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O que pensa deste acordo? Acha que foi algo feito à pressa só para resolver a questão?

Eu diria que foi algo que demorou muito tempo a ser equacionado. Já havia várias propostas antes ainda do início da conferência, nomeadamente os países em desenvolvimento, a China, já tinham posto valores em cima da mesa sobre o que gostariam de ver num acordo desta natureza. Durante a semana também houve muitos valores que circularam. A União Europeia deixou transparecer qual era a sua margem de manobra ainda antes da conferência, daí que todos sabiam que intervalos é que estavam em jogo. Agora, é durante a negociação e principalmente foi ao longo dos últimos dois dias que tudo foi procurado ser consensualizado. E não foi fácil, e mais ainda, não recebeu efetivamente o consenso, apesar de este financiamento climático internacional ter sido aprovado. A Índia, a Bolívia, Cuba, entre vários países, manifestaram-se contra já depois do presidente ter firmado o entendimento. Ora bem, não se tratava apenas do valor em si, tratava-se também de saber de onde é que vinha esse dinheiro e quando é que ele o deveria atingir. E também se havia lugar não apenas a uma contribuição dos países desenvolvidos, mas também das economias emergentes, mesmo que de forma voluntária, como é o caso de países com emissões já significativas, quer por habitante, quer no seu total. Estamos aqui a falar, por exemplo, da China e da Arábia Saudita. E portanto, sabia-se do intervalo, sabia-se que havia uma pretensão clara de, em termos de financiamento público, se atingir um valor bem mais elevado. E, por exemplo, os países menos desenvolvidos e os estados pequenas ilhas também gostariam de ver parte deste financiamento alocado apenas ao seu caso. Ora, o que é facto é que não apenas acabamos com um valor relativamente baixo, porque se ponderarmos a inflação, este valor a ser atingido em 2035 acaba por ser pouco maior em relação aos atuais 100 mil milhões de dólares por ano, que estão previstos na primeira aplicação deste tipo de financiamento do Acordo de Paris. Temos o objetivo para 2035 de 1,3 bilhões de dólares, mas no fundo 75% é dinheiro que vem de fontes privadas, de instrumentos que não as doações dos países desenvolvidos, e portanto, houve um natural descontentamento que nós percebemos perfeitamente, porque as necessidades de adaptação climática e de estímulo à transição energética de muitos destes países requerem, de acordo com os estudos recentes, vários bilhões, e portanto, muito acima daquilo que aqui efetivamente ficou garantido.

Então pensa que isto é um indicador que os países desenvolvidos não estão dispostos a fazer o necessário para combater as alterações climáticas?

Eu diria que há realmente uma desresponsabilização. Claro está, os países desenvolvidos têm as suas crises econômicas, as suas dificuldades, as suas limitações de entendimento, mas há uma desresponsabilização relativamente ao seu impacto em termos climáticos ao longo de décadas pelas emissões que foram fazendo desde a Revolução Industrial, utilizando o carvão, o gás natural, o petróleo, e que agora merecia que os benefícios que acumularam ao longo desse tempo para as suas economias, para as suas populações, se traduzisse numa ajuda financeira muito mais substancial. E isso efetivamente não aconteceu. E claro que nós sabíamos que era muito difícil atingir valores tão elevados como acabou por ser efetivamente firmado, porque, como digo, são valores a atingir em 2035, portanto, ainda temos 10 anos pela frente e E são valores que, feitas bem as contas, são um acrescento muito reduzido para aquilo que é a ação climática nestes países, que muito precisam e que, mais ainda, são os que, na maior parte dos casos, mais sofrem e menos emissões, quer atuais quer históricas, têm em termos de contribuição para o aquecimento global.

De uma forma resumida, o que gostava de ter visto nesta cimeira que não viu? Já foi dizendo aqui algumas coisas, mas o essencial, ou seja, essencialmente, o que gostava de ter visto durante a conferência que não viu?

Gostava de não ter visto a pressão, e eu diria quase a manipulação, de muitos países produtores de petróleo, que foi por demais evidente. De ter visto uma outra postura da parte dos países desenvolvidos, com uma abertura maior ao financiamento e ao acordo dos montantes. Gostava de ter visto uma abertura e uma transparência maior na participação da sociedade civil, que ao longo de três anos teve realmente fortes limitações nas conferências que aconteceram no Egito, nos Emirados Árabes Unidos e agora no Azerbaijão. Gostava muito que daqui também tivesse saído um documento forte no que diz respeito à redução de emissões, que é um aspeto absolutamente crucial, e que, olhando para os dados recentes, o que nos apercebemos é de um contínuo aumento dessas emissões de dióxido de carbono ao longo dos anos, quando nós deveríamos invertê-las, baixando-as a partir de 2025 e reduzindo-as a metade em 2030.