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O amigo André Nunes é um dos nomes da escalada portuguesa. O escalador que já foi 18 vezes campeão nacional e esta manhã, precisamente nos Jogos de Tóquio, pela primeira vez, a modalidade subiu a estatuto olímpico. A escalada tornou-se agora também uma modalidade olímpica. Não posso deixar de lhe questionar, André, como alguém que está ligado à escalada e ainda por cima de uma forma tão afincada, como é que olha para esta subida de estatuto a olímpico?
Antes de mais, obrigado pelo convite para participar. Eu olho com bons olhos. O chavão olímpico é algo que traz um peso e, de certa forma, uma responsabilidade e várias vantagens para a modalidade também. Coloca-a na ribalta. Eu pratico escalada há 20 anos e para mim e para um grupo de pessoas que também pratica mais ou menos ao mesmo tempo e que temos um percurso semelhante em termos de tempo, é algo um pouco surreal. Porque quando começámos a escalar, e há pessoas que começaram antes de mim, parecia mesmo meio de gatos pingados. E hoje em dia é um desporto olímpico e está na televisão em direto pelo mundo inteiro e com provas com organizações excelentes. E isso é bom, é impressionante.
Nestes Jogos Olímpicos existem três vertentes: a velocidade, o boulder e a dificuldade, o lead. Também numa explicação um pouco mais leiga, porque acredito que a maior parte das pessoas ainda desconheça exatamente no que consiste a escalada. O André consegue dar-nos essa explicação mais técnica?
Sim, é relativamente simples. É fácil pensarmos a velocidade, como o próprio nome indica, é explorar a vertente da velocidade, ou seja, quem chega mais rápido a certo sítio. Neste caso, a velocidade, a via de escalada é sempre a mesma, não há qualquer tipo de alteração. Já há muitos anos, desde o início que se começou a praticar, e é praticado com corda. A via tem 15 metros e é sempre igual, sempre a mesma via, todas as competições e os atletas podem treinar ou montar esta própria via nos seus locais de treino e treiná-la. O boulder é uma disciplina que é praticada com colchões de segurança. Em vez de ser com corda, as estruturas vão até aos 4,50 m no máximo e são colocados colchões por baixo e a queda é amparada com colchões. E aí são montados desafios entre os três, quatro movimentos até aos 15, mais ou menos. Onde se procura explorar um bocadinho mais de força explosiva, vertente técnica. Hoje em dia existe uma grande diversidade de movimentos tipo parkour e coisas assim, coordenação, mais espetaculares. E depois temos a dificuldade. A dificuldade é, digamos, a clássica escalada. É uma via que a estrutura também tem em média até 15 metros, em que não é pensada para se escalar rápido, mas sim para ser de alta dificuldade, em que ganha quem chega mais alto. Portanto, o objetivo é que a via seja tão difícil que o vencedor da prova talvez seja o único a chegar ao topo da via ou muito perto, e se consiga escalonar os diferentes resultados com a dificuldade da via. Nos Jogos Olímpicos, existe uma coisa diferente, que é os resultados são a somatória das três disciplinas. Isto por quê? Eu posso explicar mais ou menos qual é o processo para chegar até este ponto. A escalada velocidade é talvez a menos praticada, ou digamos, a menos explorada em competição, porque a essência da escalada não é chegar lá rápido, é chegar lá. Mas a prioridade é a mais antiga, a dificuldade. O boulder tomou uma grande proporção também e tornou-se muito importante. E a velocidade não é que seja menos importante, mas é menos praticada, menos relevante para a própria comunidade de escaladores. Mas era a união destas três disciplinas que permitiria, por exemplo, atingir um recorde olímpico. Isto para o Comitê Olímpico Internacional e para a Federação Internacional foi um marco importante para conseguir ter escalada nos Jogos Olímpicos. Para os praticantes, para os atletas, para as federações, para o país, era não. Não creio que fosse a única disciplina a ser eleita para participar nos Jogos Olímpicos. Então, o Comitê Olímpico Internacional e a Federação Internacional encontraram o equilíbrio com o formato combinado, ou seja, juntarem as três disciplinas na mesma prova e conseguirem obter o resultado através das três disciplinas, porque, na verdade, não existe nenhuma prova, Campeonatos do Mundo e Copa do Mundo, das três disciplinas em conjunto. Existe o Campeonato Mundial de Dificuldade, o Campeonato Mundial de Boulder e o Campeonato Mundial de Velocidade.
Ficou bastante bem explícito aqui de forma um bocadinho mais técnica. E André, nós, como sabemos, infelizmente, Portugal não tem nenhum representante para estes Jogos Olímpicos. Daquilo que eu sei, há uma falta de entendimento entre a própria Federação Portuguesa de Campismo e Montanhismo e depois também a Federação Internacional de Escalada Desportiva e ainda a Federação Portuguesa de Montanhismo e Escalada. Portanto, temos aqui três organismos que não chegaram a entendimento. Daquilo também que o André nos pode contar, exatamente o que é que está aqui em falta para nós podermos ter portugueses a tentar fazer com que a escalada chegue mais alto, e nomeadamente nos Jogos Olímpicos?
