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Junta-se a este jornal Isabel David, é professora de Relações Internacionais no Instituto Superior de Ciências Sociais, também especialista em política turca. Bom dia, Isabel David, obrigado por estar em direto conosco. Começo por lhe perguntar se o resultado destas eleições configura uma surpresa e, já que se vier a confirmar, será a primeira derrota de Erdogan em mais de duas décadas.
Bom dia. Sim, de facto, uma enorme surpresa, de acordo com as sondagens que foram feitas vários meses antes das eleições, e é um falhanço muito grande dessas sondagens. De facto, ninguém esperava. Esperava-se, eventualmente, uma vitória de Ekrem Imamoglu em Istambul, embora houvesse algumas sondagens que dariam um quase empate entre os dois candidatos principais, Imamoglu e o candidato do AKP, mas em tudo o resto é uma grande surpresa. Ninguém esperava estas primeiras vitórias do Partido Republicano do Povo desde 1977, desde as eleições legislativas de 1977. É uma vitória muito histórica para este partido e a primeira derrota do AKP desde 2001.
E o que justifica este resultado? É um bom momento da oposição ou é o cartão vermelho para o atual regime e para o atual governo?
Houve algumas mudanças na oposição, desde logo a mudança de liderança no Partido Republicano do Povo, o senhor Özgür Özel ganhou as eleições dentro do partido, que teve essas eleições na sequência da derrota nas eleições presidenciais no ano passado. Houve aqui alguma energia extra da oposição. Também o facto de Erdogan não ter feito campanha pelo AKP terá tido impacto nestes resultados, mas também muito a questão da economia, como referiu as taxas de inflação e também a subida consecutiva das taxas de juro do programa de estabilização econômica do ministro da Economia, Mehmet Şimşek, que obviamente tem diminuído o poder real dos salários e houve, nas vésperas da eleição, um aumento das taxas de juro que também foi uma surpresa, uma vez que se estaria à espera que o AKP não fizesse esse aumento das taxas de juro nas vésperas das eleições. A questão económica é aqui uma questão fundamental. Também aqui um partido, o Yeniden Refah, que é um partido que roubou bastantes votos a Erdogan, sobretudo nas cidades mais conservadoras do interior. Tudo isto ajudou a esta derrota.
E o que se pode esperar do presidente turco? De que forma é que ele poderá dar resposta a estes resultados? Qual poderá ser o próximo passo de Erdogan para tentar dar a volta a estes resultados?
No discurso ontem, ele admitiu a derrota, não fez como há cinco anos, nas eleições municipais, em que no resultado de Istambul, houve uma vitória muito à tangente da oposição e ele mandou repetir as eleições em Istambul e depois o eleitorado penalizou-o claramente nas urnas, dando novamente a eleição a Ekrem Imamoglu. Neste caso, ele admitiu a derrota e disse que ouvia o voto de protesto do povo e que o partido ia trabalhar para ganhar as próximas eleições e para resolver os problemas económicos, também para resolver os problemas e a habitação na zona impactada pelo terramoto. Também disse que ia lançar uma grande operação contra o PKK. Esse também é sempre um fator que os partidos no poder, nomeadamente o AKP, têm procurado usar desde 2015. Erdogan diz que vai procurar responder aos anseios da população e que nos próximos quatro anos não haverá eleições e o partido terá a oportunidade de trabalhar para ter outro tipo de resultados nas próximas eleições.
E podemos esperar, Isabel David, nessas eleições, nas próximas presidenciais, Imamoglu como a cara mais provável para concorrer contra Erdogan?
Sem dúvida, é a figura da oposição mais bem-sucedida nestes 23 anos desde que o AKP está no poder. Ele deveria ter sido claramente o candidato da oposição às presidenciais no ano passado, mas é claramente a figura mais bem-sucedida do principal partido da oposição nestes anos e sem dúvida, se tudo correr de acordo com o esperado, ele vai ser o próximo candidato. Porque é um homem que, para além de ter esta imagem, é um homem que simboliza aquilo que são todas as contradições da Turquia. É um homem religioso, que vai à mesquita, que reza, mas que bebe ao mesmo tempo, a sua mulher não usa lenço. É uma família secular/religiosa, que representa todas as contradições principais da Turquia. Claramente, se tudo correr como esperado, vai ser o grande candidato da oposição em 2028.
Isabel David, muito obrigado por ter estado em direto conosco, é professora de Relações Internacionais no Instituto Superior de Ciências Sociais, também especialista em política turca. Ajudou-nos aqui o olhar para os resultados das eleições municipais na Turquia