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"Quente e Frio", sempre na Rádio Observador com a Filomena Martins. É com ela que olhamos para o estado do tempo, que até tem estado agradável durante o dia de hoje. Parece que a chuva, Filomena, foi embora de vez, pelo menos por agora, e estamos em pleno outono. Ou ainda não?
Ainda não.
Mais ou menos, não é?
Acho que vais deixar o casaquinho em casa, Nelson, mais uns dias.
Também me parece.
Porque a chuva ainda vai chuviscar hoje, talvez, mas o outono só fica até o fim desta semana, porque uma massa de ar polar está a descer do norte da Europa, só que quase não nos vai atingir. Vai passar de raspão, podemos dizer. O frio vai atingir com muita força França e parte de Espanha. Por cá, a mudança vai sentir-se, sobretudo, no vento e nas noites e madrugadas que vão ficar mais frias. Tínhamos falado disso ontem. Mas a chuva está finalmente partida. Podem cair alguns aguaceiros até meia tarde desta quarta-feira, mas a partir de quinta, o céu vai começar a abrir e ficar completamente limpo. O vento vai intensificar-se um pouco, vai chegar aos 40 km/h no litoral a norte do Cabo da Roca e nas terras altas norte e centro.
E depois de quinta?
Aí é que entra em ação o nosso querido, pelo menos pra mim, anticiclone dos Açores.
Nosso amigo, claro.
E começa uma sequência de vários dias praticamente sem chuva, que eu, neste momento, olhando pros modelos que estão por aqui, diria que se vão estender praticamente até o final da semana que vem. Ou seja, as manhãs podem começar com neblina ou nevoeiro, sobretudo a norte e centro, mas depois vai aparecer o sol. E é aqui que surge o tal grande contraste, noites frias e tardes cada vez mais quentes.
A tal amplitude térmica que já falaste ontem também.
Esta sexta-feira, o IPMA prevê, por exemplo, apenas 6 °C em Bragança e na Guarda, de mínima, e 9 °C em Vila Real e 10 °C em Viseu, mas durante o dia acontece o contrário. Por exemplo, na quinta-feira podemos ter 29 °C em Santarém, 28 °C em Lisboa, Évora e Beja, e o calor não vai ficar por aqui, porque no início da próxima semana o IPMA coloca várias cidades novamente nos 30 °C e mais, porque os modelos a médio prazo estão a reforçar a possibilidade das temperaturas subirem provavelmente até aos 35 °C na próxima semana. Há cenários que apontam para até um pouquinho maior. Portanto, a história é curiosa, o ar polar vai nos passar de raspão e poucos dias depois podemos voltar a ter temperaturas quase de verão ou mesmo de verão. E quem recebe a massa polar, esta descida de ar frio, é o resto da Europa Ocidental, com Espanha, que continua ainda sob trovoadas muito fortes, e França, que podem cair entre 5 °C a 10 °C localmente, e que vão ter, quer Espanha, quer França, as primeiras neves deste ano, que vão descer nos Alpes Franceses e nos Pirenéus.
Nos Pirenéus. Vamos ao fenômeno de hoje. Esta descida polar dá-nos precisamente o fenômeno de hoje. O que acontece quando uma massa de ar frio encontra outra muito mais quente e úmida? Há aqui um choque.
Não há. Isso é uma primeira coisa que é preciso saber. Nunca há choque de massas de ar. O que há são confrontos que criam instabilidade, por exemplo, como estas trovoadas que tivemos nos últimos dias. Uma massa de ar é simplesmente uma enorme quantidade de ar, muito grande, que adquire determinadas características de temperatura e de umidade conforme a região onde se forma. Quando duas massas de ar muito diferentes se encontram, elas nunca chocam como duas paredes. Não há esse choque de massas. O ar frio é muito denso e tende sempre a ficar por baixo. O ar quente, que já sabemos, é mais leve, é forçado a subir, portanto, fica por cima.
As temperaturas são mais baixas ou mais altas, ou não?
Não, quando o ar frio sobe, o normal é aquecer.
Ok.
E esse vapor de água vai se condensar. E ao condensar se vão se formar nuvens. E se houver umidade e instabilidade suficientes, vai haver chuva, raios ou trovoadas. Normalmente, quando há duas massas em confronto, como foram as que aconteceram agora, foi uma massa de ar mais quente e úmida com uma massa de ar frio em altitude, aconteceram estas trovoadas e até o granizo. Nestas zonas de expressão entre massas de ar diferentes, também se formam as tais frentes meteorológicas que vemos nos mapas do tempo. É ali naquelas fissuras que aparecem as frentes.
