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O Conselho Europeu aprovou um pacote de medidas para os 27 Estados membros da União Europeia e há um dos acordos que diz respeito ao vinho do Porto. É um acordo com a China sobre indicações geográficas protegidas para produtos agrícolas, alimentos e vinhos. Tem como objetivo defender denominações de origem, o que abrange precisamente o vinho do Porto. Vamos perceber os contornos deste acordo com Isabel Marrana, presidente executiva da Associação de Vinho do Porto. Isabel Marrana, muito boa tarde. Obrigado por se juntar a nós nesta emissão da Rádio Observador.

Muito obrigada, muito boa tarde a todos.

Qual é a importância deste acordo para o vinho do Porto e para os produtores deste vinho?

Este acordo é muito interessante e vem na tradição que temos de tentar internacionalmente a proteção da denominação de origem vinho do Porto. O vinho do Porto é, de facto, um vinho que é produzido, é elaborado numa região demarcada, numa região delimitada, é aliás, a primeira região demarcada do mundo, a região demarcada do Douro, e por isso há um conjunto de Estados, terceiros Estados fora da comunidade, que ainda não respeitam esta especificidade de origem dos produtos.

Como assim?

Por exemplo, a China até agora produzia ou podia produzir vinhos do Porto em território chinês. Por isso, entendiam que a denominação de origem não estaria ligada a um território específico, materializado, mas que poderia ser, por exemplo, um tipo de vinho, um vinho aguardentado.

Mas deixe-me perceber, copiavam vinho do Porto, é isso?

Copiavam, sim. Faziam um vinho aguardentado, não muito semelhante sequer, porque muito adocicado, e por isso sem sequer as características de qualidade em qualquer região da China.

Portanto, o que este acordo vem trazer é uma proteção à expressão vinho do Porto e ao vinho produzido na região do Porto e na região do Douro, é isso?

O que este acordo traz é uma proteção de uma denominação de origem relativamente a essa origem. Ou seja, a partir de agora, e depois de o Parlamento Europeu ratificar o acordo, há 100 produtos europeus, na sua maioria vinhos, na sua maioria franceses, em Portugal o vinho do Porto, que a China não autoriza a elaboração e a utilização, a usurpação do nome e que os protege ligados à origem que eles têm. No nosso caso, no vinho do Porto, na origem e nas regras específicas e próprias do nosso vinho do Porto.

Deixe-me perguntar qual é a importância da China nas exportações do vinho do Porto. É um mercado já bastante atrativo, pode melhorar com a existência de um acordo deste tipo?

Pode melhorar. A China é sempre um mercado, pela quantidade de consumidores que tem e pela pujança econômica e o crescimento econômico que tem demonstrado, é um mercado muito importante. No entanto, neste momento, não está nos 10 primeiros mercados para vinho do Porto, mas tem um potencial enorme e de facto nós temos vindo a fazer investimentos promocionais constantes e consistentes no mercado chinês, tendo em conta que há um conjunto de dificuldades a ultrapassar grandes.

Isto agora dá também outra segurança para apostar nesse mercado.

Com certeza que sim, porque nós agora temos a certeza de que os investimentos promocionais que serão feitos são em prol da venda do nosso produto e não de uma usurpação ou de uma falsificação do nosso produto. No entanto, eu chamava a atenção que há que unir esforços para conseguirmos ter uma cota de mercado na China, até pela diferença dos hábitos alimentares, pela diferença de gosto e de paladar dos próprios chineses. O vinho do Porto apresenta-se aí, dentro dos vinhos europeus, com uma enorme capacidade de atração para os chineses, porque é um vinho que na sua maioria é doce, existindo vinhos secos, mas na sua maioria é doce, e que portanto poderá de alguma forma encontrar no mercado chinês um potencial de crescimento relevante.

Isabel Marrana, deixe-me perguntar-lhe, agora estando o vinho do Porto protegido com este acordo assinado entre a Europa e a China, estando o vinho do Porto protegido de eventuais cópias, significa que o vinho do Porto certificado produzido em Portugal pode conquistar uma maior cota de mercado que era preenchida por esse tal vinho copiado da China?

Claro que sim.

E qual é a vossa expectativa?

É essa a nossa expectativa, exatamente. A nossa expectativa é que possamos e possamos até fazer. Tínhamos agendado algumas ações até ligadas à Confraria do Vinho do Porto, por isso com uma projeção, porque o mercado chinês tem que ser conquistado de cima pra baixo, ou seja, as elites chinesas têm que ter uma adesão aos produtos europeus para que depois ele se massifique. É um mercado muito mimetizado, digamos assim. E é um mercado enorme.

Já agora, deixe-me perguntar-lhe se a Associação do Vinho do Porto já trabalhou junto a comunidades chinesas em Portugal.

