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Junta-se a nós em direto o André Azevedo Alves, politólogo e colunista do Observador. André, bem-vindo a este jornal.

Olá, boa tarde.

Foi uma semana muito intensa para a política. Já lá vamos. Primeiro, peço lhe aqui uma análise a este discurso de Luís Montenegro. O que é que fica das declarações do líder do PSD neste encerramento da Universidade de Verão em Castelo de Vide?

Eu destacaria dois aspectos no discurso de Luís Montenegro. Em primeiro lugar, alguma correção e algum ajustamento no discurso relativamente às europeias. Luís Montenegro tinha sido bastante criticado aqui há algum tempo, quando deu a entender que uma derrota por pouco com o Partido Socialista não seria necessariamente um mau resultado. E aqui creio que aproveitou para corrigir o discurso, pegando também no mote de Durão Barroso e para claramente colocar como objetivo, como a meu ver também terá necessariamente de ser, uma vitória clara do PSD nas europeias. Portanto, acho que esse foi o primeiro elemento. O segundo elemento foi procurar uma abordagem mais setorial, mais temática, tocando na habitação e noutros temas, procurar afirmar o PSD como alternativa à governação socialista. Creio que é algo em que Luís Montenegro e o PSD têm tido bastante dificuldade. Vamos ver se agora nesta rentrée e a partir desta rentrée política, as coisas mudam, mas a verdade é que até agora eu diria que é verdade que se tem falado muito do PSD, mas nem sempre pelos melhores motivos e nem sempre pelos melhores motivos para o próprio Luís Montenegro.

Veremos nos próximos dias. E agora sim, parece estar dado o tiro de partida para as eleições presidenciais. Foi um tema muito discutido esta semana, daí eu dizer há pouco que foi uma semana intensa para a política nacional. É a altura certa para já estarmos a falar na corrida a Belém em 2026 ou é cedo demais, como diz, por exemplo, o líder do PCP e o líder da Iniciativa Liberal?

Parece-me claramente cedo demais. E aí concordaria quer com o líder do PCP, quer com o líder da Iniciativa Liberal. Acho que não só porque falta muito tempo, mas também porque claramente há assuntos que me parecem bastante mais urgentes para o país tratar. E, portanto, nesta altura, com o tempo que ainda falta e face à gravidade de alguns dos problemas que o país enfrenta, parece-me francamente prematuro estar a fazer uma espécie de pré-primárias, mais à direita do que à esquerda, verdade, mas nesta discussão de quem poderá ser candidato e em condições é que poderá ser candidato. Enfim, do ponto de vista dos próprios envolvidos, eu percebo, porque obviamente para os próprios e para quem está a procurar ganhar esse espaço e fazer esse caminho, é natural. Eu não critico os potenciais candidatos-

Têm que ir marcando terreno, não é?

Exatamente. Que dão entrevistas, que falem no assunto, acho que isso não é em si criticável. Agora já me parece mais criticável que depois outros atores políticos centrem atenções nesse tema nesta altura em que me parece que é francamente precoce.

Qual é que será o interesse, nomeadamente da direita, em discutir tanto este tema quando, primeiro, como já falámos há pouco, temos eleições europeias para o próximo ano, as presidenciais são só em 2026?

Eu francamente não percebo a urgência da direita em discutir o tema. Parece-me essencialmente um tiro no pé estar, em especial da parte da direita, que é onde esta discussão se tem tido mais, termos líderes partidários, estou a pensar por exemplo em André Ventura, que já veio dizer que se for este vota, se não for aquele lança um candidato próprio, etc. Acho que nesta altura, estar a ter essa discussão parece-me francamente desadequado e não vejo que haja vantagem nem para os potenciais candidatos, nem sequer para os partidos à direita que entrem nessa discussão. Portanto, aqui parece-me de facto que o mais adequado neste momento será não entrar nessa discussão. Obviamente, deixar que os potenciais candidatos vão no espaço público falando sobre as suas possíveis intenções e marcando o seu espaço. Isso, repito, é compreensível e é natural e não acho que devam ser censurados por isso. Mas relativamente a outros atores políticos, nomeadamente à direita, simplesmente dizer que este não é o momento, quando chegar o momento, quando estivermos mais próximos, então teremos uma discussão sobre o tema.

E para o governo isso pode ser vantajoso, porque enquanto estamos aqui a falar de presidenciais daqui a dois anos, não estamos a falar, por exemplo, no problema da habitação, das rendas elevadas, dos salários, das pensões.

Exatamente.

O governo António Costa sai aqui beneficiado com esta discussão?

Acho que sai indiretamente beneficiado. Aliás, uma das razões pelas quais dizia há pouco que me parece ser um tiro no pé da parte da direita estar a entrar nesta discussão, é que precisamente retira o foco de outros temas e dos tais problemas reais e imediatos que o país enfrenta. Obviamente, António Costa não tem culpa se a direita optar por entrar nessa discussão, mas acaba por beneficiar indiretamente, porque precisamente enquanto fala se Santana Lopes será candidato ou não, se André Ventura apoia este ou aquele candidato, quem é que pode ser candidato ou não, não está a atenção focada, nomeadamente por parte de toda a oposição à direita, nos tais problemas reais do país e na crítica ao governo do Partido Socialista. Portanto, parece-me que, de facto, a direita só tem a perder a entrar nesta discussão neste momento e que se alguém sai beneficiado, ainda que indiretamente, será precisamente o PS e António Costa, porque enquanto a discussão estiver neste tema, não estará nos problemas que o país enfrenta.

André Azevedo Alves, para concluirmos, peço-lhe ainda uma antevisão do discurso de Paulo Raimundo na festa do Avante de mais logo. Está marcado para as 18h, por volta das 18h, este discurso. É a estreia de Raimundo no Avante como secretário-geral do PCP. O que é que podemos esperar desta intervenção?

Eu sinceramente não espero nada de especialmente novo. Acho que todos os sinais até agora nesta substituição da liderança do PCP, inclusive vindos do próprio PCP, apontam para uma linha de continuidade. Há uma mudança geracional, mas eu quase diria que essa é a única mudança significativa que existe. E portanto eu espero que os temas tocados sejam os temas de sempre. Há obviamente aqui um tema especialmente incômodo que provavelmente Paulo Raimundo terá também de abordar, que é a questão da Ucrânia, mas também aí não espero nenhuma novidade substancial. Eventualmente, espero algum crescimento da agressividade face ao Partido Socialista e à governação do Partido Socialista, porque o PCP precisa de recuperar espaço à esquerda. Há neste momento uma parte do eleitorado à esquerda insatisfeito com o Partido Socialista. As sondagens que vão saindo apontam que o Bloco de Esquerda estará a conseguir capitalizar mais desse descontentamento à esquerda do que o PCP e, portanto, eventualmente será de esperar algum ênfase maior nas críticas ao Partido Socialista. Mas para além disso, não espero francamente nenhuma novidade, nem nenhuma mudança de rumo ou de temas face àquilo que habitualmente acontece nos discursos dos líderes do PCP e nomeadamente também nos discursos nas festas do Avante.