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Eu ia começar por perguntar, tendo em sido vários esses projetos apresentados para a nova travessia sobre o Douro, se esta é mesmo para avançar e que opinião é que transmitiram os autarcas que também há algum tempo anunciaram essa intenção de avançar com uma nova ponte.

Sim, mas são mesmo coisas diferentes. A ponte que eu conheço promovida pelos autarcas é uma ponte à cota baixa na parte oriental das cidades para fazer uma ligação rodoviária. Esta é uma ponte exclusivamente para transporte colectivo, é uma ponte para o Metro do Porto. Naturalmente, terá passeios generosos onde se possa andar de bicicleta e a pé, mas é uma ponte só para o Metro do Porto, que se integra num dos projetos que já está identificado no PRR e que, sobretudo, muito antes disso, vem identificado nos próprios estudos da Área Metropolitana do Porto para a expansão do metro. É uma linha que irá da Casa da Música, passará sobre esta ponte, irá à Estação das Devesas e depois até Santo Ovídeo, com um valor de investimento de € 300 milhões. Só que num dos projetos, para além das duas obras que se iniciam hoje, que representam quase € 400 milhões de investimento, a expansão da linha amarela de Santo Ovídeo a Vila d'Este, a construção da linha rosa no centro da cidade do Porto, passando ao Hospital de Santo António. Estas são obras muito complexas que têm que ser naturalmente projetadas com todo o cuidado, mas nenhuma delas tem uma coisa tão superlativa como é fazer uma ponte sobre o rio Douro. PRR, Plano de Recuperação e Resiliência, também quer dizer pressa. Pressa na execução para que se possa recuperar a economia portuguesa. Mas há coisas que não se fazem depressa. Uma ponte entre duas fragas do Douro, entre o Campo Alegre e a Arrábida do outro lado, onde a 500 metros da ponte Arrábida, que é uma obra maior do que a Rei Carlos I, não muito longe do maior arco em ferro que existe no mundo, que é a Ponte Luís I, tem que ser uma ponte que tem mesmo que ter por detrás um magnífico projeto, um projeto de engenharia de grande qualidade, de grande integração estética. O rio Douro no Porto e Gaia é muito valorizado pelas pontes que tem. E nós queremos aqui construir uma ponte igual no preço, igual qualidade, porque todas elas são de facto pontes extraordinárias e, por isso, mais tempo. Se nós temos pressa no PRR e se aqui, neste caso, não podemos andar depressa, começamos mais cedo, começamos por aqui, por um concurso de ideias para escolher três pré-projetos que concorrerão entre si para depois termos um projeto de grande qualidade para esta ponte sobre o rio Douro.

E deixe-me ir a essa questão do Plano de Recuperação e Resiliência, porque a Europa tem criticado os investimentos que foram inscritos do ponto de vista rodoviário. Esta ponte ser 100% exclusiva para o metro é também uma tentativa de não deixar escapar esse apoio europeu?

Não, de todo. São coisas completamente separadas. Esta ponte, pensada aqui no Ministério do Ambiente, tem sempre pensada como uma ponte exclusivamente para o transporte coletivo, o que significa também poder ser uma ponte, ainda com um vão não é muito significativo, mas uma ponte mais belta e portanto com menos cargas. É uma ponte para o metro e foi assim pensada desde o início. Não há aqui nenhuma tentativa de comparar coisas. Aliás, desde a primeira proposta do PRR, que esta linha, que pressupõe necessariamente esta ponte, está inscrita neste mesmo plano que o Governo português apresentou.

E à questão do Metro do Porto, para lhe perguntar qual é que vai ser o impacto no dia a dia, na circulação, na área metropolitana, e se nesse sentido, os estudos que foram feitos para avaliar esse impacto, se não terão que ser reavaliados tendo em conta os novos hábitos que vão ocorrer depois da pandemia.

O ano de 2020 é de facto um ano que dificilmente figurará nas estatísticas do transporte coletivo. Nós, com o plano de apoio à redução tarifária, conquistamos milhões de passageiros para o transporte coletivo. Só nas empresas públicas tivemos um aumento de 9% da procura durante o ano de 2019. E por isso, o impacto ambiental destas novas linhas e do que virá a ter esta ponte é certamente muito positivo. É aí que nós queremos fazer o nosso investimento. Para ter uma ideia, porque essa conta já está feita, relativamente à ponte ainda não, imagina, mas relativamente à expansão da linha amarela e à construção da linha rosa que se iniciam hoje, estamos a falar de retirar das ruas 17 mil automóveis por dia. Portanto, há aqui uma transformação muito grande em prol do transporte coletivo, que é a nossa aposta. Não queremos condicionar as opções de ninguém. Queremos valorizar o transporte coletivo, de preferência elétrico, para ter zero emissões, porque quanto melhor for essa oferta, mais disponíveis também estarão as pessoas para mudar de hábitos e passar a usar o transporte coletivo. O transporte de passageiros em Portugal e no resto da Europa os números não são muito diferentes. É responsável por cerca de 25% das emissões de gases carbónicos. Nós temos o nosso plano, o Plano Nacional de Energia e Clima, um objetivo que temos que cumprir, que é de reduzir as emissões dos transportes em 40%. Transportes, todos eles. E estas obras são fundamentais para que isso venha a acontecer.

Deixe-me fazer aqui uma extrapolação, até porque é um projeto que pode não ser do seu ministério, mas é também membro do Conselho de Ministros. E esta questão da travessia sobre o Douro pode ou não abrir aqui novamente o debate sobre a travessia sobre o Tejo, que também já é um debate antigo, ou para já acha que é primeiro preciso resolver o problema do aeroporto para depois entrar nessas questões paralelas?

