Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Miguel Pinheiro, foi um discurso para dar resposta também àquelas que podem ser as preocupações manifestadas pelo Bloco de Esquerda e pelo PCP nas últimas semanas?

Depois disto deve sobrar muito pouco para o Bloco de Esquerda e para o PCP. António Costa terminou o discurso dizendo: "Não temos problemas internos, por isso podemos dedicar-nos aos problemas do país e dos portugueses." De facto, o PS não tem problemas internos e também não tem problemas de dinheiro. Quando recebeu a bazuca europeia, António Costa perguntou a Ursula von der Leyen: "Já posso ir ao banco?" E como vimos aqui, já foi ao banco. António Costa já foi ao banco.

E é também esse cheque bancário que permite..

Levantou o cheque todo, deixou o banco sem reservas nenhumas, porque esteve aqui a espalhar milhões e milhões por toda a gente e mais alguma. Programa Regressar, IRS Jovem, mais 10 mil lugares nas creches, majoração fiscal alargada para quem tem filhos, reforços de técnicos para recuperação do ensino pós-pandemia, 750 milhões para melhoria de instalações de ensino. Enfim, a dada altura, a minha máquina de calcular deixou de ter zeros suficientes para isto tudo e por isso não consigo ser muito exaustivo. Mas aqui veio, por um lado, muitos milhões, por outro lado, na parte laboral, vimos que o PS está disposto a ir para responder a preocupações muito do PCP e também obviamente do Bloco. Está disposto a ir às plataformas digitais como Uber, Glovo, etc, para fazer com que as pessoas que trabalham para elas não sejam meros prestadores de serviço e então tenham que ter contratos. E também as empresas de trabalho temporário, já há não muito tempo.

Estava aqui a fazer uma breve pesquisa só para me recordar melhor das palavras de Jerónimo de Sousa, secretário-geral do PCP, ainda ontem, que ironizava com o choro de António Costa quanto à precariedade dos mais jovens. Será também agora aqui uma resposta ao PCP este discurso de António Costa, porque fartou-se de falar da precariedade, não é verdade?

Sim, e agora percebemos melhor porque é que António Costa ontem, aqui na entrevista à Rádio Observador, pareceu tão confiante na negociação que vem para este orçamento. E de facto, pensando bem, com a bazuca europeia nas mãos, tudo é possível. O céu é o limite e por isso vamos ter aqui uma distribuição de dinheiro a uma escala cósmica nos próximos tempos.

Já vamos também detalhar essas medidas com a ajuda do Rui Pedro Antunes, editor de política do Observador, que também já está conosco aqui para uma análise a esta intervenção de António Costa no encerramento deste 23º Congresso. Rui Pedro Antunes, estava aqui a falar com o Miguel Pinheiro sobre este discurso, que pode ser de alguma forma uma resposta também a essa apreensão manifestada pelo Bloco de Esquerda e pelo PCP ainda antes, nas vésperas deste congresso. António Costa falou de muita coisa que pode ser discutida daqui para frente também nas negociações para o orçamento.

Sim, primeiro fez passar a mão pelo pelo, como se costuma dizer, logo ali na apresentação, que é uma coisa que fica bem e é uma questão de cortesia, a dizer que os parceiros eram os mais exigentes, mas também eram os mais produtivos, no sentido que conseguiam construir algo e conseguiam com esses partidos avançar. Fez essa primeira referência logo ao início e depois apresentou aqui uma série de medidas que podem ser um bom ponto de partida para o orçamento para 2022. Esse momento é claramente bem marcado, ou seja, houve o primeiro discurso em que António Costa falou sobre o que tinha feito e agora pega neste discurso para falar do que quer fazer e como é que o vai fazer. E começa logo aqui a condicionar, de uma forma positiva, porque só está a referir coisas boas, aquilo que é o orçamento para 2022. Isto tem uma vantagem que é todas estas medidas ficam com o cunho do governo. Portanto, já ninguém pode dizer: "Bom, mas isto das creches era do PCP. Bom, mas esta questão da dedução do IRS Jovem era do Bloco", por exemplo. E portanto, aqui António Costa acaba por marcar logo o início das conversações e meter em cima da mesa qual é a lista de compras do PS. O PS também tem uma lista de compras, não é só o Bloco que vai ter.

