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Começava por lhe perguntar, no fundo, para que serve este projeto da dessalinizadora e se acha que é viável.
Este projeto, no fundo, é para colmatar algumas necessidades a nível de necessidades hídricas da região do Algarve. Uma parte será colmatada através da dessalinizadora, ou seja, a água dessalinizada que é depois introduzida na rede de abastecimento e aqui, neste caso, essa água destina-se exclusivamente a abastecimento humano. Outra parte será colmatada quando entrar em funcionamento a captação que está prevista para a zona do Pomarão, que irá transportar a água até à barragem do Odeleite e aí, nesse caso, será não só para abastecimento humano, mas também para outros usos, nomeadamente para a agricultura.
Mas parece-lhe viável este projeto?
Este projeto tem alguns constrangimentos que nós já identificámos na altura em que o projeto esteve em consulta pública. Um deles tem a ver com a questão do financiamento, ou seja, no âmbito do PRR, onde estão destinadas verbas precisamente para este projeto, estava previsto inicialmente que seriam à volta de 50 milhões de euros. O que irá ser agora adjudicado será acima dos 100 milhões. Portanto, não sabemos muito bem como é que este projeto, como é que esta infraestrutura depois vai ser efetivamente paga. Se os custos que estão aqui associados, para além daquilo que está previsto no PRR, virão a ser repercutidos diretamente na tarifa que é aplicada ao consumidor. E se assim for, os consumidores vão ver as suas faturas da água bastante aumentadas. Depois tem a questão de estarmos a fazer um investimento numa obra, que é bastante cara, para produzir água dessalinizada, cujos custos de produção também são elevados. Água essa que vai ser injetada, que vai ser colocada numa rede que neste momento ronda os 30% de perdas, talvez um pouco menos. Apesar dos investimentos também previstos no âmbito do PRR para redução dessas perdas e para maior eficiência de todo este sistema de abastecimento do Algarve, a verdade é que as perdas se mantêm, na grande parte dos municípios algarvios, em níveis relativamente elevados e, portanto, nós sabemos que parte desta água, que vai ter um custo elevado, vai ter que ser captada, vai ter que ser dessalinizada e colocada na rede, com um custo bastante alto, muito provavelmente alguma dessa água vai se perder. Uma coisa é nós estarmos a perder água, que neste momento é captada superficialmente ou mesmo em captações subterrâneas, mas que não tem os custos de produção que tem uma água dessalinizada, outra coisa é estarmos a pôr uma água dessalinizada para depois perder parte dessa água na rede de abastecimento. Nós na altura do projeto que esteve em consulta pública, fizemos algumas contas muito simples e rápidas de se fazerem, e percebemos que apesar desta dessalinizadora estar prevista para ter uma capacidade de produção inicialmente à volta de 16 hectómetros cúbicos anuais, o volume médio que irá ser produzido rondará à volta dos 12 hectómetros cúbicos, que é sensivelmente aquilo que se perde atualmente nas redes de abastecimento. Portanto, basicamente, mesmo que se produza mais do que esses 12 hectómetros cúbicos, que sejam os 16 que estão previstos, a verdade é que uma parte muito significativa é aquilo que corresponde atualmente às perdas do abastecimento. É um investimento pouco viável nesse sentido, não só porque é um investimento elevado e que o PRR não cobre na totalidade, e o próprio presidente da Associação de Municípios do Algarve veio referir há uns tempos isso mesmo, que o PRR não cobre todo o valor do investimento que é necessário, mas depois também pela questão das perdas no sistema de abastecimento, que são praticamente equivalentes àquilo que vai ser colocado no sistema através da água dessalinizada.
Considera que este projeto vai ter um impacto ambiental significativo?
Será certamente, nada é isento de impactos a nível ambiental, e nós sabemos que vai ter sempre alguma poluição associada, porque a salmoura que depois é produzida durante o processo de dessalinização é novamente descarregada no mar e, portanto, tem impactos nos ecossistemas marinhos, certamente. Nesse aspecto, ele vai ser obviamente um investimento que acaba por poluir. Mas outras formas de abastecimento podem poluir de alguma forma. Mas de facto, aqui há impactos que teriam que ter sido provavelmente mais acautelados.
E pensa que pode estar aqui uma solução para o combate à seca na região do Algarve?
Nós, de mazero, temos vindo a defender que não somos totalmente contra a dessalinização, mas a verdade é que vemos estes projetos como projetos de fim de linha, ou seja, há muitas outras coisas que têm que ser feitas antes de se procurar fazer esses investimentos em grandes infraestruturas, seja dessalinizadora, seja novas barragens, seja os tão falados transvases, porque temos que investir muito na questão da eficiência. Enquanto tivermos perdas a rondar os 30% O que faz sentido é reduzirmos essas perdas. Depois temos a questão das perdas na agricultura, no uso da água por parte do setor agrícola, que é atualmente o maior consumidor de água. Neste caso da dessalinizadora, vamos deixar de captar nas atuais origens, porque parte dessa água que atualmente captamos para produzir água para consumo humano vai passar a ser captada no mar. Nas atuais origens vai ficar mais água disponível. Mas essa água vai ficar disponível para quê? Interessa saber como é que essa água vai ser utilizada. Muito provavelmente, vai ficar disponível para o setor agrícola fazer maior uso dessa água que já não vai para o sistema de abastecimento, vai ficar numa barragem ou vai ficar nas águas subterrâneas, mas depois vai acabar por ser captada e utilizada de formas também pouco sustentáveis. Ao nível da eficiência, também temos que ter essa questão em mente. Ao sermos mais eficientes, há menos água que nós vamos captar naquilo que são as habituais origens da água, seja superficial, seja subterrânea, mas depois alguém vai utilizar essa água e de forma pouco sustentável. Há que ter aqui todas estas questões em consideração.
Por último, perguntava-lhe qual a importância deste projeto para a região do Algarve.
A região atravessa uma situação complicada ao nível de escassez hídrica. Eu percebo a necessidade de ter aquelas que são as suas necessidades básicas de humanidade satisfeitas de alguma forma. Mas tal como disse, este tipo de soluções, de ter novas barragens, de ter dessalinizadoras, no fundo, são um pouco ilusórias, porque não vão efetivamente resolver o problema do Algarve. O problema do Algarve tem que se resolver pensando no modelo de desenvolvimento que queremos para aquela região. E não podemos estar numa constante procura por maior oferta de água. Não podemos estar sempre a procurar opções para termos mais água disponível, se não fizermos o trabalho do outro lado, ou seja, procurarmos nós consumir menos água. Temos que repensar o modelo de desenvolvimento que se quer para aquela região, porque não podemos querer mais turismo, mais investimento, mais agricultura e ao mesmo tempo querer mais água. Isso é um contrassenso. Nós queremos efetivamente mais água, provavelmente teremos que poupar mais água e não ir buscar água, seja ao norte do país, seja tentar armazenar mais água, até porque aquilo que as previsões indicam em relação às alterações climáticas, os cenários futuros, indicam que vai haver uma redução da precipitação. Efetivamente vamos ter menos água disponível. Não vamos conseguir estar eternamente neste ciclo de querer aumentar a oferta de água, temos é que efetivamente reduzir essa procura, que atualmente já excede aquilo que é a água que temos disponível.