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Continuamos a analisar os resultados das eleições do Sport Lisboa e Benfica. Miguel Cordeiro, Rui Costa foi reeleito, uma vitória clara. Temos conosco um adepto do Benfica, comentador da Rádio Observador e que ontem também já antecipava estas eleições. João Pinto, muito bom dia, seja muito bem-vindo aqui à Rádio Observador.
Olá, muito bom dia.
João, noite mal dormida para muitos sócios do Benfica para acompanhar estas eleições. Queria perceber, primeiro, se fica surpreendido com o resultado, não com a vitória de Rui Costa, que já vinha sendo um pouco antecipada, mas sim com a dimensão da vitória.
Não, acho que eram números mais ou menos que se esperavam, se somássemos aquilo que eram os votos do Rui Costa na primeira volta, os votos de Noronha na primeira volta e depois aqueles que sobravam das outras candidaturas e a indicação de voto das outras candidaturas. Agora, como houve um aumento do número de votantes, houve aqui um bocado uma incógnita, mas acho que é mais ou menos aquilo que se esperava, um terço para Noronha, dois terços para Rui Costa, qualquer coisa deste gênero. E aquilo que realmente noto é que há aqui esta vitória em todos os órgãos e, portanto, o Rui Costa tem tudo aquilo que precisa para fazer um mandato com a maior estabilidade que qualquer presidente pode pedir.
Era isso que te ia perguntar, porque foi algo que ele disse também quando da tomada de posse: "A partir de agora é tempo de união". Esta votação reforça Rui Costa, mas ao mesmo tempo também pode acalmar um bocadinho o clima de crispação que se vive à volta do Benfica, tendo em conta também o atual momento do clube.
Pode e deve. E eu não acho que haja um momento de crispação porque há eleições, acho que há um momento eleitoral em que sobe o tom e é normal deste tipo de coisas. Agora, em relação à equipe de futebol, em relação às outras equipes todas, é bom saber que tudo continua igual. Até porque este ano no futebol, do ponto de vista da organização, houve muitas entradas, muitas saídas e, por exemplo, o Mário Branco vai continuar e isso seria um problema para o Benfica se de repente entrasse um novo presidente que trouxesse toda uma equipe nova e essa adaptação à mudança levaria algum tempo. Assim sendo, tudo continua. As gavetas continuam cheias, não é preciso esvaziar nada. Os PCs também, portanto, há que continuar a trabalhar e depois o resto, os resultados, são coisas completamente diferentes daquilo que estas eleições deram. Obviamente, para o Rui Costa, eu acho que ele deve tirar todos os esqueletos do armário. E sim, o Rui Costa ganhou hoje toda a legitimidade para pensar que não é um produto do Vieira, nem que tem que ser vassalo deste ou daquele. Não, o Rui Costa, neste momento, é um presidente no seu segundo mandato, ganho com uma maioria que o legitima de todas as maneiras, com recorde de sócios a votar, com essas coisas todas e, portanto, não há que ter medo. O Rui Costa, se é um presidente, se o é de fato, agora também tem que o ser na prática.
Quanto ao João Noronha Lopes, que sai derrotado nesta eleição, mais uma, já tinha perdido para Luís Filipe Vieira, perde agora para Rui Costa, com uma dimensão considerável. Enquanto sócio do Benfica, achas que poderá voltar a candidatar-se? Ficará por aqui? Como é que vês esse cenário do candidato à lista F?
Se fosse eu, não me candidatava mais. Pelo menos quando acordasse hoje de manhã e fosse tomar café, quando olhasse para os resultados, dizia: "Não, epa, já chega disso". Mas percebo que se calhar daqui a uns anos, este instinto que ele teve, este impulso que ele teve já por duas vezes, volta a aparecer. Aliás, eu acho que uma das grandes responsabilidades desta derrota do Noronha Lopes foi, na primeira vez que se candidatou, ter dito: "Se eu perder, nunca mais me candidato" e depois voltar a se candidatar desta vez e não se ter candidatado da última. E portanto, acho que esse início foi logo mau. Se eu fosse João Noronha Lopes, aquilo que faria agora era refletir, era pensar, era ter aqui um momento de introspeção e provavelmente deixar para outros candidatos, que se houve uma coisa que esta eleição teve, foi que nos deixou pelo menos um potencial candidato, que é o João Diogo Mantegas.
E pegando aqui na lista de João Noronha Lopes, Nuno Gomes, candidato a vice-presidente, pode também estar aqui a preparar, quem sabe, daqui a quatro anos, um terreno fértil para se assumir ele como alternativa, neste caso, à não candidatura de João Noronha Lopes, mas ser ele candidato à presidência do clube encarnado? E termos aqui um duelo entre dois antigos jogadores.
Exato. E depois a seguir vem o Tahar. Pronto, não sei até onde é que isto vai parar. Não acho que tenha que ser requisito para ser presidente ter sido jogador por muito amado que o Nuno Gomes tenha sido ou que o Rui Costa tenha sido também. Eu também sou um perdedor hoje, eu votei no Noronha Lopes e portanto faço já aqui a minha declaração de voto. Aquilo que eu acho que o Benfica precisa, primeiro agora é deste presidente, precisa de um Rui Costa muito forte e muito decidido nos próximos quatro anos E depois, um dia que isto volte a acontecer, eu acho que o Benfica precisa de um presidente mais consensual, um Horta Osório, alguém com um estatuto que chegue e vença sem grandes disputas. Acho que o Benfica precisa de um nome desses, de alguém que venha com muita experiência e que tenha capacidade para tomar conta de uma empresa que fatura 200 milhões ao ano e, para mim, esse é o maior requisito para ser presidente do Benfica. O Rui Costa ganhou, espero e desejo-lhe todas as felicidades, as dele são as minhas, mas continuo a achar que o Benfica precisa de um presidente com um estilo diferente.
