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Pedro Sousa, adjunto técnico do Comandante do Regimento de Sapadores Bombeiros. Antes de mais, muito obrigada por ter aceitado falar conosco. Hoje faz precisamente uma semana desde os dois sismos que aconteceram no dia 24 de junho. Era feriado nacional, já por volta das 18h. Ao dia de hoje, já se contam quase 2 mil mortos, entre os quais, segundo os dados mais recentes, 71 portugueses ou lusodescendentes, muitos feridos e milhares de pessoas ainda por encontrar. Pergunto-lhe: ainda há esperança de que essas pessoas desaparecidas, a partir de agora, sejam encontradas com vida?
Muito bom dia. Antes de mais, agradeço este convite. Nestes momentos, é extremamente difícil nós encontrarmos alguém com vida. Estamos a falar de uma janela temporal que encerra já bastante as 72 horas que nós temos definidas aqui como a janela em que basicamente só temos a maior probabilidade de encontrar pessoas com vida. Neste momento, as vítimas que nós temos tido conhecimento que têm sido resgatadas com vida, encontram-se sempre em situações muito favoráveis. Quero com isto dizer que ou se encontram em espaços vazios, em que isso proporciona alguma circulação de ar, ou, em outros casos, têm acesso a água ou eventualmente até a comida, ou mesmo, na maioria dos casos, as lesões que eventualmente tenham também não são lesões graves, quer se tratem de fraturas, quer se tratem de hemorragias. Nestas circunstâncias, nós dizemos na GIREC que são verdadeiros milagres, são exceções. Aquilo que tem sido feito da nossa parte enquanto FELCOM, basicamente em articulação com a coordenação institucional das Nações Unidas, sob a coordenação com as autoridades locais, é fazer aquilo que são as nossas valências, busca cinotécnica, com recursos também à nossa capacidade em termos de drones e com o empenho dos nossos elementos, quando estes recursos de avaliação e detecção nos dão indicação de work sites válidos para que nós empenhemos estes nossos meios diferenciados.
E acredito que nesta altura, além da fraca probabilidade de encontrarem vítimas com vida, as condições humanitárias são também bastante preocupantes.
Sim, nós encontramos um país em termos de organização completamente não há nenhuma estrutura que nós consigamos dizer que está a coordenar os meios e os agentes de proteção civil. Há uma disrupção completa em termos do governo. E nestas circunstâncias, a intervenção das equipas internacionais é fundamental para aquilo que é a coordenação destas equipas diferenciadas sob o chapéu, obviamente, das Nações Unidas.
Vamos só recuar aqui um pouco no tempo. Pergunto-lhe quando é que chegaram e por quantas pessoas é composta a equipa de sapadores bombeiros que está neste momento no terreno.
A nossa força operacional conjunta é composta por 62 operacionais da Guarda Nacional Republicana, do Regimento de Sapadores Bombeiros de Lisboa, do Instituto Nacional de Emergência Médica e da Força Especial de Proteção Civil e coordenada pela Autoridade Nacional de Emergência de Proteção Civil. Nós chegámos ao país, isto já me falha um bocadinho a memória, porque já são bastantes horas. Nós saímos sexta-feira, tivemos uma viagem de 16 horas, sensivelmente. Aterrámos sábado. No primeiro dia, tivemos a ajuda fundamental do Cônsul Português aqui na Venezuela, que nos permitiu, logo, por relações e contactos que já haviam sido efetuados com o governo português também, ter acesso a transporte já no local. No aeroporto da nossa chegada, já tínhamos veículos que deram a capacidade para transporte dos nossos homens e já tínhamos também duas camionetes para que fosse possível fazermos o transporte de toda a nossa carga. Quando chegámos, foi desenvolvido primeiramente um trabalho de avaliação das condições de segurança e de circulação. Tivemos acesso à escolta e fomos à localização onde está a organização, o comando de todas as forças internacionais, sob coordenação das Nações Unidas. Fomos à célula onde está a coordenação das equipas USAR e foi onde obtivemos vária informação, quer do ponto de vista da cartografia, quer do ponto de vista da setorização, que já havia sido implementada antes da nossa chegada, e foi também onde recebemos a localização de alguns locais onde era possível nós estabelecermos A nossa base de operações, que é aquela informação também crucial para que nós consigamos, no fundo, ter início das nossas operações. A localização que nos foi dada inicialmente era uma, nós já tínhamos informações de um possível local através do cônsul português que oferecia, à partida, muito boas condições em termos de espaço, em termos de segurança e de localização. E optámos por fazer o reconhecimento dessa base nesse próprio dia. Cerca de 10, 15 minutos demorou a viagem, uma vez que a base de operações se encontra no centro de Busova venezuelana. Fizemos aqui o reconhecimento. A base tem muito boas condições, quer do ponto de vista da segurança, porque tem todo um muro à volta que impede que haja situações sensíveis do ponto de vista do security. No interior, verificámos que havia condições para acomodar os nossos operacionais com as condições mínimas que se querem para estas operações. Temos também algumas infraestruturas que permitiram a montagem do nosso posto de comando e instalações sanitárias que também facilitaram e muito os nossos trabalhos. Foi feito neste primeiro dia, basicamente, a seleção da base de operações, foi montada a base de operações e foi essa a prioridade, de forma a que ficássemos o mais rapidamente possível disponíveis para ir para o terreno operar. Depois, no dia 27, no dia 28, no dia 29 e no dia 30, continuamos as nossas operações, com vários locais onde efetuámos os nossos trabalhos de busca e extração.