Sim. Nós fizemos até algumas ações de divulgação, porque há que perceber as diferenças culturais. Nós temos que perceber, nós as empresas comerciais ou os agentes comerciais Tem que perceber exactamente as diferenças culturais existentes na China, nos mercados asiáticos em geral. De maneira que temos feito esse contacto para fazermos o trabalho de casa e podermos chegar à China. Temos também feito alguma colaboração com as embaixadas chinesas de Portugal em Pequim. E como digo, antes mesmo desta pandemia, que paralisou de alguma forma as ações e os eventos culturais, nós tínhamos um conjunto de ações muito importantes na China e em Pequim, exactamente ligados com a Corparia de Vinho do Porto, para que os chineses, que gostam exactamente da tradição, da cultura, do prestígio, pudéssemos com isso atingir um link comercial mais efectivo para podermos efectivamente conseguir vender o Vinho do Porto. Esta notícia de hoje é uma garantia de que haverá uma protecção das autoridades chinesas. Porque a China tem este problema em todos os segmentos. A China copia tudo. Não é o caso de copiar apenas denominações de origem, copia tudo. É muito importante que as autoridades chinesas se corresponsabilizem, que é isso que vai acontecer neste acordo. Por isso elas corresponsabilizam-se a que Vinho do Porto só pode ser o da região demarcada do Douro, envelhecido em Vila Nova de Gaia e certificado pelo Instituto Vinho do Douro e do Porto. Isso é de facto importante.

Deixe-me agora fugir um pouquinho a este acordo, só para perguntar como é que está a ser este período pós-pandemia, a recuperação do mercado, como é que estão as empresas também a reagir agora a este momento, se sentem já alguma recuperação ou se os tempos que aí vêm vão ser mesmo difíceis.

Ora bem, os tempos são inimagináveis. Penso que para nós e para os outros sectores, nós atravessamos situações que não eram sequer equacionáveis, estavam fora de todas as variáveis. Curiosamente, a nossa grande quebra importante é no mercado nacional, é no mercado português. Nós temos que reativar consumos. O Vinho do Porto apresenta quebras à volta dos 45, 48% no mercado nacional. O mercado nacional era responsável pelo segundo lugar de vendas, por isso acima dele só tinha a França, que curiosamente é também o segundo mercado com quebras provocadas pela crise Covid muito importantes. Os outros mercados de exportação apresentam já alguns sinais de recuperação e por isso a nossa grande preocupação, e estamos a encetar até campanhas de reativação de vendas e campanhas de sensibilização aos portugueses, porque se há um produto nacional de prestígio que espelha bem a alma do português é o Vinho do Porto. E de maneira que, neste momento, o nosso foco está muito centrado no mercado nacional e também no mercado francês. Mas enfim, como lhe digo, os tempos são difíceis, as empresas que estiveram em lay-off estão a sair de lay-off. Há medidas neste momento que hoje mesmo vão ser negociadas com o Ministério da Agricultura para minimizar a crise. A próxima vindima vem aí, ou seja, muitos desafios que nós esperemos que também, de alguma forma, sejam uma oportunidade de podermos trabalhar melhor, podermos conseguir, sobretudo no mercado nacional, que é um mercado muito importante.

E deixe-me só perguntar se já sentem também o impacto do turismo, porque muitas das casas de Vinho do Porto viviam também já um pouquinho dessa questão das visitas de turistas, das provas de vinhos, se esse impacto também é sentido.

Sentimos em dois níveis. Um, pelo impacto directo. As Caves de Vinho do Porto estavam a receber em 2019, ano record, perto de um milhão e meio de visitantes, compradores, e até promotores, porque a visita à experiência constituía um cartão de promoção, e de repente elas fecharam, foram para lay-off e agora estão a reabrir lentamente. Mas também um efeito indireto. É que efectivamente, pelos números que hoje temos, podemos confirmar de que a importância do mercado nacional como segundo mercado de vendas de Vinho do Porto era muito derivado do consumo que os turistas faziam no país. E os turistas, os restaurantes, os hotéis. Porque efectivamente, como lhe digo, desaparecendo esse fluxo turístico, as vendas caíram abruptamente. E o desafio e a oportunidade é essa, é que conseguirmos conquistar como consumidores do mercado nacional os portugueses, que não estão ainda conquistados e por isso há muito trabalho a fazer.

Isabel Marrana, presidente executiva da Associação de Vinho do Porto, muito obrigado por se ter juntado a nós neste dia em que o Conselho Europeu aprovou um acordo com a China com o objetivo de defender os produtos com denominação de origem, nos quais se inclui, obviamente, o Vinho do Porto.

Muito obrigada.