É preciso também agora perceber se, por exemplo, o Bloco de Esquerda e o PCP em cima daquilo que foi dito agora, vão um pouco mais adiante. Ou seja, por exemplo, se falar de uma majoração fiscal no que diz respeito a benefícios para crianças dos zero aos três, que passa de ser dos zero aos seis, se calhar em vez de ser até aos seis, se calhar quer que seja até aos oito ou até aos nove, ou até aos 10. Esse tipo de negociação de maior detalhe, de filigrana, que pode vir a acontecer. Esperas que depois em cima disto haja um trabalho também do Bloco e do PCP para aprofundar ainda, para dar um maior ritmo àquilo que podem ser as medidas e que vão também ao encontro das ambições dos dois partidos? Ou, por outro lado, aquilo que já foi dito aqui hoje, já foi conversado com os dois partidos e António Costa já tem essa segurança de que é mais ou menos isto que vai acontecer?

Sem dúvida que isto é o primeiro ponto de partida. E o governo, não só depois na especialidade, muitas dessas coisas são alargadas, além do próprio debate prévio à generalidade.

António Costa já disse que tudo ia ser feito na especialidade, ainda ontem aqui na entrevista na Rádio Observador.

Claro, nunca deixou antes disso e portanto sempre disse isso. E mais, o governo até costuma fazer uma coisa que não torna pública, que é não só tem a medida como tem só para informação interna, até onde pode ir. E portanto já tem ali uma pequena margem para: bom, agora se calhar olham para o programa dos parceiros e para aquilo que eles exigem. Vamos imaginar que eles querem, vou dar um exemplo só por alto, só para perceber o que eu estou a dizer. Querem 600 milhões os parceiros, então o governo faz logo uma dotação de 200 milhões e já sabe que só pode ir até 400. Então faz uma primeira proposta de 200 milhões para depois na especialidade ir até aos 400 e chegar a um meio-termo entre aquilo que os parceiros pediam e aquilo que o governo realmente pode dar. Mas este ponto de partida, como o Miguel dizia, já é um ponto de partida bastante ambicioso, é colocar muito dinheiro em cima da mesa e há esse dinheiro da bazuca e não só. E portanto é António Costa a dizer: estão aqui todas estas medidas e estas têm o cunho do PS, agora é a altura dos parceiros se sentarem conosco a discuti-las.

Portanto, parece tudo mais ou menos encaminhado, mas há pouco fazia essa pergunta do quanto custa, afinal, tudo isto. A bazuca resolve mesmo tudo?

Para já sim. Aliás, estou curioso para ver que margem de manobra é que o Bloco terá para não aprovar este orçamento de Estado.

Ficará sem justificação para avançar com a abstenção ou com o voto contra.

Mas com tanto dinheiro a ser dado a torto e a direito, o Bloco de Esquerda vai dizer que é contra esse orçamento?

Ou seja, se agora não viabilizar, nunca mais viabiliza.

Longe de mim, não sei.

Vou ter os poderes da adivinhação.

O Bloco saberá, mas acho que vai ficar numa posição um bocadinho difícil, porque mesmo que aquelas linhas vermelhas do Bloco que já vêm do orçamento do ano passado não sejam absolutamente respeitadas, que estes milhões deixam qualquer pessoa zonza. E enquanto a direita pode dizer: "Bom, mas isto é que é resolver os problemas dos portugueses, é dar-lhes dinheiro", como se isto fosse uma espécie de monarquia do Golfo, em que o petróleo aparece debaixo de uma pedra. A direita pode dizer que os problemas do país não se resolvem distribuindo milhões às pazadas para toda a gente e que a forma de desenvolver um país é criando condições sustentáveis de mais produtividade, melhor e maior criação de riqueza. A direita pode dizer isso. Agora o Bloco de Esquerda, perante isto, fica sem argumentos. Por isso, acho que nesta negociação do orçamento, existem todas as condições para, a bem ou a mal, o PS conseguir alargar a base de apoio ao orçamento.

E António Costa, Rui Pedro Antunes disse no final deste congresso: "Não temos problemas internos, podemos dedicar-nos aos problemas do país, é para isso que servem os partidos políticos." É uma resposta a quem andou a discutir a sucessão durante estes dois dias e também uma resposta, porventura, ao PSD, onde os problemas internos foram sendo também visíveis ao longo dos últimos tempos, em particular também desde que Rui Rio assumiu a presidência do partido.

Sim, ele já sabia que David Destino ia ser o primeiro a falar lá fora e então para fazer a transição, acabou o discurso com uma indireta ao PSD, que é por muito que os outros digam que nós gostassem que tivéssemos problemas internos, nós no PS não temos e portanto, logo por oposição ao PSD, que tem sempre uma crise interna permanente quase desde que Rui Rio chegou à liderança do PSD, que não tem tido descanso, porque os opositores internos já o desafiaram várias vezes e tem muitos críticos. Ao contrário de António Costa. Se olharmos para este congresso.

