Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Como olha para esta edição da revista, sendo que é a última com o almirante no cargo e isto numa altura em que se fala de uma possível candidatura à Belém?
Lembrou-me aquelas revistas dos presidentes de junta de freguesia que têm que explicar tudo o que fizeram. É o que lhes posso dizer.
Não acha que isto é já uma possível pré-campanha?
Acho que é completamente extemporâneo começar a falar e a especular sobre as presidenciais, mas sim, esta será esse tipo de interpretação.
Há pouco falei com um tenente-coronel que me falou que é normal nestas revistas de instituições, organizações, haver uma certa, quase como uma coisa norte-coreana. Olha para esta revista desta maneira?
Não me parece que seja normal a própria revista da Armada ter assim uma perspectiva tão personalista da direção da Marinha. Mas isso é fácil de verificar em relação a anteriores edições. Eu não contesto que haja bom trabalho feito, e bem preciso era para equipar devidamente a Marinha e torná-la credível, e o país bem precisa disso. Eu gostava que, por exemplo, a Marinha tivesse vozes a serem muito audíveis em relação às formas de combate à corrupção, quando nós sabemos que, por exemplo, um dos principais equipamentos que hoje a Marinha tem, os submarinos, foram comprados com um esquema absolutamente corrupto, como está demonstrado, de resto, pelas condenações que houve na Alemanha, sendo que no nosso país não se quis apurar quem eram os responsáveis. Eu teria esperado que da Marinha, a vários níveis, houvesse vozes que tivessem alertado no sentido justamente de isso não voltar a replicar-se, sobretudo quando justamente estamos em fase de novo reequipamento, não só da Marinha, mas de todas as Forças Armadas, por causa das necessidades nacionais e europeias. Eu vejo que há um capítulo dedicado justamente às reformas que foram feitas na Marinha do ponto de vista da relação com o Tribunal de Contas, da contabilidade, mas acho significativo que a questão da corrupção pura e simplesmente não apareça lá, sobretudo quando, volto a repetir, estamos a falar de um ramo das Forças Armadas que foi particularmente abalroado e impedido justamente de se equipar melhor por um esquema corrupto que defraudou o país e que, aliás, o pôs à beira da bancarrota. O que não podemos esquecer que foi em 2010 o pagamento dos dois submarinos a pronto, para não ser ainda mais oneroso para o país, no esquema de financiamento que estava previsto, arranjado entre o Ministério da Defesa Nacional e o BES, que obrigou ao tal pagamento a pronto que pôs o país à beira da bancarrota.
E como é que olha para o cartoon que vem no final da revista?
É talvez o elemento que mais me lembra as revistas de presidente de junta de freguesia em fim de mandato, de província. Dá-me vontade de rir.
Já disse que é um bocadinho cedo para falarmos ainda disso, mas sobre a questão das presidenciais.
Sobre as questões das presidenciais, eu não quero contribuir para alimentar uma discussão que é completamente extemporânea e que nos desvia de discutir aquilo que é mais importante neste momento, que é o escrutínio da governação do país. Tivemos oito meses a discutir o Orçamento de Estado, ainda ele vinha lá tão longe. Ainda estávamos a discutir a especialidade, já ninguém falava de especialidade e só se concentravam já com as presidenciais. Eu não dou para esse peditório de alimentar essa discussão que é extemporânea. E não considero que quem quer que esteja a alimentar essa discussão, por estratégia pessoal, inclusivamente, esteja a ter uma contribuição positiva para o país.
Outros destaques desta edição de dezembro da revista?
Como lhe digo, ela faz-me demasiado lembrar as revistas de algumas juntas de freguesia de província que têm a necessidade de fazer o relambório de tudo o que fizeram. Há ali, de facto, aspetos personalistas absolutamente despropositados. E como lhe digo, para mim, o que me ressaltou é que justamente numa questão que é tão importante e tão sensível para o país e para a Marinha em particular, e o equipamento das nossas Forças Armadas, e a utilização rigorosa e eficiente dos recursos, que não se fale da questão do combate à corrupção. E que não se reflita sobre o que se passou antes e que afetou particularmente a Marinha.