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Está no ar o Quente e Frio na Rádio Observador, todas as semanas com a Filomena Martins, de segunda a sexta. Olá, Filomena. Bem-vinda. Vamos falar do tempo para esta semana, com certeza. Até porque nós queremos saber quando é que vai acabar o verão. Isto parece que nunca mais acaba. Eu estou bem com isso. Por acaso lido muito bem com o calor.

Eu também, estou no teu time.

Boa, ainda bem. Mas o calor chegou ao litoral e ao norte, é isso?

É, mais até do que ao sul, para esta segunda-feira e para terça. Os avisos amarelos de calor persistente lançados pelo IPMA, se reparares bem e entrares no site, vais ver que estão no litoral todo e depois desta terça estão também no norte do país.

Estou a confirmar.

Então confirma, porque se vai ver, vai. O que escapa, curiosamente, aos alertas é o Alentejo e o Algarve. Não quer dizer que não vai estar muito calor, quer no Alentejo, quer no Algarve, quer dizer que é a chave para lançar os alertas e para perceber que estamos em onda de calor e muito acima das temperaturas médias nessas regiões. A subida da temperatura é tão alta que está muito acima da média para esta altura do ano, está mais alta no norte e no litoral do que está no Algarve e no Alentejo. Portanto, ali pode estar uma temperatura de 38 °C e não ser assim tão elevada para setembro, enquanto os 35 ou 34 °C que estejam, por exemplo, em Viana do Castelo, são muito altos para esta altura do ano. E o calor chegou, de alguma forma, às regiões onde a proximidade do Atlântico costuma travar estas máximas assim. Aliás, é fácil, a anomalia de calor esta semana deverá ficar entre 1,5 e 7 °C acima do normal em todo o continente, mas as diferenças são de 5 a 7 °C no interior norte e centro e são de 3 a 5 °C no litoral norte e centro e no sul. Portanto, muito mais lá em cima do que cá no sul. E é também por isso que os avisos de calor chegaram a estas zonas. O que está em causa não é apenas qual será a cidade mais quente, mas é a persistência das temperaturas elevadas para cada região, para esta altura do ano. É isso que define uma onda de calor e que deverá sim terminar na quinta-feira, por aí.

E vamos à pergunta do milhão de euros: quando é que acaba, afinal, o verão?

Vou pegar outra vez na quinta-feira.

No papel, é já esta quarta, não é? Com a chegada do outono.

É quando passarem cinco minutos da 1:00 A.M. de terça para quarta-feira, ou seja, já na madrugada de quarta. A resposta quanto à tua pergunta do milhão, quando é que acaba, afinal, o verão de calor, em termos de tempo, a resposta também poderia ser: "Lá pra quinta-feira veremos". Mas é um pouquinho mais complexo que isso, porque a partir da segunda metade da semana, quinta, sexta, começará a aparecer uma descida das temperaturas. Será mais evidente também lá em cima, no litoral e no norte, e depois vai estender-se a outras regiões. Quinta, nalguns locais, sobretudo sexta, serão os dias a acompanhar. A diferença relativamente ao pico de calor já pode ser de vários graus nessa altura, mas não significa necessariamente que o verão de calor acabe de um dia para o outro. Há três momentos que podemos dizer diferentes nesta semana. O fim dos dias mais quentes, que será à quinta, sexta; o fim de uma eventual onda de calor, que também será na quinta, na sexta; e o regresso das primeiras perturbações atlânticas, digamos assim, o regresso dos primeiros dias mais frescos e com alguma chuvita. Mas esses três momentos não vão coincidir de todo. O próprio IPMA mantém temperaturas acima do normal, não apenas esta semana, mas também nas duas seguintes. Entre 28 e 4 de outubro, a anomalia prevista de calor está ainda a 0,5 a 3 °C acima da média e com precipitação abaixo do normal em todo o país. E, portanto, nós vamos perder vários graus até o final da semana, mas ainda não o tempo de outono, e os modelos só começam a mostrar umas alteraçõezinhas muito pequeninas no final da semana e durante o fim de semana. Mas isso não significa que venha aí já uma frente ou uma depressão. É só uma descidazinha de temperatura, um ar marítimo mais fresco e pronto. Além disso, cuidado com o período de incêndio, que está muito alto. E o final desta semana só vai responder a duas perguntas: quantos graus vão baixar e se a descida é apenas uma pausa ou se é, de facto, o sinal de que o verão está a acabar.

E a ouvir também aqui o Quente e Frio, porque também trazes sempre essas atualizações. Vamos falar aqui agora de um fenômeno, até porque estivemos quase a ter o primeiro furacão do Atlântico aqui ao pé dos Açores, não foi?