Tem meia dúzia de vozes e com muito pouco peso dentro do congresso.

Ricardo Gonçalves, Daniel Adrião, Ascenso Simões critica um bocadinho. Conseguimos quase contar pelos dedos os críticos que António Costa teve aqui. Claro que há aqui uma pessoa que vem dizer: "Mas olhe, o seu governo também pôs lá uma pedra e ainda não tem um hospital e mais o acesso para a vila X e para C." Que tem imensa importância, atenção, tem toda a legitimidade fazer isso.

E obviamente que este é também o espaço indicado para os chamados militantes de base, também terem a possibilidade de revelarem os problemas locais, falando também um bocadinho para essas comunidades locais, mais do que propriamente para a direção do partido, que muitas vezes já está relativamente pouco atenta àquilo que se vai dizendo nas horas finais, nas intervenções que são arrumadas depois para o final da noite, início de madrugada.

Sem dúvida, tem muito pouco crítico e há aqui uma grande diferença. No primeiro discurso, António Costa ainda criticou o PSD porque lhe dava jeito, mas agora nem sequer quer saber do PSD. Eu vou começar um debate orçamental e ele nem sequer quer saber do PSD. Estão aqui os meus parceiros de esquerda e há um senhor lá em cima na hierarquia do Estado que me pode chatear. E esse senhor chama-se Marcelo Rebelo de Sousa. E também para ele dou já aqui um sinalzinho. Não se esqueça, senhor presidente, que desejo, lhe diz António Costa, que mantenha as características do primeiro mandato, que os portugueses tanto apreciaram. Porque os presidentes no segundo mandato têm aquele estigma de os segundos mandatos são muito mais exigentes, mandam governos abaixo, fazem pressão sobre os governos. E António Costa tem medo disso. Quem lhe pode estragar os planos é Marcelo Rebelo de Sousa também. E, portanto, ele nem sequer quer saber do PSD. Ele tem estes interlocutores, os parceiros e, por outro lado, o Presidente da República. E ele está a avisar o Presidente da República. Olha, pode ser mais impopular, sabendo que a popularidade é um valor que o Presidente da República preza bastante. E ele está a dizer isto precisamente para prever e para prevenir aquilo que será a atuação e aquilo que pode ser os problemas que possa ter. O PSD, é só para bater no PSD e para colá-lo ao Chega, para o próprio Chega crescer a nível autárquico e dessa forma roubar votos ao PSD e em muitas zonas onde o PS nunca conseguiria ganhar, se calhar até vai ganhar à boleia do Chega ou daquilo que o Chega rouba ao PSD.

Miguel Pinheiro, não ouvimos António Costa fazer um discurso final a falar da extrema-direita, dos populismos. Isso ajuda também àquilo que é o caminho que António Costa quer fazer daqui para a frente. Rui Pedro Antunes sugeria que António Costa estava praticamente a ignorar, neste caso, o PSD. Ao falar mais do PSD na intervenção final e falando também dessas questões relacionadas com o Chega, poderia entrar aqui num caminho que faria com que depois estivéssemos no final a dar muita importância a essas questões mais do combate político e menos à substância daquilo que podem ser estas propostas que podem ser discutidas no orçamento do Estado e que interessam também muito às pessoas que estão lá em casa.

Sim, até porque no início do discurso, António Costa falou das autárquicas e explicou que escolher bem um autarca é escolher aquele autarca que irá saber aproveitar os milhões da bazuca. Todo este discurso foi à volta disto.

A questão do ninguém nos vai perdoar se desperdiçarmos um cêntimo, ao encontro das contas certas que António Costa já falou também aqui no Congresso.

Sim, mas na realidade é aquela velha conversa de quem está mais perto do poder do governo pode ter mais fácil acesso aos milhões. Portanto, se querem os milhões da bazuca, votem PS.

Rui Pedro Antunes.

Sim, sem dúvida. Isso é um argumento que é muito utilizado e é um argumento quase

João Alexandre. Miguel Viterbo Dias, tens aí mais reações?

Vasco Cardoso do PCP, vamos ouvir.

