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A minha primeira questão é se podemos confiar nesta informação, se é fidedigna, se há aqui alguma margem de erro ou não. Este estudo cita dados sísmicos.

Exatamente. Isso não é observado, isso é inferido através de uma monitorização que foi feita durante bastante tempo com sensores sísmicos, mas também com aspectos geológicos da formação de Marte. Tem a ver com o deslocamento inclusive de sedimentação de rochas e infere-se da porosidade, como referiu, e também da possibilidade de ter havido a água à superfície e estar infiltrada em profundidades da ordem entre os 10, 20, 25 km. Agora, é como disse, é inferido, é um estudo em que se fazem muitas vezes medidas indiretas, mas tudo aponta que sim, que os dados e a investigação são sérios, com base em dados que foram desde 2019 a 2020, através da sessão em Marte, InSight. É de referir também aqui uma questão importante: a gravidade em Marte e o fraco campo magnético não são fatores que façam com que Marte mantenha uma atmosfera densa e que fixe uma atmosfera. Aliás, a atmosfera de Marte é composta essencialmente de dióxido de carbono, e toda a evaporação, em particular da água, pode ser também enviada ou dispersada no espaço. Daí a novidade de haver água não é uma grande novidade, nós sabemos que nos polos há sob a forma de gelo. Esta é a novidade, no estado líquido, em profundidade, com pressão, a 20 km.

Era precisamente aí que eu queria chegar. Muda alguma coisa daquilo que nós conhecemos sobre o planeta Marte, daquilo que a humanidade tinha como a imagem do planeta?

Repare, cada conhecimento que se ia crescendo muda alguma coisa sempre. O que nós podemos fazer a pergunta é qual é, em termos de benefício ou em termos daquilo que é a perspetiva, por exemplo, para a exploração espacial. Terá algumas implicações? Obviamente que sim, é importante a água, a água é importante como uma componente. A água é separada em oxigênio e hidrogênio. E o oxigênio é importante para formar os sistemas de propulsão, ou seja, a mobilidade. E a mobilidade entre planetas é extremamente importante haver acesso à composição de combustível. O oxigênio em particular. É importante naquilo que é a exploração espacial e a perspetiva de estabelecer em Marte de uma forma mais permanente o estabelecimento de capacidades também para explorar aquilo que é a presença do homem no sistema solar. Colocam-se aqui questões práticas, muito pragmáticas. Se nós estamos a falar em profundidades maior que 10 km, 20 km, nós podemos perceber que há uma complexidade enorme de extração da água.

Também queria perguntar-lhe sobre isso, porque nós mesmo na Terra temos dificuldade em fazer perfurações muito profundas. Acho que seja da ordem de 1 km já é difícil e aqui, em Marte, estamos a falar entre os 11 e os 20.

É, essa que é a questão, e em particular a questão da tecnologia para fazer. Tem que ser robótica, obviamente. Durante uma fase inicial, até se construir algum tipo de permanência. Nós estamos a falar com anos à nossa frente. Anos, décadas. Esta ilusão de que Marte é já ali e que por alguém dizer que é fácil ir a Marte, é tudo menos fácil. Nós, se olharmos para a história da ida do homem à Lua, o homem ainda não retornou à Lua desde 1972. É uma epopeia enorme, tem condições absolutamente inóspitas e para explorarmos, chegamos ao ponto de explorar, não só a água, mas os minérios para se estabelecer uma colônia na Lua, nós estamos talvez a 50 anos de distância. 40, 50 anos de distância. Isto é algo importante para o conhecimento, mas em termos práticos, é algo que depois entrará, obviamente, naquilo que é a definição das futuras missões, mas nunca a curto prazo.

Ou seja, poderá ter impacto na exploração de Marte por parte da humanidade, mas só daqui a alguns anos.

Sim, primeiro tem que se estabelecer aquilo que nós chamamos toda uma tecnologia em órbita, uma permanência em órbita. Repare que nós, na Estação Espacial Internacional, estamos em períodos. Os astronautas vão em períodos máximo de seis meses e são, de alguma forma, substituídos. Repare, a nossa permanência em órbita, porque temos condições e afeto também, a condição humana, portanto, é cada vez mais sempre muito orientado naquilo que é a parte robótica. Tem que haver uma maior permanência em órbita para uma maior fabricação em órbita, uma maior capacidade de industrialização em órbita e daí damos o passo para se estabelecer. Já na Lua é complicado, tem outras Obviamente tem outros desafios, a ausência da atmosfera, por exemplo, mas Marte também é um ambiente inóspito e remoto. São duas coisas que estão associadas a uma dificuldade enorme, mas que com a evolução da tecnologia, daqui a uns anos, obviamente teremos condições de fazer.

E esta descoberta de água em estado líquido poderá ser um indicador que aponte para poder existir vida em Marte? Falamos, obviamente, de micro-organismos.

É. A vida está associada. As condições naturais para aparecer a vida conforme nós a conhecemos, a realçar esse aspeto, está dependente da pressão, da temperatura, dos intervalos e está dependente da existência de água. Claro que seria um passo extremamente importante. Chegamos à conclusão que nas profundidades, eventualmente, existam seres enormes de água, esses oceanos de água, pudesse existir uma capacidade de se gerar vida ou haver mesmo vida. Esse, se calhar, é o Santo Graal do conhecimento. E depois como é que essa vida pode evoluir. Penso que será as duas dimensões: a exploração espacial e o conhecimento, eventualmente, que não só aqui na Terra, mas no nosso sistema solar próximo poderá haver vida. Essa seria a grande descoberta.

Portanto, é um passo para frente da exploração do planeta, mas não tão rapidamente, se calhar, como alguns pensam.

Sim, não. Nós vivemos numa época em que tudo parece muito rápido, muito imediato, mas a condição de exploração espacial, a condição humana, a presença em ambientes hostis é, de facto, muito arriscado. Veja-se, por exemplo, o que está a acontecer agora para a retirada dos dois astronautas que estão na Estação Espacial Internacional. Estamos a falar de vidas. E tudo que envolve a presença do homem em órbita é complexidades enormes: a radiação, a exposição a ambientes de microgravidade que altera completamente o nosso ciclo biológico. E imagine que daqui a Marte, com os sistemas de propulsão que nós temos hoje, nós demoramos ir e vir à volta de, no mínimo, um ano e meio. Imagine o que é estabelecer algum tipo de colônia, de uma maior permanência em Marte com esses tempos, com todo um sistema logístico que é necessário. E depois a própria capacidade humana de resistir esses longos períodos expostos às radiações, à ausência de gravidade. E o homem é um ser não só biológico, mas essencialmente psicológico. Imagine os desafios que nós estamos aqui a falar. Quando alguém diz que isto é um ponto de partida, e agora com esses novos lançadores, um ponto de partida para colonizarmos a Lua e depois irmos a Marte, dá uma certa sensação que isto é tudo quase para amanhã. Mas não é. Vai passar muito tempo e talvez daqui a 40 anos, 20, 30, 40 anos, possamos estar em condições de, eventualmente, com novos sistemas de propulsão, ir a Marte.