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Junta-se a nós agora em direto o editor de política do Observador, Rui Pedro Antunes. Rui, boa noite. Eu começo por perguntar-te: o Presidente da República deixou alguma pista do que fará depois de 10 de março ou optou por deixar em aberto?
Gabriel, precisamente o presidente, mais do que aquilo que disse, na mensagem está aquilo que não disse. Ou seja, o Presidente da República limitou-se a dizer que irá interpretar os resultados eleitorais conforme aquilo que for o voto dos eleitores e diz aos eleitores: "Vão votar, porque a responsabilidade vai ser inteiramente vossa". Por que optou por fazer isto? Ao não definir aqui, se quisermos, nenhuma linha vermelha, nenhuma condição para o tipo de exigências que vai ter para esse novo governo, deixa-lhe a margem aberta pra poder fazer tudo o que quiser nessa altura, com base naquilo que sejam os resultados eleitorais. Por exemplo, o Presidente da República costuma dizer muitas vezes que procura a estabilidade e que é o garante da estabilidade. Ele não utilizou sequer essa palavra, porque sabe que a partir de 10 de março será difícil ter uma solução, que ele terá sempre que validar, que terá sempre que organizar essa solução governativa. E, portanto, como sabe que não vai ter, opta por nem sequer referir isso e não coloca essa bitola. Uma questão interessante aqui é que o presidente também não deixa nenhuma indireta para dizer se aceitaria uma solução com um partido como o Chega ou com partidos, por exemplo, como o Bloco de Esquerda ou o PCP, que possam não estar alinhados naqueles que são os compromissos internacionais do país, opta por não dizer nada sobre esse assunto. E nesse aspecto, deixa aqui um sinal: a partir de 10 de março, tudo é possível, desde que as pessoas votem nesses partidos, qualquer um deles pode fazer parte de uma solução governativa e creio até que é por isso que André Ventura gostou muito desta mensagem de Marcelo Rebelo de Sousa.
Há também uma referência de Marcelo Rebelo de Sousa às contas certas. Isso pode ser lido como uma exigência para um futuro governo, Rui?
Sim, quando o presidente diz que as contas certas ficou claro que são essenciais, está a dizer que esse futuro governo, seja ele qual for, deve ter cuidado para manter o rigor orçamental. É claro que faz isto a Marcelo, que coloca sempre: "Ah, mas as contas certas não são tudo, é preciso mais justiça, mais igualdade". Aquele discurso de laPalisse, qualquer pessoa diria, ele diz também e acrescenta a seguir, mas fala nestas contas certas. Isto é particularmente importante, porque há um dos candidatos, que é o candidato do PS a primeiro-ministro, que é Pedro Nuno Santos, que defende, por exemplo, uma redução da dívida pública a um ritmo menor do que aquele que, por exemplo, atualmente o governo do PS defende. E também, obviamente, para o outro lado, neste caso, para Luís Montenegro, e aí falando para ambos que estão em condições de ser primeiro-ministro, para dizer que têm que ter cuidado com aquilo que vão prometer, porque já vimos, por exemplo, o tempo de serviço dos professores vai acabar por ser descongelado, aquele que estava congelado, porque os dois propõem isso. E o que o presidente faz aqui é deixar um aviso de cuidado com o que andam a prometer agora nesta fase, porque depois o rigor das contas certas é importante para o futuro do país. E portanto, aí sim, faz um aviso no ar, no escuro, mas que cada um, principalmente os partidos que têm ambições de governar, podem enfiar a carapuça neste caso.
O presidente também se refere à saída de António Costa como uma decisão legítima e pessoal. Está aqui mais uma vez a justificar a demissão do governo?
Sim, aqui o Presidente da República tenta não ficar com o ônus daquilo que é a situação política. Por quê? António Costa já veio dizer que talvez Marcelo se tenha arrependido da solução que tomou de convocar eleições. E é verdade, porque António Costa apresentou uma solução a Marcelo Rebelo de Sousa que não era preciso eleições, que era Mário Centeno, que nem sequer tinha sido eleito, ser o primeiro-ministro durante uns tempos até ao fim do mandato e continuar tudo com uma maioria absoluta do PS no Parlamento. Qualquer das formas, há esta tentativa de António Costa e também do PS de colar a Marcelo Rebelo de Sousa toda esta situação que o país agora enfrenta, das pessoas terem que ir a votos, de depois, eventualmente, depois de 10 de março, haver uma grande instabilidade política, poder não haver acordos para um orçamento, etc. E esta referência de Marcelo Rebelo de Sousa é mais uma vez preventiva, para impedir que lhe atribuam a responsabilidade do que acontece. Isto porque o PS tem, de alguma forma, colado o presidente a estas eleições antecipadas. Como é que o presidente faz isto? Diz que é uma decisão legítima, ou seja, António Costa poderia ter feito, mas foi uma decisão dele, pessoal, que ele próprio nunca exigiu que António Costa saísse. Aliás, como ele já disse, por ele, António Costa ainda continuaria primeiro-ministro e era o preferido dele para continuar. Portanto, aqui Marcelo defende-se daquilo que pode ser um grande clima de instabilidade política, para o qual ele não quer ser responsabilizado e diz que só foi para eleições porque de fato foi obrigado a isso.
Obrigado, Rui Pedro Antunes, editor de política do Observador, aqui numa análise à mensagem de Ano Novo do Presidente da República.