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E o Jorge acredita que estamos perante um escalar de tensões, de facto, ou são mais ameaças sem consequências práticas?
São ameaças que resultam, por vezes, de determinados incidentes, acontecimentos que vão decorrendo na vida política de Taiwan e que desagradam Pequim e habitualmente Pequim reage com exercícios militares, simulando até uma invasão da ilha, muitas vezes. Isto é algo recorrente. Continuamos com o mesmo quadro político que sempre tivemos. Nós temos uma ilha, um território que é reclamada a soberania por parte de Pequim, não quer dar oxigênio político a Taiwan, na verdade, e não quer que tenham relações políticas com parceiros onde não há relações formais diplomáticas, não há relações com os Estados Unidos. Os responsáveis políticos de Taiwan não têm que ir aos Estados Unidos, não aceitam esta relação e também não aceitam qualquer relação diplomática que tenham com outros parceiros internacionais, com outros países internacionais, onde não há relações formais. Há aqui uma tentativa de asfixia, por parte de Pequim, a toda a vida política, a toda a diplomacia internacional, porque, na verdade, para Pequim, ela não deve existir, porque é apenas um território, não é um país soberano, não deve ter relações diplomáticas e é isto que Pequim pretende fazer, muitas vezes, no meu ponto de vista, passando muito daquilo que deve ser, até do ponto de vista do direito internacional, não sei até que ponto é que isto é legítimo, asfixiar desta forma, não permitindo sequer, muitas vezes, diálogos, não permitindo que haja contactos e acho que ultrapassa essa dimensão. Nós sabendo que do ponto de vista internacional a ilha não é reconhecida, sabemos disso, do ponto de vista das Nações Unidas, evidentemente, é reconhecida como um território pertencente à China continental, à República Popular da China, mas também exagera Pequim no sentido de tentar limitar todas as ações por parte dos responsáveis políticos. Desta vez temos um vice-presidente que passou nos Estados Unidos, porque foi a um dos países que ainda reconhece Taiwan e foi lá à tomada exatamente do responsável político. E ao passar pelos Estados Unidos, há um descontentamento e há aqui uma reação. É claro que o momento atual também não ajuda, porque nós temos o Indo-Pacífico com imensas tensões. Tivemos agora uma cimeira do Japão, da Coreia do Sul, e, de facto, não agrada nada aos interesses também de Pequim, porque há uma tensão imensa e o facto de a passagem ser nos Estados Unidos, este contacto ter sido nos Estados Unidos, evidentemente que agudiza os dissabores de Pequim e também não ajuda nada a este contexto. Temos o normal, que é todo um conjunto de exercícios militares, que Taiwan promete também responder. Enfim, isto pode criar aqui uma tensão maior e estamos sempre à beira de um conflito, o que é verdadeiramente preocupante.
E pode mesmo haver um conflito? Pode mesmo surgir daqui um conflito?
Pode haver um conflito. Essa possibilidade está sempre em cima da mesa. Não é do interesse de ninguém, não é interesse da China, ainda que o diga, quererá resolver a questão de Taiwan e se não a conseguir de forma pacífica, ela poderá ser resolvida de maneira militar. Já o admitiram, mas ela seria trágica. E trágica, olhando também um bocadinho para o que aconteceu na Ucrânia, se calhar, com a mesma reação, pode até não ser direta, mas se calhar com as mesmas consequências muitas vezes que nós estamos a olhar para a Rússia. Seria trágico desse ponto de vista, seria trágico do ponto de vista económico, seria muito trágico para o mundo e muito mais trágico que a Ucrânia. E aqui o problema está nos semicondutores. Um bloqueio aos semicondutores internacionais seria verdadeiramente trágico para a economia internacional e para os Estados Unidos também seria preocupante. Não acredito numa intervenção direta dos Estados Unidos, mas acredito muito no apoio militar dos Estados Unidos a partir das redondezas, vamos chamar assim, inclusivamente a partir das Filipinas, com bases militares que entretanto os Estados Unidos também têm. Poderia esse apoio ser indireto, no sentido de intervenção militares americanos, tenho mais dúvidas em relação a isso, mas um apoio substancial a Taiwan seria certamente, como se está a fazer, aliás, com a Ucrânia. Seria muito preocupante se isso acontecesse, seria muito trágico para o mundo, muito mais trágico do que é a guerra na Ucrânia. Não tenho dúvidas em relação a isso, sobretudo do ponto de vista económico. Por isso é que Taiwan está lentamente, e os Estados Unidos também o estão a fazer, lentamente a limitar a dependência de Taiwan em relação à economia, em relação aos semicondutores. Ou se calhar, ao contrário, menos dependência dos Estados Unidos em relação a Taiwan, exatamente nos semicondutores, onde há um conjunto de fábricas que estão a ser construídas nos Estados Unidos, agora também uma na Alemanha, sobretudo da empresa primordial neste setor, a TSMC, que é a principal construtora de semicondutores e que está a colocar a produção fora de Taiwan, exatamente para tornar a economia internacional menos dependente de Taiwan na produção de semicondutores, que seria muito preocupante e teríamos um abalo grandíssimo na economia internacional e portanto, isto é uma grande preocupação para, em primeiro lugar, para os atores da região, mas depois para o mundo.