Da comissão política da central do PCP. Problemas muito significativos. Muitos deles já existiam antes da pandemia, foram profundamente agravados pela pandemia. Ora, esses problemas precisam de respostas que não encontramos, nem ouvimos nesta intervenção do secretário-geral do Partido Socialista, que é simultaneamente primeiro-ministro. O país precisa de respostas do ponto de vista do aumento dos salários, sobre isso o primeiro-ministro nada disse. E a questão salarial é absolutamente decisiva para melhorar as condições de vida dos trabalhadores, das crianças, estimular a economia nacional. E não podemos ser o país que fica muito satisfeito com o PRR, mas depois tem os mais baixos salários que se podem verificar em toda a União Europeia. Uma ausência completa de abordagem sobre o aparelho produtivo nacional, a necessidade de substituirmos importações por produção nacional, de produzirmos em Portugal aquilo que sistematicamente nos têm empurrado para comprar lá fora. Os milhões da dita bazuca não podem ser para que o Estado português vá comprar lá fora aquilo que poderia produzir cá dentro. Uma ausência de abordagem também em relação aos serviços públicos, particularmente o Serviço Nacional de Saúde. É preciso fixar profissionais, garantir as suas condições de trabalho, recuperar os enormes atrasos que foram provocados pela própria pandemia.

Mas houve aqui várias referências a propostas do PCP.

A questão das propostas do PCP estarem a ser tidas em conta por PS, isso não é ponto positivo nesta relação.

Eu percebo que estejamos em vésperas de eleições. Há toda uma dinâmica propagandística que se procura colocar. Agora o que não faltaram foi ao longo destes meses, oportunidades ao Partido Socialista para alterar a legislação laboral e responder aos interesses dos trabalhadores. Nós tivemos despedimentos absolutamente selvagens do ponto de vista dos últimos meses, despedimentos coletivos, que só existem porque existe uma legislação laboral com o voto do PS, do PSD e do CDS, que assim o permite. E sobre essa matéria, o governo nada disse. Há respostas ao país que precisam ser dadas dentro do orçamento e fora do orçamento. Percebemos esta lógica que o governo e que o PS procuram introduzir neste Congresso. Agora, essas respostas não as ouvimos aqui. E elas passam, volto a sublinhar, pelo aumento dos salários, o aumento geral dos salários, a começar também pelo próprio aumento do salário mínimo nacional, pelo robustecimento dos serviços públicos, designadamente o Serviço Nacional de Saúde, por uma reforma fiscal justa, que alivie a fiscalidade sobre os rendimentos mais baixos e tribute o património de elevado valor e os altos rendimentos. E precisamos também de uma política de defesa da soberania nacional, com forte impacto na defesa dos nossos setores produtivos. Ora, essas questões estratégicas, sobre isso, o governo nem o primeiro-ministro nada disseram.

Vasco Cardoso a criticar estas declarações de António Costa, por dizer que faltam ainda muitos outros pontos, e que o PS teve também muitos anos para conseguir alcançar esses anseios do PCP. É uma das opiniões que importa aqui ouvir, por ser um dos parceiros privilegiados. Entre eles, falta-nos ainda ouvir João Alexandre, também o Bloco de Esquerda. Continuamos aqui à saída da Portimarena, a aguardar por esta ronda de reações. E só porque antes de te passar novamente a bola, porque julgo que não ouvimos a reação do CDS, apenas um comentário também sobre aquilo que têm sido os problemas internos, com Pedro Melo a dizer que os problemas internos do CDS ficam para os órgãos próprios do partido e não para discutir aqui.

Miguel Viterbo Dias, repórter do Observador, ficas com via aberta também para mais eventuais reações a esta intervenção, discurso de encerramento de António Costa no final deste 23º Congresso do Partido Socialista, aqui em Portimão. Retomo aqui a análise com a ajuda do editor político do Observador, Rui Pedro Antunes, e também com o Miguel Pinheiro, diretor executivo do Observador. Ouvíamos Vasco Cardoso, um nome muito importante nas negociações para o orçamento do Estado, faz parte dessas habituais delegações do Partido Comunista Português, é membro da Comissão Política do Comitê Central do PCP e já falou aqui em dinâmica propagandística e a sublinhar também, por exemplo, as questões relacionadas com os despedimentos, com a legislação laboral, a dizer que nem tudo é orçamento e nem tudo se faz fora do orçamento. Portanto, há aqui planos diferentes e o PCP parece desde já não olhar de forma apenas elogiosa para aquilo que foi aqui dito por António Costa. Há muita desconfiança, como sempre, por parte do Partido Comunista, Rui Pedro Antunes.