Mas certamente Rui Costa foi questionado sobre isto, sobre que direção, que rumo vai ter durante os próximos quatro anos, se será diferente, e disse Rui Costa: “Será certamente diferente, todos erram em todos os mandatos e vou tentar corrigir os erros que cometi e melhorar nessa gestão do clube”. Tem sido essa a grande questão desta campanha, os erros de gestão de Rui Costa e alguns falhanços, principalmente na parte desportiva, no que liga ao futebol. O que esperas que Rui Costa possa fazer efetivamente diferente, pelo menos nestes primeiros tempos, do que fez nos quatro anos anteriores?
Primeiro, há aqui alguma injustiça quando se diz que o Rui Costa foi um perdedor e não ganhou nada. Eu acho que o Benfica, no ano passado, competiu até o fim, nesse aspecto concordo com Rui Costa. Depois, isto é desporto, só ganha um, e ganhou o Sporting. Depois, em relação àquilo que ele pode fazer diferente no futebol. Acho que temos que deixar de ser uma academia que depois não alimenta a equipa A. Acho que o Benfica tem que apostar muito nos seus jovens e tem que apostar nos miúdos desde que eles aparecem, não é quando acabam a formação aos 21 ou 22 anos. Se há talento, há que aproveitar e depois tem que se ter a capacidade de ter estabilidade na parte desportiva. O plantel não pode rodar 10 jogadores a cada ano, o jogador mais antigo não pode ter três anos de balneário. Este é o paradigma que eu gostava que mudasse, que o Benfica fosse um clube mais estável, com uma equipa mais estável, com plantel melhor, mas que se aproveitasse muito do talento que vai saindo e que depois, assim que sai, começa a dar mostras noutros lados. Acho que não é preciso contratar laterais por não sei quantos milhões, se temos os laterais lá. Não é preciso contratar médios centro, se temos os médios centro lá. Uma coisa é a exceção. A exceção deve ser: "Bem, temos ali um grande ponta de lança, esse sim vai custar muito dinheiro, vamos contratá-lo". Tudo o resto, a primeira opção e a prioridade deve ser ir buscar ao Seixal.
E antes de qualquer formulação, falou-se na altura, e é um projeto, o Benfica District. É preciso arrumar realmente a casa e a chave está na formação do Benfica e apostar nesse talento antes de equacionar qualquer projeto que vise tornar o Benfica maior, é preciso realmente essa aposta nos mais jovens.
Isso do Benfica District, sempre que é em estrangeiro, eu acho que me estão a ir ao bolso. É como a steakhouse, prefiro comer um bitoque. Pronto, em relação ao arrumar da casa, eu acho-
Preferias o distrito do Benfica, não é?
Exato, eu preferia, acho que ficava logo mais barato. Sim, mas acho que o Benfica vai ter que arrumar a casa. Os estádios geralmente de 20 em 20 anos precisam de remodelações, o do Benfica teve uma há muito pouco tempo. Acho que o exterior do estádio do Benfica não é bonito, podia ser mais bonito. Depois tudo o que é betão e coisas à volta. Acho que sim, acho que há coisas que se podem melhorar, acessos que se podem melhorar, infraestruturas, mas que não devem ser o foco, não devem ser o core business do Benfica. O core business do Benfica deve ser, e tem que ser, agarrar no dinheiro que o Benfica faz, nos tais 200 milhões que fatura, e direcionar ao futebol. Diz-se muitas vezes do Benfica que o Benfica gasta muito dinheiro. O Benfica tem o dinheiro, a premissa de ganhar dinheiro é para depois poder gastá-lo. E o Benfica faz muito bem o gastar em função do seu negócio principal, que é o futebol profissional. Agora tem que gastar bem gasto e tem que direcionar bem direcionado.
Logo à tarde há jogo, ao início da noite, 20h30, Benfica casa Pia, no Estádio da Luz. Rui Costa convidou todos os candidatos a estarem com ele. Pergunto-te se achas que isso vai mesmo acontecer, se os restantes candidatos vão estar na tribuna e também que ambiente é que esperas para esse encontro. Também vais lá estar para esse relato do Benfica casa Pia como comentador aqui na Rádio Observador. O que esperas a nível de ambiente?
Primeiro, o jogo é domingo às 20h30, o que já não ajuda muito no ambiente que possa ser muito mais do que a malta de Lisboa a ir à bola. Depois, espero o ambiente de sempre, o público focado na equipa. É capaz de haver um floreado ou outro à volta do Rui Costa, mas se houve uma coisa que estas eleições tiveram é que nunca entraram no estádio. Nunca vimos um reflexo eleitoral ou claques a puxarem por candidatos. Portanto, duvido que haja qualquer tipo de apoio consensual. Acho que ficava bem ao Rui Costa ir ao relvado agradecer, bater palmas e as pessoas retribuírem com esse sinal, mas mais do que isso acho que é excessivo. Acho que o Benfica, quem joga é a equipa, são os miúdos que nós temos que apoiar e temos que apoiar muito, porque não está fácil chegar mais alto na classificação.