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Nuno Peixinho, que é investigador do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço, é também professor da Universidade de Coimbra, é especialista na caracterização física e química de asteroides. Está agora conosco. Nuno Peixinho, astrofísico, muito boa tarde. Qual é a sensação, antes de mais, de dar nome a um asteroide? Não sei se já lhe tinha acontecido.

Pois, não. Nunca me tinha acontecido, é a primeira vez e também posso garantir que será a última.

Portanto, este é um asteroide único, particular, individual e que ficará para sempre com o seu nome. O que nos pode dizer sobre este asteroide? Principais características. Já falámos um pouco sobre ele, mas pedia que detalhasse mais um pouco e também qual a importância deste asteroide e daquilo que é o olhar para este astro.

Este asteroide é bastante pequeno, igual a mais centenas de milhares de outros. Nós hoje em dia já identificámos pouco mais de 1 bilhão de asteroides. Mais de 22 mil desses asteroides já receberam nomes e desta vez consegui ser galardoado com a atribuição do meu nome a um asteroide pelo meu trabalho e por isso fico muito contente. Este asteroide está na zona da cintura de asteroides, na chamada cintura principal, que está entre Marte e Júpiter. Está três vezes mais distante do Sol do que a Terra está, ou seja, as chamadas três unidades astronómicas. Leva cerca de cinco anos e um terço, mais ou menos, a dar uma volta completa ao Sol. Tem pouco mais de 10 km de diâmetro. Tem uma órbita um pouco inclinada, ou seja, não anda verdadeiramente no mesmo plano que a Terra à volta do Sol.

E é verdade que este asteroide é mesmo o tipo de asteroide que se viesse em direção à Terra poderia causar um evento de extinção em massa?

Isso sim, é verdade. Estima-se que a hipótese de ter sido a queda de um grande asteroide há 66 milhões de anos na Terra, que deveria ter entre 10 a 20 km de diâmetro. A cratera foi enorme, criou tsunamis, criou sismos e criou uma nuvem de poeira tão grande na Terra que alterou completamente o clima. E isso levou a um evento de extinção em massa de muitas espécies, entre elas os famosos dinossauros. Se um asteroide de 10 km colidisse novamente com a Terra, seria um evento absolutamente catastrófico. Aliás, esse asteroide foi precisamente descoberto em 98, como muitos outros. Hoje temos já vários sistemas de telescópios relativamente pequenos, em modo automático, robotizados, sempre a detetarem tudo o que é asteroide. Por isso é que já conhecemos 1 milhão de asteroides. Precisamente para sabermos onde estão eles todos e para nos podermos precaver no caso de detetarmos um que poderá vir a colidir com a Terra. E nós até estamos muito concentrados nos de centenas de metros, porque bastará um asteroide com centenas de metros colidir com a Terra para já ter uns efeitos um pouco devastadores.

E esse é um cenário que neste momento podemos remeter apenas para os filmes de Hollywood ou é algo mais real do que poderemos pensar?

Felizmente, com este asteroide, é para Hollywood, porque este tem uma órbita bastante estável. Ele não vai sair daquele sítio nem daqui a 1 milhão de anos e, portanto, não irá colidir com a Terra. Mas continua-se a estudar muito, porque embora dos asteroides conhecidos com o tamanho maior do que 1 km, que são os verdadeiramente muito perigosos. Estimamos que já detetámos mais de 90% deles e, portanto, aparentemente estamos seguros quanto a esses. Mas faltam-nos os tais das centenas de metros, que queremos saber onde eles estão, e são muito mais numerosos do que os de 1 km, para podermos pensar em técnicas de mitigação. E essa é uma realidade. É uma possibilidade real. Não é só dos filmes, na verdade. Claro que um asteroide de centenas de metros não irá causar um evento de extinção em massa, mas poderá destruir uma cidade ou uma pequena região inteira. E de facto existem técnicas, estudam-se técnicas para proteger a Terra, atempadamente, claro, sobre a possibilidade de um desses asteroides, os hectométricos, os das centenas de metros, poder vir a colidir com a Terra. Portanto, a possibilidade é de facto real. Aliás, agora esqueci-me do ano, 2013 creio, caiu um asteroide que tinha umas dezenas de metros, 10 ou 15 metros, na Rússia. E claro que só o facto da onda de choque, daquela explosão do asteroide no ar.

Estava aqui a ver agora numa busca rápida o Chelyabinsk.

Era o Chelyabinsk. E só por causa de haver a onda de choque que fez partir os vidros todos da região, deu cerca de mil feridos. Feridos ligeiros, porque as pessoas estavam à janela e levam com vidros em cima. Feridos ligeiros, mas depois teve outra destruição. Claro, depois caem os vidros e as janelas em cima dos carros. Os prejuízos foram elevados. E esse também foi mais um passo. Desde aí, quer os russos, quer a União Europeia e os americanos passaram também a acelerar, a intensificar a investigação sobre a possibilidade destes asteroides colidirem com a Terra, porque os estragos começam. Havendo um, basta dezenas de metros para ter estragos consideráveis. E não só nós queremos minimizar os estragos, como evitar a perda de vidas humanas e de feridos.

E por isso mesmo vai continuar também o estudo deste asteroide.

Exato. E as seguradoras, obviamente, estão sempre muito interessadas em conhecer os reais perigos destas coisas. Portanto, vai continuar o estudo deste asteroide no conjunto dos outros todos, para se ver, afinal, quais são as probabilidades e os perigos de haver asteroides que passem perto da Terra. Que não é o caso deste, mas foi descoberto este porque enquanto se procuravam os outros, este apareceu no caminho e também ficou catalogado.