E há várias massas de ar. Já ouvimos falar, pelo menos, vários nomes.
Sim, muito simplesmente. A ártica, que é muito fria, vem das regiões polares. A polar, que vem fria e que é formada em latitudes muito altas lá pra cima, nas Noruegas desta vida e nas Finlândias. A tropical, é fácil, é quente, vem daquelas latitudes subtropicais. E a equatorial é a mais quente e a mais úmida de todas. E depois estas massas podem ser marítimas, se atravessarem o oceano e ganham umidade, ou podem ser continentais, que geralmente são aquelas mais secas, que é quando vem o calor, por exemplo, do norte da África, que é muito seco, ou vem o frio continental, que é aquele que, por exemplo, vem dos Urais e que também é muito seco e às vezes até parece que entra pelo corpo.
Pelos ossos.
É isso mesmo. Uma coisa importante: uma massa de ar polar pode chegar à Europa sem Portugal ter uma verdadeira vaga de frio, tudo depende da trajetória que toma e é o que está a acontecer agora. O ar polar desce sobre a Europa Ocidental, mas Portugal fica ali na periferia, passa de raspão.
Vai passar de raspão por Portugal esta massa de ar polar. Terminamos no Pacífico com o Nolo, um ciclone que parece ter tido várias vidas. Já falamos dele aqui algumas vezes.
E não para, porque o Nolo passou semanas ali sobre o Pacífico, enfraqueceu, voltou a ganhar força, passou pela região do Havaí e agora voltou a intensificar-se sobre o oceano. No último fim de semana, já era outra vez um grande furacão. Mas no domingo aconteceu uma coisa que eu acho extraordinária sempre, que é atravessou a linha internacional de data e deixou de ser chamado de furacão para ser chamado de tufão. Não é outra tempestade, é a mesma tempestade.
É o mesmo Nolo.
Sim, só passou ali uma linha, que é uma linha internacional de data, uma linha imaginária que atravessa sobretudo o Pacífico, aproximadamente junto do meridiano de 180 graus, que é o lado oposto de Greenwich. E é ali que muda a data. Pronto, atravessando-se num sentido, avançamos um dia no calendário, no outro recuamos um dia.
Por isso, Dia Internacional de Data.
É. E esta linha separa também duas regiões de acompanhamento dos ciclones tropicais. De um lado, estes ciclones intensos são furacões, no Pacífico noroeste já são tufões. O resto, o fenômeno é exatamente o mesmo. O Nolo atravessou a linha com ventos sustentados de 185 km/h, continuava a ser exatamente o mesmo ciclone, só que mudou do outro lado do planeta e mudou de nome. No outro lado, de cá, já tinha batido vários recordes, gastaram 24 horas pra passar de tempestade a furacão de categoria cinco, teve ventos de 300 km/h, entrou em terra de forma devastadora ali entre o México e os Estados Unidos, saiu e agora está a fazer este percurso.
Mas está muito viajado este nosso Nolo.
Está muito viajado.
Olha, no Atlântico é que a temporada continua sem um único furacão.
Não sei se podemos dizer isso, porque neste momento isto pode estar a mudar. Já se formou a tempestade tropical Isaías e pode mesmo estar a tornar-se neste momento ou nos próximos dias, o primeiro furacão da época. Ela formou-se no Golfo do México. Não sei se ainda se chama Golfo do México. É Golfo do México ou Golfo da América?
Depende de onde vês. O Google acho que já mudou. Tem os dois nomes.
No entanto, se chegar a ser furacão, nunca houve um furacão tão tarde num ano no Atlântico. Nunca. É preciso recuar 121 anos, até 1905, pra encontrar um primeiro furacão tão tardio. E é de 8 de outubro, portanto, pode bater o recorde outra vez. Se Isaías atingir força de furacão nos próximos dias, 2026 vai ficar com o novo recorde histórico pro primeiro furacão mais tardio de uma temporada no Atlântico.
O que eu não sei se é uma boa ou má notícia, estão atrasados os furacões na sua temporada no Atlântico.
Que acaba já dia 1 de novembro.
É? Então a ver vamos se este se vai formar ou não, e se temos então mais tardio que nunca o aparecimento deste fenômeno meteorológico. Filomena Martins, de novo amanhã aqui na Rádio Observador, com nova edição do Quente e Frio. Até amanhã.
Até amanhã.