A travessia sobre o Tejo é mesmo um projeto que não está a ser discutido. Imagino que quem tiver a tutela, neste caso concreto, possa estar a discuti-lo, mas não é neste momento um projeto que esteja em cima da mesa e que esteja a ser discutido Nós conhecemos, porque foram entregues nomeadamente a este ministério, as inúmeras intenções de investimento no transporte colectivo pela área metropolitana de Lisboa. Assumidas por este ministério, estão já o prolongamento da linha vermelha até Alcântara, está já o novo light rail desde Odivelas até Loures. Certamente novos projectos vão em breve ser anunciados no contexto do que virá a ser o futuro quadro comunitário de apoio. De nenhum deles consta uma nova travessia do Tejo.

Deixe-me ir à questão do financiamento destes projectos. O Fundo Ambiental vai ser um dos locais onde virá esse financiamento. É também um fundo que este ano está mais reforçado, mas eu perguntava-lhe, pegando também naquilo que já me referiu de 2020 ser um ano histórico para a utilização dos transportes públicos, se teme que tenha que sair também aqui uma fatia financeira para injectar capital nas empresas com participação pública de transportes, e aqui falo também, por exemplo, da CP, que já recebeu essa injeção, mas que poderá ter que necessitar de outras. Teme que tenha que se ir aí buscar dinheiro para compensar essas perdas?

Vamos lá ver. O ano histórico foi o ano de 2019. O ano de 2020 foi um ano histórico por sacar razões, de facto, a procura desceu imenso. Só no ano de 2020, financiado pelo Fundo Ambiental, foram injectados 190 milhões de euros nas empresas de transporte, nas públicas e nas outras, até porque se pensarmos em número de empresas, as empresas públicas de transporte são para aí 2% do número global das empresas de transporte, particularmente transporte ferroviário, que existem no país. E o orçamento do Fundo Ambiental já está preparado para tal. Só parte que deveriam ser 138 milhões de euros, são 198 milhões de euros que estão previstos para este ano. E ainda há uma componente de mais 30 milhões de euros a mobilizar, se for necessário. Vamos acreditar agora com o desconfinamento, com a vacinação, com o reduzir da intensidade da pandemia, que também a procura do transporte colectivo volta ao normal, porque se eu comparar o mês de janeiro de 2021 com o mês de janeiro de 2020, que é pré-pandemia, a procura este ano, neste mês de janeiro, foi 27% do mês de janeiro passado. Portanto, é uma diferença brutal e obviamente isso traz um peso nas contas das empresas, mais ainda quando, como sabe, com as decisões que foram tomadas, nós impedimos um conjunto de sectores de poder funcionar. E aos transportes fizemos o oposto, obrigamo-los a continuar a funcionar. E por isso mesmo, com muito menor procura, a estrutura de custos não se reduziu, os resultados negativos são uma evidência, mas isso é consequência da pandemia que nós temos que depressa fique de lado.

E portanto, há essa preparação, essa mentalização para ter que ajudar mais essas empresas.

Sim, repare, os transportes colectivos nunca pararam. Nunca nenhum serviço essencial parou. E muitos dependem aqui do nosso ministério. A energia, a água, a recolha de resíduos, o tratamento de esgotos, os transportes e com uma grande abnegação dos trabalhadores, com muito boa gestão do que foi a segregação das equipes, ter equipes a trabalhar em espelho, nós conseguimos, de facto, não quer dizer que em alguns casos não tenhamos tido grandes preocupações, mas nunca houve nenhuma interrupção no serviço. E se falo no caso dos transportes, em que ao longo do ano a procura se reduziu em cerca de 50%, a oferta só se reduziu em 3%. E com isto conseguimos nunca provocar nenhuma redução da oferta nos extremos dos horários. O que eu quero dizer com isso é que às 6:00 e à meia-noite, normalmente quem anda de transporte colectivo não tem mesmo alternativa possível. Estamos a falar de pessoas que vão trabalhar para os hospitais. Estamos a falar de pessoas que trabalham em empresas de segurança, em empresas de limpeza, e nós nunca cortámos a oferta no sentido de o que começava às 6:00 passar a começar às 8:00, que a procura é pequena. Nunca, isso nunca foi feito em lado nenhum e conseguimos sempre servir quem não tinha outra alternativa.

Senhor ministro, para terminar, e porque agora o governo também já está a pensar neste calendário do desconfinamento, perguntava-lhe se nas reuniões de Conselho de Ministros os debates vão ficando mais acesos com estas divergências entre quem olha mais para a saúde e mais para a economia, se vai sentindo também que já há essa margem para se poder debater mais sobre o futuro.

Eu nunca falarei sobre os debates do que se passa em Conselhos de Ministros, são absolutamente segredo. Estamos todos muito preocupados com a saúde dos portugueses, estamos todos muito preocupados com a necessidade da recuperação económica e para isso o plano de recuperação e resiliência é fundamental e para isso temos que começar depressa. E o lançamento deste concurso de ideias é exatamente um bom sinal, não digo da nossa preocupação, um bom sinal da forma como se combate esta nossa preocupação.

Mas são mais intensas ou não essas conversas entre todos?

Não irei comentar. O que se passa em Conselhos de Ministros não é para ser trazido a público. O que é trazido a público é através do comunicado do Conselho de Ministros, que acontece no final de cada Conselho de Ministros e, como sabe, por razões do Covid, até nas últimas semanas, nos últimos meses, com uma presença física do senhor primeiro-ministro a dizer o que têm sido as conclusões do Conselho de Ministros, que importa são as conclusões e não a discussão, está bem?

Está bem