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Neste momento estou a fazer uma entradazinha, que é carapau. Vai passar por farinha e vai para a fritadeira. Uma entradazinha. Depois, há de pedir mais qualquer coisa. Vamos esperar.

O prato de entrada do Mundial de Futebol só agora foi servido, mas na competição das tascas já há um surpreendente vencedor. Escondido a poucos quilómetros do centro de Aveiro, está o campeão do concurso Tascando. Prova que Rafael Almeida, dono do restaurante Marinhas, desconhecia até há bem pouco.

Foi um dia até engraçado, porque eu estava bastante apressado. Fui à praça, fui à Rafanha buscar uns congelados, parei aqui e o senhor tinha estado a falar com a minha mulher. Eu estou superatrasado e falámos ali mesmo na porta do carro e ele anunciou mais ou menos por alto o que era. Depois, passado dois meses, voltou-me a contactar e então veio, já com o mapa de como é que se ia passar tudo, quando é que eles iam fazer as fotos iniciais. A programação toda de quem ia competir, visto que a gente tinha aceitado.

A ligação de Rafael e Fátima ao restaurante ainda é recente. O casal viveu na Suíça durante muito tempo, mas viu uma oportunidade no horizonte e decidiu lançar-se ao mar.

Estivemos lá 15 anos e viemos em 2023. Entretanto, vimos o anúncio de espaço do restaurante Marinhas e foi assim que fechámos negócio.

Na bagagem, Rafael trazia do estrangeiro experiência que lhe seria útil nas águas agrestes do mundo da restauração em Portugal. Assim que atracou no Marinhas, começou a deixar marca.

Apresentámos alguns pratos, um deles curiosamente foi o arroz de polvo. Trabalhando peixe congelado, era uma das coisas que eu mais gostava de vender e gostava de mexer era o polvo.

As experiências foram evoluindo e o arroz de polvo assumiu lugar de destaque ao ser o prato escolhido para representar a tasca no concurso. Mas o ex-libris do restaurante vencedor nem era a primeira opção de Rafael.

Inicialmente, queria arrancar com a caldeirada de enguias, visto que é um prato da casa e de Aveiro. E ele disse: "Curiosamente, a caldeirada de enguias já temos alguém que escolheu". E eu então, de repente, lembrei-me do arroz de polvo, porque sabia que estava a ter algum sucesso.

A decisão certeira teve reflexos, mas Rafael distribui os louros de um sucesso alimentado por todos. É que ao contrário do que acontece em outras equipas, esta seleção vencedora ainda depende dos veteranos.

Isso foi uma das bases essenciais, comprar o restaurante, mas manter a equipa, porque todos são precisos. Era uma equipa que já estava aqui há alguns anos e continua. É pena que está a chegar ao fim, porque para muitos deles a reforma já vai começar alguns neste ano, depois outros para o próximo, portanto começa-se a renovar. Neste momento já temos também contratações de mais jovens feitas, que estão já com contrato assinado, começam em agosto.

Entre a dança dos tachos e o carisma com os clientes, o restaurante funciona como um polvo, mas com apenas seis tentáculos. Rafael e Fátima fazem um pouco de tudo, mas há quem viva melhor entre o lume do fogão, como é o caso de Arménio, o autoridade.

Vim da aldeia muito novo, vim para aqui, comecei a aprender o básico, coisas ligeiras, pratos ligeiros, prato do dia, aqueles pratos de feijoada. Não havia carro, não havia nada. Eram aquelas coisas simples. Depois comecei com os anos, comecei a aprender a fazer outros pratos. E depois vim para esta casa, ainda mais difícil foi, mais complicado foi para mim, mas nada que não se pudesse ultrapassar.

Se o menu conta com polvo, tamboril, enguias ou bacalhau, o restaurante conta com todos para ser uma verdadeira cozinha tradicional. Entre a pressa de ir deitar os filhos e a gestão de uma casa quase cheia, Fátima dá a receita para o sucesso.

É uma pessoa ir almoçar ou jantar e sentir-se bem, sentir-se em casa. Tal onde a gente entra, onde dá vontade de voltar, não só pela comida, mas pelo local, pelo acolhimento, por um bocadinho de tudo o que possamos ser. Sentir-se em casa.

Mas para erguer esta casa e fazê-la triunfar, nem tudo é um mar de rosas. Apesar de ser uma cidade em crescimento, Aveiro parte atrás na corrida.

É claro que eu tinha sempre algum receio, algumas incógnitas na minha cabeça que seria Porto e Lisboa. Não quero rebaixar Aveiro, são cidades com muito mais habitantes, muito mais culturas, muito mais estatutos, muito mais tudo. Têm sempre muito mais variedade e até acredito que há algumas qualidades, por exemplo, de produtos, que para restauradores em Lisboa ou no Porto, seja muito mais fácil adquirir. Porque repare, isto é um ramo, por exemplo, peixe bom. Os melhores robalos hoje que param aqui na lota de Aveiro, estão quase todos vendidos para o estrangeiro. Aquilo já vai para mercados de Madrid e depois Lisboa, Porto. Mas Lisboa, Porto há muita gente.

Desta vez foi diferente e o resultado sorriu mesmo a Aveiro e sorriu ao restaurante Marinhas, que chegou a bom porto e venceu o concurso Tascando, que destaca a melhor cozinha tradicional portuguesa.