Sim, certamente. Já há pouco falavas da questão do choro, daquelas lágrimas de crocodilo de Jerónimo de Sousa a atacar António Costa. António Costa ontem aqui em entrevista na Rádio Observador, também dizia que todos os dias é atacado por eles e que está à espera disso. Portanto, só dia 27 de setembro é que acaba este tiro ao PS. E de facto, estas dinâmicas propagandísticas, ao dizer que o PS teve estes meses todos para resolver questões que não resolveu na legislação laboral e que agora é que vem dizer porque estamos em época eleitoral, isto também parece tudo muito forçado da parte do PCP. Depois dos despedimentos coletivos selvagens, ainda bem que disse coletivos, porque se fosse só despedimento selvagem, ainda poderíamos pensar que se estava a referir ao Miguel Casanova, funcionário do PCP, que teve que ser reintegrado por um tribunal depois de ser despedido, aparentemente de forma selvagem, por delito de opinião dentro do PCP. Mas à parte disso, parece-me claro que Vasco Cardoso tinha que ter esta postura agora, que é uma postura de dureza para início das negociações, e não dizer: "Estas medidas são todas muito boas, o PCP apoia plenamente." Não, o PCP vai fazer o caminho dele, vai pôr a tónica na legislação laboral.

É também porque tem que falar para o próprio eleitorado, não é?

Peço desculpa interromper, mas vamos ouvir agora Jorge Costa, do Bloco de Esquerda. Só este compasso de espera para que outros colegas possam também entrar em direto, mas Jorge Costa já está aqui neste palanque montado à saída do Portimarena. Vamos ouvir.

O Congresso do Partido Socialista e o discurso de encerramento do secretário-geral deram indicação de áreas em que o governo pretende intervir e foi feito o anúncio de uma série de medidas importantes que nós vamos verificar de que modo é que se vão refletir ou não no texto do Orçamento do Estado que o Partido Socialista e o governo há de apresentar na Assembleia da República. Esse texto será lido a seu tempo, será conhecido e será analisado pelo Bloco de Esquerda, mas nós não queremos deixar de sublinhar a ausência, no discurso do primeiro-ministro, de alguns tópicos essenciais para o Bloco de Esquerda, que, aliás, já vimos levantando desde a negociação do Orçamento do Estado para 2020. Eles são críticos se quisermos entender a discussão do Orçamento do Estado, não como um documento para o imediato apenas, mas sim como um debate político entre um governo que está em minoria no Parlamento e partidos de esquerda, que têm um mandato próprio e cujo apoio é procurado pelo Partido Socialista. Ora, se esse é o debate que é preciso fazer, nele não podem deixar de ser incluídos dois aspectos que para nós são essenciais. Um é a questão da legislação laboral, onde o Partido Socialista insiste em recusar a alteração das medidas que a troika, o governo Passos Coelho, introduziu nas leis laborais em 2012, insiste em manter o corte nas indenizações por despedimento, insiste em manter o corte nos dias de férias, enfim, em manter um conjunto de alterações à lei laboral que veio fragilizar gravemente a posição dos trabalhadores na sociedade. E, portanto, quando o primeiro-ministro fala da dignidade do trabalho e da necessidade de fazer crescer o salário médio, isso só pode conseguir-se alterando a condição do trabalho na sociedade, alterando a posição dos trabalhadores neste contexto. E para isso é essencial fazer alterações de lei laboral que o Partido Socialista, reiteradamente, e neste congresso mais uma vez, se vem recusando a realizar. Esse é um dos tópicos essenciais que o Bloco de Esquerda pretende levar às negociações deste ano. E certamente é determinante, é determinante como foi na negociação do orçamento passado. O outro tema que também é para nós muito importante tem que ver com a questão da saúde e com a questão da falta de profissionais de saúde essenciais para o funcionamento dos serviços, tanto mais que se verifica nesta fase um sacrifício acentuado de todo o Sistema Nacional de Saúde, de todas as equipas. Em particular, verifica-se reiteradamente a falta de médicos, tanto nas unidades de saúde familiares, tanto nos médicos de família, como nos hospitais, vêm faltando em numerosas especialidades e em muitos pontos do país. E, portanto, essa incapacidade de reter no Serviço Nacional de Saúde os seus profissionais tem que dar lugar a medidas importantes, a medidas de valorização dessas carreiras, de valorização da dedicação plena ao SNS, e nesse terreno, o Partido Socialista tem mantido também a falta de um compromisso que nós queremos, nas negociações deste ano, procurar. E, portanto, é com a vontade de encontrar soluções, e em particular nestes dois pontos, trabalho e saúde, que o Bloco de Esquerda vai intervir nas negociações do próximo Orçamento do Estado. Está nas mãos do governo. Houve uma primeira reunião marcada com o governo, que se realizou no final de julho, em que todos estes pontos foram apresentados ao governo, e na próxima semana haverá um conjunto de reuniões que darão sequência a esse diálogo.

