, e aí, Gabriel, era suficiente, se CDS, PAN, IL, JPP e PS juntos teriam os tais 24 necessários, mesmo sem o Chega e o PSD. Mas isso era preciso a Iniciativa Liberal e o CDS juntarem-se ao Partido Socialista e ao Juntos pelo Povo, que me parece absolutamente impossível. Portanto, neste momento, o que me parece mais provável é que Miguel Albuquerque forme o governo, depois há de negociar com o Chega uma saída airosa para que o Chega viabilize o programa de governo em conjunto com o CDS e esses três partidos juntos têm 25 deputados, passa, e isto aqui passou. Não foi mais do que uma diligência para, enfim, nesta fase, meter alguma pressão na direita, também é legítimo, a política é isto, mas não me parece que isto tenha pernas para andar no sentido de Paulo Cafôfo ser líder do governo regional, isso não me parece.

E precisamente amanhã o representante da República na Madeira vai ouvir os partidos. O que é que antecipas que Irineu Barreto vá fazer? Convidar o partido mais votado, o PSD, a formar governo ou perante esta solução agora conhecida, convidar o PS?

Era aquilo que eu dizia há pouco, que é, do ponto de vista numérico, se o PSD escalasse um acordo com ninguém, este acordo tem 20, que são 11 mais nove, e o PSD tem 19. Isto significa que tem menos um. Ora, se tiver menos um, podia-se fazer uma questão matemática que é: este sempre é um apoio um bocadinho maior, mas não é, porque os outros 19, para já é o vencedor das eleições, ficou em primeiro lugar. Ainda vale alguma coisa do ponto de vista, se quisermos, simbólico. Foi o mais votado, teve 36% e o que diz a Constituição e também o Estatuto das Autonomias é: olhando aos resultados, não se pode ignorar que foi o PSD a vencer. É mais estável porque tem mais hipóteses de passar no Parlamento o programa de governo, havendo o Chega e o CDS a permiti-lo. Portanto, não me parece que Irineu Barreto vá convidar o PS para governar. Pode até fazer uma coisa, que é convidar o PSD. O programa é chumbado, o Chega mantém o que André Ventura disse. A seguir, pode até convidar o PS, mas era preciso o PS ter uma solução, porque quando isso acontece, é preciso que alguém apresente uma solução. Ora, se a alternativa ainda é pior que o mais votado, não me parece que haja aqui uma solução por aí.