Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Pela primeira vez, o nome não foi aprovado na primeira volta destas votações no Parlamento alemão. O que isto pode representar para o futuro da democracia alemã e não só para um possível cenário de governação?
Há aqui três coisas que se podem, para já, ler nesta votação inédita no Bundestag. A primeira é que é cada vez mais difícil na Alemanha ter um cenário de governabilidade, ao contrário da estabilidade que a Alemanha nos habituou desde 1949, quando tiveram lugar as primeiras eleições. Há uma balcanização do Parlamento, há mais partidos, há um clima político cada vez mais polarizado, mais agressivo, e havia, de alguma forma, já uma espécie de pré-aviso que isto poderia acontecer, porque há uma ala do SPD, o partido que faz coligação com a CDU de Friedrich Merz, que havia anunciado, de alguma forma, que se iria opor a esta coligação. Estou a falar dos Jusos, a Juventude Socialista, que ameaçou que poderia, não estou a dizer que foram eles, porque a votação é secreta, mas que poderia votar neste sentido. Esta é a primeira leitura, uma polarização do sistema político alemão. Depois, obviamente que esta segunda leitura que deve ser feita, isto é um péssimo sinal, quer para a Alemanha, que precisa de um governo estável, sobretudo quando nós atentamos às circunstâncias da política externa, às guerras na Ucrânia e no Médio Oriente, aos dissidentes que vão existindo entre a Europa e os Estados Unidos. Nós precisamos de liderança, e quando digo nós, digo a Europa, precisamos de liderança alemã e precisamos de uma liderança forte. E nós vimos hoje que, em consequência deste resultado, o DAX já caiu de uma forma vertiginosa, o que não é bom para uma economia que está em recessão e que tinha agora a esperança, havia a esperança do lado do patronato alemão, que com este governo e com este chanceler, a economia voltasse a ser apoiada e voltasse a crescer. Uma terceira leitura, que isto não quer dizer que esteja selado o destino de Friedrich Merz, aliás, as frações parlamentares do Bundestag estão neste momento reunidas no sentido de tentar fazer ou combinar uma segunda votação para amanhã, e depois de amanhã veremos o que é que irá acontecer. O que temos também, e isso é muito preocupante, temos o partido de extrema-direita AfD, que neste momento lidera as sondagens, a pedir a realização de novas eleições.
Era essa a questão que eu queria colocar. A extrema-direita pode, face a esta instabilidade do Parlamento, ganhar ainda mais força?
A extrema-direita na Alemanha tem ganho bastante força. Um partido como a AfD, que surgiu há uma década como partido de protesto antieuropeu, contra o euro e contra aquilo que eles consideram ser a perda de soberania para Bruxelas, e que depois foi cavalgando os temas populares e que de fato perturbam a população alemã e que os partidos do centro ou os partidos moderados não conseguiram dar resposta, nomeadamente à pressão migratória islâmica, que na Alemanha tem um peso muito grande e é um peso que é visível não apenas nas estatísticas da criminalidade, como é visível nas ruas, na instabilidade social, em tudo isso. E era uma preocupação que os alemães prestavam há muito tempo e que nenhum partido, nem o Partido Social-Democrata, equivalente aos socialistas, nem o Partido Democrata Cristão, equivalente ao nosso PSD, foram capazes de dar resposta e a AfD, com inteligência, foi cavalgando isso com um discurso populista, com um discurso perigoso, com um discurso racista, com um discurso xenófobo, mas o certo é que se tornou a segunda maior força política na Alemanha e em alguns "länder" alemães é mesmo a maior força política alemã. Claro que eles vão querer capitalizar esta derrota do Friedrich Merz. A pergunta que se deve colocar é quem é que teria interesse em causar isto. Está a haver uma série de analistas políticos alemães, e apesar da votação ser secreta e apesar de se pensar que isto vai no sentido dos Jusos, a CDU não teria interesse em ter novas eleições, uma vez que ganhou estas, ganhou-as por uma escassa margem, não teria interesse em dar um tiro no próprio pé porque está consciente que se voltar a haver eleições, dificilmente conseguem ter este resultado e há aqui o risco, e é um risco sério, de termos um partido de extrema-direita a conseguir vencer umas eleições na Alemanha, embora seja difícil poderem vir formar governo, porque na tradição política alemã não há maiorias absolutas, normalmente os partidos governam em coligações, não havendo o risco de formar governo, mas teríamos aqui o risco de ver uma expressão muito clara da extrema-direita. A pergunta é quem é que teria interesse em provocar isto, se isto foi apenas uma provocação de um grupo de jovens mais à esquerda dos sociais-democratas, dos socialistas alemães, ou se há aqui alguma tentativa de influência, e nós sabemos também as relações profundas que existem entre alguns elementos do SPD e o regime russo, e se isto não poderá ser uma interferência externa. São tudo especulações que estão a ser neste momento discutidas na cena política alemã. Certo que o que se passou é muito grave e não é nenhum bom sinal. O Friedrich Merz, que tinha agendadas para amanhã as suas primeiras visitas oficiais, que normalmente são sempre a Paris por causa do eixo franco-alemão e depois a Varsóvia por causa do Triângulo de Weimar, os principais aliados na Europa da Alemanha, cancelou essas visitas. Para o dia 8 estava prevista uma cerimônia no Bundestag evocativa dos 80 anos do final da Segunda Guerra Mundial, mas isto não podia acontecer numa altura mais difícil, quer do ponto de vista interno, quer do ponto de vista externo.
E agora Friedrich Merz, o que tem de fazer para conseguir convencer os restantes deputados a darem-lhe uma maioria no Parlamento?
Neste momento, o trabalho é dos líderes de fração parlamentar, que vão ter que conversar com os seus deputados e vão ter que, de alguma forma, conseguir fazer impor aquilo que é a disciplina de voto, porque de outra forma a solução que resta é a Alemanha realizar novas eleições, que parece-me não ser nem no interesse dos democratas cristãos, nem no interesse dos sociais-democratas.