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Para nos ajudar a olhar para as conclusões deste estudo, junta-se a nós Ana Escoval, a coordenadora da equipe de investigação "Saúde que Conta". Muito bom dia, Ana Escoval, obrigada por estar conosco neste jornal. Que impacto é que esta falta de literacia em saúde dos cuidadores informais tem no dia a dia, não só destas pessoas, mas também de quem é cuidado?
Bom dia, muito obrigada por este contacto. Há aqui duas pequenas questões que gostaria de referir para situar esta problemática. A primeira é dizer que 92,5% dos inquiridos são mulheres. Também é muito importante referir que a idade média destas pessoas é de 57 anos e acrescentar ainda que cerca de 43% têm um rendimento familiar entre os €700 e os €1.400, e que 41,5% completou o ensino superior. Isto para dizer que nós estamos perante um problema complexo, que é o crescimento exponencial dos cuidadores informais, como sabemos de estudos já desenvolvidos, e um estudo, inclusivamente de 2020, que cerca de 1,4 milhões de cuidadores informais em Portugal estavam já nesta altura e neste momento passaram-se três anos e é uma realidade a aumentar, que tem a ver com o envelhecimento da população e tem a ver com as doenças crónicas. E sabemos por este estudo e por outros estudos também, que vão neste mesmo sentido, que há um nível, cerca de quase 60%, nesta nossa amostra, que tem um nível de literacia em saúde inadequado ou problemático. Se isto é assim, naturalmente, isto coloca problemas graves no acesso à informação, como já foi referido na vossa peça, mas também no cuidar e na própria saúde das pessoas. Se verificarmos igualmente, as pessoas têm uma percepção de que a sua saúde em geral e a sua saúde mental também só anda ao nível do razoável ou até mal e muito mal. Isso significa que temos pessoas que estão pressionadas, sobrecarregadas, algumas trabalham ou em tempo parcial ou em tempo integral e ainda cuidam, no mínimo, à volta de seis horas. Se juntarmos tudo isto, estamos perante uma população que necessita ser considerada, ser atendida. E para isso, nós não podemos dizer que não existem preocupações. E desde 2019 que temos um estatuto. Estatuto esse, do cuidador, que foi aplicado somente em 30 municípios que foram escolhidos enquanto teste, e a partir de janeiro de 2022, foi alargado a todo o país. Mas há aspectos neste estatuto que ainda necessitam de regulamentação, como temos vindo a dizer, e algumas das medidas de apoio ao cuidador informal e até dos direitos laborais destas pessoas, destes cuidadores, que têm que ser obrigatoriamente, pensamos nós, considerados.
E, portanto, há um longo caminho ainda para dar estatuto e condições aos cuidadores informais.
Sim, as nossas recomendações vão muito no sentido de que sejam pressionados, digamos assim, os decisores políticos sobre estas necessidades imperiosas de uma implementação efetiva deste Estatuto do Cuidador, mas sobretudo também, estamos a falar de pessoas que têm um nível de literacia, como também já referi, inadequado ou problemático, que saibamos ver como podemos fazer chegar a todas estas pessoas a informação necessária para beneficiarem desse estatuto. Mas haverá a necessidade de conjugar outras medidas, como por exemplo, de acordo com tudo isto, sensibilizar, por exemplo, as entidades empregadoras para a exigência deste papel do cuidador informal. Tem sido fácil e foi fácil no passado, mais ou menos, sensibilizar as entidades empregadoras para ser mãe, para ser pai, para esse estatuto, e agora estamos num outro patamar. É o de cuidador informal, o de cuidar daqueles que muitas vezes já cuidaram de nós.