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Temos em direto conosco também o politólogo André Azevedo Alves. Obrigado por se juntar também a nós em direto, André. Temos mais uma vez aqui o foco da Justiça no Partido Socialista.

Temos mais uma vez o foco no Partido Socialista. Eu estava a ouvir a Helena Matos e subscrevo, no essencial, o que a Helena estava a dizer. Temos também, além do foco no Partido Socialista, uma fragilização desta nova liderança do Partido Socialista, porque se há fatores desta relação problemática do Partido Socialista com a Justiça que já vem de trás e que a Helena também referiu, desde o processo Casa Pia, toda a situação com o José Sócrates, mais recentemente a Operação Influencer, etc. A verdade é que nenhuma destas várias situações a envolvia de forma mais próxima, ainda que acabasse sempre por envolver, porque José Luís Carneiro é uma figura do Partido Socialista e um dirigente, e já desempenhou vários cargos. Mas eu diria que esta é a primeira situação que, sem até ao momento envolver diretamente José Luís Carneiro, o novo líder do Partido Socialista, envolve pessoas que lhe são muito próximas. E ao envolver pessoas que são muito próximas do novo líder do Partido Socialista, parece-me que não só acrescenta a fragilização do Partido Socialista, mas fragiliza especificamente esta nova liderança do Partido Socialista. E nesse sentido, o fato de termos figuras que atuaram, por exemplo, como diretora de campanha ou figuras com peso na comunicação do partido já nesta liderança, aumentam essa fragilização e aumentam também a pressão sobre a forma como José Luís Carneiro vai reagir a tudo isto, que eu creio que pode ser um momento que vai definir as perspectivas da sua liderança futura.

E estes casos, há pouco perguntava isso também à Helena Matos, estes casos a afetar o PS, mas também que vão afetando os principais partidos do sistema com algumas suspeitas de corrupção, dão gás, por exemplo, ao discurso do Chega e àquilo que tem sido a forma do Chega de fazer política?

Acho que claramente. Independentemente da posição que possamos ter sobre se isso é algo mais positivo ou mais negativo, ou vermos isso com mais agrado ou menor agrado, que casos como este encaixam como uma luva na narrativa política do Chega e na estratégia política de André Ventura, parece-me absolutamente evidente e inegável, até por outra razão, porque se do ponto de vista dos efeitos na esfera legal e criminal, esses efeitos em Portugal, em especial em Portugal, infelizmente, são incertos e geralmente a muito longo prazo, quando sequer existem. Porque infelizmente estamos crescentemente habituados a que muitas vezes estes processos, especialmente quando se tornam megaprocessos, acabem por resultar em muito pouco ou nada. Mas se na esfera legal esses efeitos, como eu dizia, acabam por ser a muito longo prazo e com grande grau de incerteza, há efeitos políticos que são imediatos. E obviamente que o fato de termos imagens e a passar nas televisões buscas na sede do Partido Socialista, esse efeito simbólico, o efeito das próprias detenções, é um efeito que acaba por ter consequências políticas, independentemente do próprio desenrolar do processo, em que certamente em tempo útil não teremos efeitos concretos a esse respeito. Mas há um desgaste crescente, é um desgaste que também afeta o PSD. Eu há bocadinho elencava alguns dos problemas que envolvem o Partido Socialista, estruturas do Partido Socialista e dirigentes e ex-dirigentes do Partido Socialista com a Justiça, mas temos também, por exemplo, a operação Tutti Frutti. Tivemos também, nomeadamente com o caso Pinão Viva, um conjunto de questões envolvendo o próprio primeiro-ministro. E portanto, quer PS, quer PSD, no fundo, os dois principais partidos, hoje o PS já não é o segundo partido a nível parlamentar, mas os dois principais partidos do sistema partidário português no último meio século, que estão crescentemente desgastados por este tipo de situações. E parece-me que claramente são situações que reforçam a narrativa política do Chega e estou certo que André Ventura, mais uma vez, não deixará de aproveitar essa situação.

Tivemos aqui já um comunicado do PS a confirmar as buscas, mas também a sublinhar essa ideia de que o foco não é o partido, mas sim um funcionário do partido. Isso faz diferença?

Parece-me que faz muito pouca. Naturalmente que o foco são sempre pessoas. Ou seja, as entidades, sejam elas quais forem, partidos, empresas, organizações da sociedade civil, as entidades não têm vida própria, as entidades atuam por via das pessoas que as dirigem, que têm nelas responsabilidades. E obviamente que os contornos do caso envolvem claramente o poder autárquico, envolvem possíveis esquemas de trocas de favores, eventualmente corrupção, prevaricação com fundos públicos. E portanto, o fato de remeter ou procurar minimizar o problema dizendo que isso diz respeito a pessoas concretas, não diz respeito ao partido no seu todo. Bem, por um lado é obviamente verdade, no sentido em que as investigaçõesTem sempre que envolver pessoas concretas, mas, por outro lado, há aqui óbvias implicações para o Partido Socialista, há óbvias implicações para o poder autárquico, pelo menos para o poder autárquico exercido pelo Partido Socialista, e parece-me que se a via de reação da atual liderança do PS for essa que é sinalizada nessa passagem do comunicado, parece-me que José Luís Carneiro irá por um mau caminho. E permita-me só acrescentar aqui também um aspecto. Acho que há aqui um outro elemento de tensão que poderá ser também com a Presidência da República. António José Seguro foi um dos pontos mais enfáticos também na sua campanha presidencial, o desígnio de promover maior transparência, recredibilizar os agentes políticos, aproveitando até e capitalizando, que a meu ver António José Seguro fez muito bem, o distanciamento que teve dentro do próprio Partido Socialista face, nomeadamente a António Costa. Portanto, António José Seguro procurou e, a meu ver, conseguiu capitalizar bem esse distanciamento e até uma noção, que me parece verdadeira, de que a certa altura chegou a ser ostracizado dentro do Partido Socialista, precisamente por esse tipo de posicionamento. Parece-me que a própria relação com o Presidente da República poderá ficar também fragilizada para esta liderança do Partido Socialista se a resposta não for bem mais robusta do que indicia essa passagem do comunicado. Acho que será muito importante ouvir depois o que é que José Luís Carneiro tem a dizer de viva voz e que consequências tira deste caso. Mas parece-me que, de facto, pode ficar como uma mancha política significativa para esta liderança do Partido Socialista, simultaneamente acrescentar ao desgaste dos dois principais partidos do centro político português, PS e PSD, e parece-me também, de alguma forma inevitável, que reforce a posição do Chega e de André Ventura.

André Azevedo Alves, muito obrigado por estar em direto connosco, politólogo que nos ajudou a olhar aqui para o que têm sido estas horas de buscas, tanto à sede nacional do PS como à Junta de Freguesia de Santa Maria Maior.