Pergunta sobre as linhas vermelhas dessa negociação.

O debate do Orçamento do Estado para 2021, ou seja, o debate do ano passado, terminou de uma forma muito clara, e a Catarina Martins frisou isso, inclusive, no debate parlamentar, no final do debate do orçamento, em que disse: "Bom, nós este ano não conseguimos que o Partido Socialista alterasse a sua posição em matérias tão importantes como esta da legislação laboral, como a questão da saúde. Para o ano, cá estaremos na próxima negociação do Orçamento do Estado a procurar resolver questões que são estruturais, que são reformas importantes, que são fatores de atraso, tanto ao nível dos serviços públicos, como ao nível dos direitos de quem trabalha, que é uma questão essencial. E, portanto, nesta negociação, tal como anunciamos no ano passado, vamos voltar a esses tópicos.

Jorge Costa, do Bloco de Esquerda, aqui numa das últimas reações, depois de ouvirmos também dois parceiros privilegiados do PS. E para terminar aqui com nota de reportagem, não sei se estratégico ou não, mas o local de reações foi colocado ao sol, em agosto, no Algarve, o que também acelerou esta roda de reações, porque os próprios protagonistas políticos não estavam propriamente confortáveis a reagir aqui na rua à intervenção de António Costa. João Alexandre, outra figura, outro protagonista. Volaremos, mas eu diria que o essencial desta ronda de reações está ouvido.

Reportagem com Miguel Viterbo Dias neste congresso 23º do Partido Socialista, que se realizou durante dois dias em Portimão. Vamos prosseguir aqui com a análise, já na reta final desta nossa emissão especial, que começou também já durante o dia de ontem. Estivemos hoje a acompanhar essa intervenção final por parte do secretário-geral do PS e primeiro-ministro, António Costa. E por falar em Costa, Jorge Costa, um dos mais proeminentes dirigentes do Bloco de Esquerda, foi também há pouco tempo líder parlamentar intríno na ausência de Pedro Filipe Soares. É também um homem forte nas negociações do Bloco para o Orçamento do Estado. Fala aqui das questões da lei laboral. Já na convenção do Bloco de Esquerda, há não muito tempo, há algumas semanas, se falava dessa questão do trabalho como sendo uma questão central para o Bloco de Esquerda e deixa bem claro, Pedro Antunes, que não foram dadas as respostas necessárias por parte de António Costa.

Sim, o Bloco de Esquerda, tal como o PCP, está a fazer exatamente o jogo deles. O Bloco nesta matéria tem dito uma coisa que é: o ano passado a negociação burcou. Nós votámos contra. Portanto, o que vamos meter em cima da mesa é exatamente aquilo que pedimos no ano passado, vamos continuar a pedir. No Bloco de Esquerda parece que nada mudou particularmente e as exigências que têm para este orçamento são exatamente as mesmas do ano passado. E no ano passado, no orçamento para 2021, no final de 2020, o que o governo disse foi: não há condições, não temos dinheiro para dar isto que o Bloco quer. Já cedemos na nova prestação, já cedemos aqui, já cedemos ali, em vários pontos que teriam sido exigências do Bloco de Esquerda e depois chegou a um certo momento e disse: não vamos ceder mais. E houve uma troca de cartas, e de e-mails e reuniões, e acabaram por descartar o Bloco. Aparentemente, não tinham condições, porque nada do que o Bloco pedia, o PS discordava ou o governo discordava, não tinha era dinheiro para dar. Agora, tendo tanto dinheiro para dar, estão aqui as propostas, o Bloco pode substituir algumas dessas pelas do Bloco de Esquerda, porque havendo mais dinheiro e havendo uma bazuca, há essa margem de negociação, é uma questão do Bloco de Esquerda se sentar. Quanto a isso, António Costa já disse uma coisa, que é: nós temos que mexer, por exemplo, nos escalões do IRS, mas essa esquerda não nos exigir outras coisas que não nos deixa mexer nos escalões do IRS.