Na verdade, não são três os organismos, são mais até, mas os dois mais implícitos na situação são as duas federações portuguesas A Federação Internacional tem uma posição mais imparcial e não é que está contra de forma tão evidente. Realmente, quem não está a colaborar são as duas federações portuguesas que nós temos e, de certa forma, inclusivamente o IPDJ e o governo português, porque também têm parte da responsabilidade por essa situação se arrastar há dezenas de anos. O que está em falta é só entendimento. Existe uma federação que há muito mais anos, que é a Federação de Ciclismo e Montanhismo de Portugal, já existia antes da FPME, que agora trocou de nome por questões legais, é a federação promotora de escalada. Basicamente, é uma federação que apareceu mais tarde, criada por escaladores por não estarem de acordo com o caminho que a FCMP, a Federação de Ciclismo e Montanhismo, estava a tomar. Houve aqui uns desenvolvimentos, não vou entrar em grandes detalhes porque a história é longa, mas no fundo, a Federação de Ciclismo e Montanhismo de Portugal é reconhecida pelo governo português, do qual obtém o estatuto de utilidade pública desportiva, o reconhecimento oficial para titular a modalidade e poder ter contratos de programa com as entidades e gerir a escalada. Por outro lado, não é reconhecida pelo IFSC, que é a Federação Internacional de Escalada Esportiva, isto por diferentes razões. Por sua vez, a FPME é reconhecida pelo IFSC e não tem utilidade pública desportiva, porque só uma é que pode ter. No fundo, há aqui um, digamos, uma piscadinha de rabo na boca, um problema em relação ao outro, mas a verdade é que já se tentou chegar a um entendimento entre ambas. Eu, pessoalmente, já tentei com algumas pessoas influentes na área, amigos, fazer com que os dirigentes se encontrassem, conversassem, tentassem chegar a um acordo para perceber como é que se pode levar a modalidade para frente. Sem sucesso. Inclusivamente, o secretário de Estado do Desporto e da Juventude tentou a mesma coisa, também chamou as duas federações ao gabinete, conversar com as duas, tentar perceber o que se pode fazer e o que falta para chegarmos a uma harmonia. Também sem sucesso. E ambas estão irredutíveis. Uma diz uma coisa, a outra diz outra e, no fundo, estamos aqui são uns anos luz. Na verdade, na prática, é impossível ter um atleta português nos Jogos Olímpicos quando, primeiro, não existem condições definidas para treino e preparação e, segundo, quando ninguém foi enviado sequer às qualificações. Portanto, sem uma destas coisas é impossível.
Aproveitando esta deixa que o André acabou de dizer e também como última questão para o André Neris. O André, como nos disse, já está ligado à modalidade há vários anos, foi 18 vezes campeão nacional e acredito que se houvesse essas condições que acabou de nos dizer agora, certamente teríamos o André a representar Portugal. Para além do André e daquilo que tem vindo a acompanhar dos escaladores portugueses, olhando já até para 2024, para os Jogos Olímpicos em Paris, França, acha que há condições e que nomes portugueses é que o André acha que possivelmente poderemos vir a ter lá? O futuro da escalada em Portugal.
Diogo, francamente, é muito difícil eu te responder essa questão, porque massa crítica nós até temos, temos pessoas que escalam, temos atletas que se dedicam um pouco, mas é muito complicado. Estamos realmente a anos-luz pelo fato de haver investimento zero. De um lado, uma federação que até tem uma organização e tem vontade, mas tem zero recursos, do outro lado, uma federação que tem bastantes recursos e aparentemente, atualmente, tem zero vontade. No meio estão os praticantes e entre esses praticantes há um nicho que são os atletas e que realmente gostariam, mas a diferença é tanta que é difícil, neste momento, para mim até, sequer perceber quem é que seriam os atletas que têm um potencial para se qualificarem para os Jogos Olímpicos. Realmente estamos muito anos-luz, nós não temos participado em campeonatos do mundo regularmente, isso é básico para se começar a criar. Mesmo que fosse lá para ir ficar em último lugar, era importante ir lá para ganhar essa confiança, ganhar essa rodagem, esse know-how, começar a evoluir a partir de algo. Quando não existe algo, é difícil dizer. Pessoalmente, da minha experiência, alguns atletas que já existiram, que já não estão é tão ativos, até do meu tempo, que eu reconheço algum potencial para poderem ter bons resultados ou pelo menos terem uma participação honrosa nos Campeonatos do Mundo e quem sabe, até eventualmente, com trabalho, suor e dedicação, chegarem a qualificar. Em relação a mim, eu acredito que não sou menos que ninguém e também com o devido trabalho tenho potencial para o fazer. Nomes para o futuro. Existem vários nomes, mas a verdade é que não consigo dizer nomes porque é muito difícil, estamos muito distantes. Entende, Diogo?
Sim. Seria aqui um campo quase de futurologia, não é?
É, não existe realisticamente ninguém neste momento com a mínima chance de se qualificar para os Jogos Olímpicos.