E há um plano definido para isso?
Peço desculpa, não percebi a sua pergunta.
Estava a perguntar-lhe se, tendo em conta uma vez estabelecida a base e o posto de comando, se a partir daí foi estabelecido, até em coordenação com as autoridades e com as Nações Unidas, algum plano específico para executar as operações de resgate.
Sim, nós atuamos em coordenação com o comando aqui existente. Ou seja, nós sendo equipas USAR, estamos sob a alçada da célula de coordenação das equipas USAR, que designamos como USAR Coordination Cell. A USAR Coordination Cell foi dividida em vários setores e cada setor tem um comandante de setor. Nós estamos assignados ao setor Charlie, coordenado pela equipa dos Estados Unidos, e desde esse momento recebemos instruções de locais para nós efetuarmos uma avaliação, verificar se nesse local que nos é assignado existem condições para operarmos, quer do ponto de vista de vítimas que se encontrem vivas e na eventualidade de encontrarmos vítimas vivas. Depois inicia-se o processo da intervenção operacional, que segue o protocolo de intervenção destas equipas USAR.
Até agora, as operações de busca e resgate têm sido bem-sucedidas, têm conseguido retirar pessoas ou vivas ou mortas, mas têm tido esse sucesso?
Infelizmente, os locais onde temos sido destacados, temos encontrado bastantes locais apenas com cadáveres. Os nossos cães, que é um elemento fundamental, fazem a busca nos locais que nos são destacados. Não tem havido marcação. O único local onde houve marcação, efetivamente, foi o local onde nos encontramos agora. Estamos a desenvolver as nossas operações há cerca de 48 horas. Aliás, já passa as 48 horas sensivelmente. E é aí que temos encestado todos os nossos esforços e é aí que temos sido bastante resilientes, porque estamos a falar de uma operação de natureza e complexidade extremamente elevados.
Neste processo todo, houve alguma história que vos tenha marcado um pouco mais, algum episódio?
Olhe, vou ser muito sincero. Daquilo que têm sido os relatos dos nossos operacionais, nós temos encontrado muita destruição e temos encontrado também muitas, muitas pessoas nos locais onde temos sido destacados num luto, e um luto que não é completo, porque para que haja esta missão, as equipas USAR, o seu objetivo é basicamente intervir em locais onde há vítimas com vida. Em locais em que haja cadáveres, nós simplesmente fazemos as nossas marcações de acordo com o que são as diretrizes da INSARAG, mas não intervimos, não empenhamos os nossos esforços, porque os nossos esforços, os nossos recursos Têm de ser empenhados, sim, em locais onde haja a probabilidade de resgatar vítimas com vida. Aquilo que nós temos visto é exatamente isso, contactar com o sofrimento, com a dor, com a pobreza extrema que nós temos visto nos vários locais onde temos ido. E a história é, sem sombra de dúvida, este resgate onde estamos envolvidos já há mais de 48 horas, pela sua elevada complexidade, por tudo aquilo que isso tem implicado, quer do ponto de vista da gestão emocional dos nossos homens, quer do ponto de vista também da gestão emocional das pessoas que estão envolvidas neste resgate, porque este é um resgate que está a ser vivido intensamente pela comunidade local.
E em que região é que é?
A região é a localidade de La Guaria. O edifício é o edifício Capilla Mar, localizado nas traseiras do centro comercial Galerías Playa Grande, onde temos efetuado o acesso ao local onde se encontra a vítima, através das garagens no piso menos dois.
E só saem daí agora quando sua missão estiver totalmente cumprida, certo?
Sim, nós queremos acreditar que sim. Nós temos mantido, como lhe disse, nestas 48 horas após a marcação da busca cinotécnica e com a intervenção do nosso equipamento sonar, onde nós conseguimos ter mais ou menos uma noção aproximada da localização da vítima. Tem sido aí que nós temos efetuado todos os nossos esforços. É uma operação de elevada complexidade. Tem sido sujeita a diversas interrupções, porque as condições de segurança são muito desfavoráveis e uma análise tem que ser feita de forma a garantir a segurança dos nossos operacionais, que estão a efetuar a progressão. E essa progressão tem sido muito demorada, porque tem sido basicamente só com recurso a ferramentas manuais, de maneira que não cause muita vibração na estrutura, de forma que também não haja nenhum colapso de nenhuma estrutura que esteja acima deles. É uma operação muito sensível, muito sensível mesmo.