Já ontem na entrevista aqui na Rádio Observador deixava bem claro, até por causa desse impacto econômico provocado pela pandemia, António Costa não admitia que pudesse dificultar as negociações de um orçamento, mas dizia sim que era preciso pensar muito bem nas medidas que se vão propor. Ou seja, se há mais despesa, tem que se encontrar uma forma de encontrar também receita, apesar dos fundos que vêm da bazuca. Miguel Pinheiro, lá está aquela questão de não haver fome que não tenha fartura no que diz respeito às propostas por parte do governo e aquelas que foram aqui anunciadas por António Costa, mas depois António Costa também diz aos parceiros que é preciso escolher muito bem aquilo que se quer, porque não dá para tudo.

Eu acho que esta reação de Jorge Costa mostrou precisamente a enorme dificuldade em que o Bloco de Esquerda está neste momento.

O que é exigir mais.

É que ainda por cima o Bloco foi atropelado. Na última convenção do Bloco, de facto, o Bloco concentrou-se e duas das coisas foram trabalho e saúde. Trabalho e as tais alterações à legislação laboral que vêm dos tempos da intervenção da Troika, que lembre-se, veio na sequência de uma bancarrota em que estava o PS no governo e foi negociada por um governo do PS, mas pediu as alterações a essa legislação laboral e depois pediu também, além disso, regulação do teletrabalho, António Costa falou disso aqui. E pediu, por exemplo, para ser resolvida a questão dos trabalhadores das plataformas digitais. António Costa falou disso aqui. Portanto António Costa, neste discurso, já foi na direção de muitas exigências do Bloco na questão laboral. Depois, na questão da saúde, há aqui dois pontos. O primeiro é que o Bloco pede mais trabalhadores no SNS.

E há até aquela questão da exclusividade.

Não, mas há aqui um problema antes disso, é que ainda há poucos dias o governo deu os números e abriu imensos lugares no SNS e um terço ficaram por preencher porque as pessoas não concorreram. Portanto, por um lado, o governo não pode ser acusado de não estar a abrir lugares no SNS. E depois, além disso, existe claro, esta questão que o Bloco pode sempre dizer: bom, mas os lugares ficaram por preencher porque o Estado não cria condições de atratividade para as pessoas trabalharem no SNS. Bem, as pessoas podem não ter reparado porque havia muito barulho de aplausos, mas no discurso de Marta Temido, a Ministra da Saúde falou expressamente deste ponto e disse que iam ser criadas condições de maior atração no SNS, que passavam por a questão da exclusividade, portanto dar maiores contrapartidas pela exclusividade. Falava também de avaliação pelos resultados, não sei se esta parte agrada tanto ao Bloco de Esquerda, mas eu suspeito que já estão pensadas da parte do governo medidas para tornar mais atrativa a carreira no SNS, até porque o governo não pode permanentemente passar por esta vergonha de abrir lugares no SNS e os médicos não concorrerem. Isto não é sustentável. A dada altura ou desiste ou então tem que fazer qualquer coisa. Eu suspeito que até ao Orçamento de Estado, ouvindo a Ministra da Saúde aqui no Congresso, virão mais medidas. E por isso, passo a passo, o Bloco de Esquerda perde margem de manobra, quer dizer, vai agarrar-se a uma alínea do Código de Trabalho, vai dizer: não, eu não apoio este orçamento, porque há aqui uma pequena alínea em que o governo não cedeu e nós sem isso não admitimos. É isso que vai fazer, é isso que vai dizer aos seus eleitores?

Pedro Nunes, editor de política do Observador, o Bloco de Esquerda está de pés e mãos atados?

Sim, está um bocadinho. O Bloco de Esquerda está aqui condicionado, porque os grandes desafios e como o Miguel dizia, os dois grandes temas, são áreas em que o PS tem investido nesta governação e são prioridades do PS. E, portanto, a partir do momento em que há uma evolução nessa área, em que há progressão nessa área, fica esvaziado um pouco o discurso do Bloco de Esquerda e depois até noutra área, se me permites, mais lateral, até em questões de direitos LGBT, etc., áreas em que o Bloco historicamente sempre foi um grande defensor, António Costa também, no próprio discurso, vai fazendo pequenas referências a esses pontos.

Quando falou sobre as questões ligadas ao casamento ou à família.