Sim, e isso é muito raro. Nós estivemos a 9 km/h de ventos de ter o primeiro furacão da época no Atlântico. Já se bateu um recorde, ainda não houve nenhum este ano. A última data em que tinha aparecido um tão tarde era 11 de setembro, portanto, já vamos aqui muito para além disso. Esteve um ciclone tropical e um ciclone tropical passa à categoria de furacão aos 119 km/h. O Fay chegou aos 110 km/h. E a grande questão, mais do que não passar de tempestade tropical a furacão, é como é que se conseguiu formar e crescer tão perto dos Açores, quando a zona, o corredor dos furacões, vai do Senegal e de Cabo Verde às Caraíbas. A maioria dos ciclones tropicais do Atlântico fica ali naquelas águas tropicais quentes, mas o Fay veio a organizar-se numa região do Atlântico a sueste dos Açores, onde é muito raro isto acontecer, e depois tornou-se a tempestade mais intensa desta temporada, nesta tal época recorde, o único furacão até agora. E para conseguir fazê-lo, o Fay precisou de encontrar algumas horas daquilo a que podemos chamar uma pequena janela na atmosfera, porque um dos grandes inimigos dos Furacões, dos ciclones tropicais, chama-se wind shear, é um cisalhamento vertical do vento, significa que o vento muda de velocidade e de direção à medida que vamos subindo na atmosfera. E quando essa diferença é muito grande, o ciclone começa a inclinar-se, o centro da circulação junto à superfície deixa de ficar alinhado com as grandes nuvens de tempestade, que alimentam o sistema, porque na prática estamos a falar de muitas nuvens à volta do centro. A Fay atravessou temporariamente uma zona onde esse obstáculo foi suficientemente reduzido pra conseguir organizar-se. E a combinação entre uma pequena oportunidade, a Fay aproveitou e em cerca de 18 horas, os ventos sustentados passaram de aproximadamente 75 km/h para 110 km/h.

É caso para perguntar, a janela fechou-se?

É isso mesmo. A Fay agora já foi atingida por esse cisalhamento vertical do vento, a circulação desorganizou-se, ficou inclinada. Junto à superfície estava tudo deslocado e vai provavelmente desfazer-se até amanhã. Já está a entrar ar mais seco, e ela vai ser destruída progressivamente. Mas isto foi um processo que eu acompanhei quase em tempo real. numa região pouco habitual, nasceu um ciclone tropical, com uma pequena janela de condições favoráveis, e as condições desfavoráveis que estão a acontecer devem-se ao El Niño.

Falas aqui muitas vezes do El Niño.

Falo, porque ele, do outro lado, permite os furacões, mas lança ventos pra este lado que os muda todos, está sempre a mudá-los, e isso impede que se formem os furacões. Ainda vai haver algum vento, alguma chuva, algumas ondas altas nas Flores e no Corvo, mas são passageiros e na prática ficamos a 9 km/h de fazer história com o primeiro furacão da temporada 2026, mesmo ali ao largo dos Açores.

Muito bem, 9 km. Vamos ainda a uma curiosidade, não temos muito tempo, mas quando começar a madrugada da próxima quarta-feira, passando cinco minutos de uma da manhã, já fizeste questão de dizer isso ainda há bocadinho, entramos no equinócio do outono. É suposto o dia ter exatamente o mesmo número de horas da noite, Filomena?

Era suposto, mas não é verdade. Era uma velha questão que se dizia, quer no equinócio da primavera, quer no do outono. Haveria tanto tempo de luz como de escuridão. O próprio nome equinócio vem das palavras latinas "aequus" e "nox", noite igual, mas "fact check", isso é falso. No dia do equinócio, não temos exatamente 12 horas de luz e 12 horas de escuridão. Uma das razões está na própria atmosfera, a luz do sol é refratada, ou seja, ligeiramente desviada, quando atravessa a atmosfera terrestre, por isso conseguimos ver o sol durante alguns minutos. Quando ele já está geometricamente abaixo do horizonte, ainda vemos uma luzinha, ainda há luz, e há outro pormenor, o nascer do sol começa a ser contato quando vemos aparecer a sua extremidade e o pôr do sol só termina quando desaparece a última extremidade. E esses efeitos dão-nos alguns minutos adicionais de luz, ou seja, está mais luz que escuridão. Existe, no entanto, um nome para o dia em que a duração do dia e da noite é exatamente igual, que se chama equilux, não coincidente com o equinócio. No hemisfério norte, acontece alguns dias depois do equinócio, de outono, e a data exata depende sempre da latitude onde estamos. Mas o equinócio tem outra particularidade, é muito mais fácil de observar. Nesta altura, o sol nasce praticamente a leste e põe-se também quase a oeste, que está a cruzar o Equador celeste. Há, portanto, uma pequena ironia astronômica. O equinócio significa noite igual, mas o dia e noite não são iguais. Em compensação, pra quem quer descobrir onde fica mesmo o leste e o oeste, é só olhar pra onde é que o sol nasce e pra onde é que se põe.

E ficamos com esta curiosidade, equilux, nunca mais me vou esquecer. Filomena Martins, estás de regresso amanhã pra uma nova edição, depois do jornal das 16:00. Até lá.

Ok, e ainda com farol.