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Olá, muito bom dia. Antes de mais, muito obrigado pelo convite. Eu conheço bem a Síria, trabalhei lá, continuo a ter bastantes contactos e tenho feito estes contactos para tentar perceber melhor a situação do ponto de vista de lá. Oficialmente, a Síria tem quase sete milhões de refugiados noutros países, sobretudo na Turquia, na Jordânia, no Líbano e é natural que haja a vontade de regressar a um país que teve, durante mais de 50 anos, uma situação muito complexa em termos de quem governou e da opressão de quem governou. É uma situação muito complicada, porque neste momento há filas e filas de pessoas junto a quase todas as fronteiras terrestres. A situação na Síria está tudo menos estabilizada, ou seja, não há apenas um grupo que está neste momento no poder, ou quer estar no poder, mas também há a situação dos curdos, na parte do Curdistão, que neste momento não há uma estrutura que se possa dizer que está organizada. As Nações Unidas, através das várias agências e sobretudo o ACNUR, está neste momento a organizar-se, estão a pedir fundos para ajudar esta situação, porque não era esperado que esta situação acontecesse. Para além de haver, neste momento, muito poucos fundos disponíveis para esta situação, neste momento a única coisa que está a ajudar estas pessoas que estão a retornar, as pessoas que vêm de fora da Síria a retornar para a Síria e aquelas que internamente se deslocaram durante todo este processo, que são mais de um milhão de pessoas, têm sido os próprios sírios. Têm sido as famílias, familiares, que têm estado a ajudar e neste momento toda a comunidade internacional, organizações internacionais, organizações nacionais, Nações Unidas, estão na fase de organização, a tentar perceber como é que podem ajudar, porque nem sabem neste momento bem onde é que serão as maiores concentrações, para além de Damasco.
Claro, ainda estamos nessa fase muito inicial do processo, mas mesmo assim, Brunet, nesta altura já estamos a assistir na Europa a vários países mostrarem menos disponibilidade para continuar a acolher cidadãos da Síria. Esse movimento também se nota?
Sim. Há aqui duas questões. Há a questão dos processos de residência ou processos de atribuição do estatuto de refugiado e há aqui também, quem fala na comunidade internacional, aquilo que aconteceu há relativamente pouco tempo com alguns refugiados que tinham o estatuto de refugiado legalmente no Reino Unido e que foram enviados para o Ruanda, que sob a lei internacional, isso não deveria acontecer, é contra a lei internacional de 1951, mas é uma situação que se prevê que possa acontecer em vários países. Estamos a falar de pessoas que já têm o estatuto de refugiado. Aqueles que estão no processo, agora vai ser muito difícil. Quando se está a apelar para um visto com base numa perseguição política e essa perseguição política já não existe tão diretamente, tem aqui uma questão. Neste momento, as únicas pessoas que ainda poderão ter alguma proteção são os curdos. Sírios que saíram da Síria, da região do Curdistão, que estão fora, continuam a não ser protegidos na Síria, continua a haver um grande problema político para as pessoas que são curdas na Síria, porque continua a haver uma grande discriminação e isso também vai ser um dos grandes focos de destabilização e da não imediata resolução da situação política na Síria, é toda a parte onde vive a população curda.