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Vamos agora ouvir a opinião da Helena Matos. Bom dia, Helena. Este bom dia. Estas manifestações e esta operação que acabou por acontecer esta manhã vai, de certa forma também condicionar aquilo que será o discurso político nos próximos dias relativamente a este tema da habitação?

Eu dissociaria bastante a questão do tema da habitação destas manifestações. Não me parece que porque algum grupo de duas, três ou quatro pessoas, que tendo apostado em ações muito diminutas, valha a verdade, consiga estabelecer agora ou condicionar opções políticas. Nós não estamos a falar de manifestações no verdadeiro sentido do termo. Ou com um caderno reivindicativo legitimado na sua própria prática, experiência, estou a referir-me para as manifestações provenientes, que tivemos muitas e muito significativas, do mundo do trabalho no passado. E infelizmente hoje temos poucas. Portanto, aquilo que me parece é que nós estamos perante atuações, e têm toda a legitimidade para ser assim, que exploram muito bem a sociedade muito midiática em que vivemos e em que são criados momentos com grande visibilidade, mas daí até considerar que estas pessoas, de alguma forma, representam, são a voz de um mal-estar na sociedade, vai um passo que eu literalmente me recuso a dar. Depois, quer dizer, quanto mais não fosse, não representam, representam-se a si mesmos e cada um de nós tem o direito de se representar a si mesmo nas democracias. E isso é muito importante, que estas pessoas procuram ter um discurso de quem vive numa ditadura. Toda aquela linguagem é como se estivessem numa ditadura, quer dizer, vamos por partes. Depois, há aqui uma outra questão. Há uma desmesura absoluta e uma desmesura que toca o ridículo. Eu recordo aqueles manifestantes do Porto que algures no fim de semana passado, consideravam que eles não iam à câmara encontrar-se com Pedro Duarte. Que Pedro Duarte é que havia de vir ao acampamento. Pedro Duarte, recordo, é o presidente da Câmara Municipal do Porto, eleito democraticamente. Havia, quando se tentava perceber, de facto, qual é que era o caderno de propostas destas pessoas para a habitação, pois que é a causa que eles identificam como estando a defender. A verdade é que eles não apresentavam nada a não ser a demissão de Pedro Duarte, isto no caso do Porto, a demissão do próprio governo, e depois a partir dali para a frente desatavam num discurso contra o capitalismo, mas não apresentando nada de propostas, de alternativas e vagamente às vezes falando de expropriações dos fundos imobiliários, o que em Portugal não traria muito mais casas para o mercado, porque estamos a falar de um mercado de pequenos proprietários, o caso português, dos senhorios. Portanto, nada. E depois queria ainda dizer uma outra coisa em relação ao direito de manifestação. Sim, mas nós não estamos aqui a falar de uma manifestação. Um acampamento não é uma manifestação. As manifestações decorrem de um determinado período, por um determinado percurso ou num determinado espaço. Também temos as vigílias e tudo isso, mas tudo tem um princípio, um meio e um fim e o propósito desses movimentos é dar conta das intenções das pessoas e depois cada um vai para o seu espaço. Aqui é o próprio ato de permanência, sem sequer um prazo, que se transforma no protesto em si mesmo. Mas recordo que em Portugal se proíbem manifestações. Quando a PSP, por proposta da PSP, quando a PSP considera que não existem condições de segurança, é que nem sequer podem acontecer. Exatamente porque se procura criar eventos confrontacionais. Todos nós recordaremos que a 25 de abril de 2025, ainda por cima uma data na qual nos deviam ter poupado a isto, o partido ERCT e o movimento Habeas Corpus, com o apoio do grupo 1143, quiseram, além de fazer uma manifestação, um percurso, assar um porco no espeto no Martim Moniz. E às pessoas de bom senso pareceu que não era certamente o sítio indicado para se fazer um porco no espeto, nem a data. E a verdade é que a PSP acabou por dar uma indicação contrária a esse acontecimento. Portanto, é claro que ouvimos depois estes movimentos a vir falar da sua liberdade, ou falta dela, da sua impossibilidade de se manifestar e dar conta das suas intenções e propósitos. E na altura, penso eu, que a maior parte das pessoas, nomeadamente alguns que agora consideram que estes manifestantes destas acampadas certamente estão ali com uma causa que legitima tudo isto, nós temos de perceber que se vamos passar a justificar a infração à lei a propósito da nossa simpatia pelas causas, acabamos metidos numa verdadeira camisa de onze varas. Portanto, eu creio que aquilo que vimos esta noite, e nós ainda vimos pouco, sabemos pouco, mas parece que aquilo que aconteceu é que as praças voltaram a ser literalmente do povo, no verdadeiro sentido da palavra, de podermos circular nelas e estes jovens ou não jovens manifestarão de forma apropriada as suas intenções, os seus propósitos, o seu mal-estar, como fazem os demais cidadãos, porque de facto há aqui um princípio de proporcionalidade e de legitimidade. As ruas são literalmente do povo e não dos grupos mais ruidosos que conseguem estabelecer a sua lei.