Exatamente, que o direito não é apenas entre um homem e uma mulher e o direito a formar família, que o direito de família não é apenas entre um homem e uma mulher e, portanto, mesmo nesse campo, o PS de hoje entra muito em áreas que eram tradicionalmente, se é um partido nascido em 99, pode ter tradicionalmente, do Bloco de Esquerda. Portanto, até aí o PS vai sempre roubando espaço ao Bloco de Esquerda. Vamos ver que efeitos eleitorais é que isso tem, porque António Costa também é o grande responsável pelo fim do chamado voto útil, pelo menos em eleições legislativas, porque as pessoas sabem que se votarem no Bloco ou no PCP, isso não invalida que depois, mesmo que o PS não seja o partido mais votado, não invalida que a esquerda esteja no governo.

Muito rapidamente, não tivemos tempo para ouvir David Justino, ou melhor, não tivemos condições na altura, tivemos aqui um problema de rede, mas o vice-presidente do PSD esteve aqui presente, foi um dos convidados. Disse que viu um congresso de sucessores que tratou mal os empresários, que os tratou como vilões que andam só a fazer mal. Como já dissemos, António Costa praticamente não falou do PSD na intervenção final. David Justino o que diz foi que não conseguiu também perceber como é que o país vai crescer, como é que vai criar riqueza. O que dizer também desta reação do PSD e o que é que pode sobrar também aqui de uma ponte mínima de diálogo entre o PS e o PSD, que era, se bem nos lembramos, já há algum tempo, um desejo do próprio Rui Rio.

Sim, desde logo, David Justino já vinha com o discurso escrito de casa, independentemente do que António Costa dissesse. Podia ser metade da intervenção a falar de empresários, que não foi, mas eu vi nove mil milhões para ajuda a empresas, etc. Também houve uma referência de recuperar a economia e recuperar as empresas, portanto, não foi discurso completamente desprovido dessa área dos empresários. Eu percebo que o PSD queira fazer esse binómio entre o partido dos empresários e ser o PSD a ter essa bandeira e não deixá-la para o governo e para o PS, mas de facto não foi uma ausência total de quando se fala de PRR, de recuperação económica e também de alguma forma tentar envolver os privados nisso, obviamente que há aqui uma ajuda a empresários e, portanto, não é totalmente desprovido. Esses acordos que aconteceram no passado, para questões muito específicas, duvido que se voltem a repetir num futuro próximo, até porque a sobrevivência de Rui Rio pode ser muito difícil, mas para o PS avançar para aquilo que quer avançar, que é para uma descentralização de competências a caminho da regionalização, ora isso não faz sozinho, certamente. Precisa do PSD, precisa de dois terços no Parlamento para mudar esse tipo de questões e, portanto, aí os dois partidos estão sempre condenados e entendem-se. Por exemplo, vamos falar da lei da nova orgânica militar e aí entenderam-se. Portanto, quando são questões em que são necessários os dois e que são estruturais para o país, entendem-se. Agora, não vai ser nos próximos tempos e vamos ver se vai ser com Rui Rio. Primeiro tem que ganhar as eleições internas no PSD, porque até lá, entretanto, isto não é o entretanto mete-se o Natal, mas há eleições no final de setembro, depois entretanto há o debate do Orçamento de Estado e entretanto vai haver negociações sobre reformas, já estamos a atirar para o próximo ano e aí o PSD já está a disputar a sua liderança.

Miguel Pinheiro, mesmo para terminar um minuto, há aqui alguma hipótese de PS e PSD voltarem a dialogar ou não há qualquer tipo de interesse de António Costa? A própria moção de estratégia global que trouxe aqui ao Congresso já dava a entender isso mesmo, que António Costa não estava minimamente interessado.

Não.

Por vezes é tudo uma questão de necessidade.

Não precisa do PSD para nada e como o Rui estava a dizer, nalgumas reformas em que o PS precisa de dois terços dos votos no Parlamento e em que precisa mesmo do PSD, de facto, o PSD tem mostrado abertura para as resolver, até porque teria também muita dificuldade em explicar ao seu eleitorado porque é que se recusaria a colaborar em coisas que têm sido pacíficas no bloco central, coisas que tenham a ver com grandes áreas do regime e em que, de facto, PSD e PS estão de acordo e o PSD teria uma grande dificuldade em explicar aos seus eleitores por que ia fazer finca pé e chumbar só por chumbar, recusar a falar com o PS só por recusar a falar com o PS. Enfim, o PS sai daqui firmemente no sítio onde quer estar e onde sempre quis estar desde a fundação, que é no centro do regime, no centro do sistema político, conseguindo domesticar a esquerda e a direita, estando absolutamente incontestável no poder. António Costa não podia sair melhor deste Congresso.