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Começava por lhe perguntar, porque a atualidade assim o impõe, como é que tem sido preparar uma prova como a Ocean Race com estas restrições impostas e com as dificuldades que daí resultam. O que é que isso tem afetado essa preparação?

Claro que para toda a gente isto são tempos difíceis e de adaptação. No fundo, nós estamos a fazer o mesmo. Era suposto estarmos agora no mar a treinar, mas não é possível. Portanto, temos treinado em casa, temos que nos adaptar e com esforço tudo se consegue ir adaptando.

E que tipo de treino é que pode ser feito em casa para tentar compensar esse afastamento do mar?

Treino físico. Temos um preparador físico que acompanha toda a equipa, todos os velejadores, e que nos vai mandando fazer planeamentos de quatro em quatro semanas. É todo um treino físico a tentar simular o que seria o carregar velas no barco, trocar velas, puxar cabos. Um pouco de simulação, claro que não vamos conseguir chegar a ser exatamente um treino igual, mas essa parte também de preparação física sempre foi importante e agora está a ser mais reforçada.

Ainda assim, há a possibilidade de a prova ter que ser adiada, alguma informação nesse sentido, ou será possível fazê-lo? Isto porque, duzo eu, não podendo treinar no habitat natural, será difícil depois fazer a prova.

Isto no fundo acaba por ser igual para todos. Outras equipas também estavam a treinar e não podem, portanto vai ser um pouco igual para todos a nível de preparação. Não é o ideal. Vencionamos sempre poder estar mais tempo no mar e a fazer o treino de mar, mas acho que a prova em si não deverá ser adiada, porque estamos no mar, não estamos em agrupamentos em terra. Portanto, penso que não será adiada. Claro que vai ser uma prova com menos público, obviamente, e não vai ter essa interação, que é sempre interessante, mas vai ser renhida na mesma e acho que é assim, vai ser diferente.

O essencial da competição vai manter-se, que é o mais importante.

Penso que sim.

Diga-me uma coisa, já participou nos Jogos Olímpicos, também já conquistou um título mundial. Quais são as principais diferenças dessas competições para esta Ocean Race?

No fundo, são dois tipos de vela um bocadinho diferentes. Numa campanha olímpica, uma pessoa acorda de manhã em casa, no seu conforto, toma o pequeno-almoço, faz a rotina do dia, vai para o clube montar o barco, vamos para a água fazer regatas, umas três, quatro horas no mar, depois voltamos para terra e dormimos em casa. Na nossa cama, tomamos um duche quente. Este tipo de vela offshore não acontece nada disso. Vamos para o mar, vamos ter legs, se calhar não quero dizer etapas, de quatro, cinco dias em que não tomamos banho, não nos deitamos na nossa cama. Temos uma espécie de camas, mas que são tipo umas redes para descansar algumas horas, quando conseguimos. Vamos fazendo turnos. Portanto, é essencialmente isso. A pessoa está ali sempre a dar o litro e acaba por não ter esse conforto de casa e não poder descansar nas condições normais.

Ou seja, é necessário também uma disponibilidade mental diferente para enfrentar esta prova.

Completamente. Eu diria que esta prova é física, claro, mas tem muito de psicológico. É preciso uma pessoa mudar um bocadinho o chip, e às vezes está muito cansada e não consegue descansar bem. Temos que nos aguentar e essa parte mental é superimportante.

Eu pegava nisso para lhe perguntar como é que é a relação com a restante equipa, com o Bernardo Freitas e com o Frederico Melo, e que expectativas é que guardam para a Ocean Race.

Com o Frederico e o Bernardo já os conheço há algum tempo. Somos mais ou menos da mesma idade, portanto fizemos a parte de competição juntos, ou seja, o percurso desde pequeninos até agora. Claro que fomos variando algumas classes e tendo experiências diferentes, mas são dois velejadores de topo em Portugal e é sempre bom navegar com eles. E uma das coisas que eu mais gosto é de trabalhar em equipa, porque tenho sempre a aprender muito com todos os velejadores e experiências diferentes dão-nos inputs diferentes e eu acho que isso é sempre uma mais-valia.

Deixe-me entrar outra vez um pouco no capítulo pessoal, que exigência esta prova tem também nesse nível, na relação familiar? A Mariana é também mãe. É preciso também preparar a família para esses dias em que vai estar afastada e para o tempo que está a dedicar também à preparação?

Sim, é verdade. Claro que nós vamos para o mar e corremos sempre riscos, obviamente, mas deixamos um bocado de nós em terra. Neste caso, eu tenho dois filhos pequeninos, um de cinco anos e uma de um ano, é preciso uma preparação e uma logística antes de ir. E tenho imenso apoio da família, sem esse apoio era difícil.

Deixe-me, para concluir, só perguntar-lhe, porque eu estava aqui também na pesquisa enquanto preparava esta conversa. Nesta fase da pandemia, dedicou-se também a fazer máscaras e cógulas para ceder ao Hospital de Santa Maria. O que a motivou também a juntar-se a este esforço coletivo que foi feito?

Exato. No início do ano passado, em março, quando começou o primeiro confinamento, senti que, pronto, encontrámo-nos todos em casa e ouvi um apelo dos médicos que precisavam de cógulas e de máscaras e que realmente estava difícil de encontrar. Eu aprendi a costurar com a minha avó quando tinha oito anos e achei: "Porque não ajudar?". Se estou aqui e posso tentar fazer algo, todos continuamos à obra e com a ajuda de outras costureiras também, formámos um grupo gigante de costureiras. Fomos ver a união das pessoas para nos juntarmos todos para um bem maior.