Quando fala em semicondutores, o que é que são semicondutores, na prática?
Os semicondutores são essencialmente aquilo que nós chamamos os chips. São aqueles componentes que integram Integram exatamente todos os equipamentos eletrónicos. Isto dito de uma maneira de um não especialista desse ponto de vista técnico, mas são essencialmente aquilo que nós podemos traduzir se calhar pela ideia de chips. Taiwan tem a produção de ponta e que está depois ligada à inteligência artificial também, está ligada a toda a tecnologia de ponta. Taiwan é um líder indiscutível neste domínio. A China não é tão forte, por isso é que também reivindica bastante toda esta questão e também está interessada em todo este controlo. Uma parte substancial da produção de Taiwan deste setor tentar exatamente divergir nas suas exportações para não ficar tão dependente do mercado chinês, exatamente por causa desta questão do risco. Portanto, este mercado, vamos chamar de chips, é fundamental. Repare que Taiwan sendo bloqueada, e essa é uma das operações militares que a China faz, exatamente tentar bloquear a ilha em pouco tempo, ela fica completamente fechada, se quisermos, depois não poderá haver saída de exportações, não poderá haver saída de produtos e essa será uma das grandes preocupações para as cadeias de fornecimento internacionais do setor tecnológico. Por exemplo, os smartphones dependem substancialmente da produção destes equipamentos ou destes componentes, vamos chamar assim. Veja como seria profundamente preocupante para a economia internacional ficar bloqueada nos semicondutores e com a gestão depois da China. A China depois faria a gestão como se calhar entendesse ou como conseguisse fazer. Isto seria muito preocupante. Sempre que há este incidente devemos estar atentos, de facto, porque pode haver aqui um aumento da conflitualidade. Nós temos um conflito, mas o conflito pode aumentar, pode haver aqui uma escalada, pode haver aqui um incidente, depois haver uma resposta e as coisas descontrolarem-se, sobretudo no momento, e aí é que está a grande questão, que as tensões entre os Estados Unidos e a China são muito intensas, onde nós temos exercícios militares por um lado entre Rússia e China recorrentemente. Tivemos há muito poucos dias exercícios militares conjuntos. Nós temos passagem de aviões e de navios junto ao Japão, mesmo da Rússia e da China, não só em Taiwan. Temos agora estes exercícios. Temos também simultaneamente exercícios pelos outros parceiros, Coreia do Sul, Japão, a China, às vezes a Austrália, a Índia também participa. Ou seja, é uma região, que os Estados Unidos chamam de Indo-Pacífico, muito tensa, muito preocupante e que nos pode levar a um conflito armado, enfim, não podemos tirar essa possibilidade, nos próximos anos, o que seria verdadeiramente preocupante para o mundo. Não está fora de hipótese esta possibilidade, ainda que eu acho que haja aqui um pouquinho de racionalidade no sentido de tentar evitar que isto seja. Por isso é que nós tivemos o presidente Blinken exatamente na China para colocar uma linha vermelha no sentido: nós estamos em competição, nós estamos aqui com competição em áreas fundamentais, nomeadamente tecnológica e nas questões também do Mar do Sul da China, mas não queremos uma escalada. Eu sei que há esta preocupação, mas será que vai ficar sempre esta linha vermelha? Não passará? Não sabemos.
E o que é que acha que falta para que esta tensão escale e efetivamente se dê um conflito?
O que é que falta para chegar a um conflito?
Qual é o passo?
O passo? Bom, nós não sabemos. Repare, os Estados Unidos querem que a questão de Taiwan seja resolvida por via pacífica. Portanto, o fato de Taiwan passar para o território ou para a soberania chinesa, não é nada que o mundo aceite. Os Estados Unidos aceitam isto. E até se calhar os taiwaneses, enfim, por nenhuma parte substancial, aceitam. Agora, esta aceitação, esta integração da China no território chinês, teria que ser do ponto de vista pacífico. Não pode ser feito através das armas. A questão está aqui. A resolução do conflito Taiwan não pode ser pela via militar, tem que ser pela via económica. Houve, aliás, um presidente anterior do Kuomintang, que é o partido mais próximo de Pequim, partido tradicional, na época de Ma Ying-jeou, que era o presidente, houve imensa cooperação, acreditou-se mesmo que nessa altura pudesse haver uma resolução da questão de Taiwan. Os dois presidentes, aliás, encontraram-se em Cingapura na altura. Mas essa decisão terá que caber, por um lado, ao povo de Taiwan, 23 milhões de pessoas, e a resolução terá que ser pacífica. O povo e o país terá que aceitar. O país, vamos chamar país, terá que aceitar. Ora, a China está à espera, evidentemente, deste processo, mas acha que não deve ficar ad eternum sem se resolver, sobretudo numa liderança atual de Xi Jinping, que é, como sabemos, com um teor nacionalista muito forte, com uma exaltação nacional muito forte, é um líder muito poderoso, é um líder que exalta toda esta questão também e que quer ver, e gostaria muito, certamente, de ver agora na sua era, esta questão resolvida. Portanto, o que é que falta? Falta a China, um dia destes, decidir de maneira unilateral, dizer: "Vamos resolver, isso já não dá para aguentar mais". Claro que não seria talvez o momento agora, nós vamos ter eleições em Taiwan em janeiro, ou melhor, temos as eleições antes, mas temos um novo presidente Depois, em janeiro, provavelmente ficará alguém próximo novamente do Partido Democrático Progressista, que é um partido um pouco mais independentista. Isso será preocupante para Pequim. Vamos ver essa evolução, se temos ou não um partido mais próximo de Pequim ou mais afastado, porque Taiwan é uma democracia liberal e, portanto, é importante perceber que há eleições e diferentes tendências políticas. Isso também é importante. Mas se a situação se arrastar, querendo responder à sua questão, se as tensões entre os Estados Unidos e a China aumentarem na região, se a China perceber que cada vez Taiwan está mais longe e não vai conseguir resolver de maneira nenhuma, muito menos de maneira pacífica, nós não sabemos se não faltará esse passo. E esse passo pode vir às vezes das elites militares. Eu sei que o Partido Comunista Chinês procura muitas vezes controlar a máquina militar chinesa. Há um pouco essa preocupação. Aliás, houve recentemente umas mudanças na cúpula do Exército Popular de Libertação. Não sei se teve alguma coisa a ver com esta questão ou não. Pode ser uma decisão de cima, do governo chinês dizer: "Nós vamos resolver a questão de Taiwan, vamos invadir agora e vamos resolver isto, porque não dá para esperar mais". Todas as lideranças chinesas ao longo de décadas disseram sempre isto, que a questão de Taiwan não poderia ficar eternamente sem se resolver. Eles querem resolver, vamos ver. Pode ser a qualquer momento. Pode haver uma intervenção militar, mas, volto a dizer, com consequências trágicas para todos. Trágicas para a China, trágicas para os Estados Unidos e trágicas para Taiwan, sobretudo. Do ponto de vista das consequências, elas seriam más para todos. Se a China perceber que, apesar de tudo, é o que tem menos consequências e se perceber que pode ter um ganho até relativamente fácil, eu acho que está aí o passo. Eu acho que é isso que os Estados Unidos também perceberam. Perceberam que têm que fazer aqui uma dissuasão, reforçar a sua cooperação e suas alianças regionais, mostrar força à China para a China não ter o ímpeto de tentar resolver isto do ponto de vista militar. Não fazer aquilo que a Rússia fez. Eu acho que há aqui o efeito da Rússia. A Rússia começou a achar que era muito fácil resolver a questão da Ucrânia, porque o mundo não reagia. Repare, na Geórgia, na Crimeia, o mundo não reagia. E como não reagia, a Rússia achou que resolveria a questão da Ucrânia muito facilmente. Eu acho que há este impacto na Ásia. E a China também começou a perceber, até pelo Mar do Sul da China, das ilhas que foi ocupando, todas aquelas ilhas do Mar do Sul da China que foi ocupando. Hong Kong, o mundo praticamente não teve grandes reações. Todo aquele autoritarismo em Hong Kong, o mundo não reagiu ou reagiu muito pouco. Começou a perceber, se calhar, que a questão de Taiwan também poderia ser resolvida facilmente, de forma militar. Eu acho que aqui a Rússia e a China entendem o mesmo e haveria este ímpeto de resolver a questão. Ora, o mundo reagiu muito em relação à questão da Ucrânia. Nós vimos toda a reação europeia, a reação da NATO, foi algo surpreendente para a Rússia. A Rússia não contava com isso. E eu acho que a China agora também já percebeu isto. E é isto que os Estados Unidos querem mostrar. Os Estados Unidos não querem uma guerra com a China, mas querem mostrar à China que se tentar resolver a questão de Taiwan, vai ter adversidades. Os chineses não gostam. Não gostam e não gostam desta diplomacia de Taiwan, que também dá força à ilha. Estes contactos com os Estados Unidos, sobretudo com os Estados Unidos, como foi a visita da senhora Pelosi, que agitou Pequim. Por quê? Porque não querem dar oxigênio político ou diplomático a Taiwan, e isto reforça muito o poder da ilha. Eu acho que é aquilo que os Estados Unidos estão a fazer. Estão a mostrar força para dissuadir Pequim de fazer uma intervenção armada exatamente em Taiwan. Vamos ver como é que Pequim vai reagindo. Não gosta, evidentemente, desta presença reforçada dos Estados Unidos na região e pode um dia destes, exatamente porque é uma questão que enerva muito a China, a questão de Taiwan. É uma questão de orgulho nacional, é uma questão de exaltação nacional e do partido também. Se vai perceber um dia que estão a criar cada vez mais dificuldades, "nós vamos ter mesmo que resolver do ponto de vista militar, porque senão nunca vamos conseguir recuperar Taiwan". Está neste ponto, é um ponto perigoso, certamente, mas é mais ou menos isto que, no meu ponto de vista, nós temos aqui.