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O ciclista português Afonso Eulálio mantém a liderança, agora mais curta, apenas de 27 segundos em relação ao segundo classificado, o ciclista dinamarquês Jonas Vingegaard, mas parte para esta segunda semana depois de uma fase inicial desta prova transalpina com bastante sucesso e, acima de tudo, com bastante tempo de liderança relativamente a alguns adversários diretos. O Afonso está há cerca de dois, três anos na equipe Bahrain Victorious, mas passou muito tempo no pelotão nacional, não só na equipe do Feirense, mas antes disso, no Sport Ciclismo São João de Vere. É lá que iniciou esta carreira com bastantes frutos até agora e que encontrou Filipe Amorim. Ele era elemento desta equipe do São João de Vere na altura que o Afonso Eulálio era júnior, estava a militar no escalão sub19. Filipe Amorim, muito obrigado por esta entrevista à Rádio Observador. Como é que o São João de Vere descobriu o Afonso?

Olá, boa tarde a todos os ouvintes. O São João de Vere descobriu o Afonso, neste caso, o Vitor Madeira Mendes, que era o treinador, através de pesquisa. Eu, na altura, não decidi, acabou a minha temporada e ia precisar de alguns ciclistas, porque os juniores são do primeiro ano ao segundo, depois têm que passar para o sub23 ou para o profissional. E eu ali nesse ano ia perder muitos que já eram de segundo, ou seja, eu tinha que ir buscar ciclistas. Através de uma pesquisa e como o BTT nos ciclismos de estrada já tinha dado bons valores, era muito normal que alguns, não todos, mas se adaptassem bem à estrada, aqueles que seriam bons no BTT. Eu então parti através de uma pesquisa e fui pesquisar resultados e rankings. E pronto, surgiu o nome do Afonso, que estava sempre bem colocado nas provas, boas prestações, bons resultados. E depois houve uma gala ao final do ano. Havia sempre uma gala de premiados no ciclismo de estrada e no BTT. As melhores equipes, as melhores de primeiro ano, as melhores de segundo ano, revelação. Essa gala foi em Torres Vedras e eu estava lá a representar minha equipe, que estava nomeada para a melhor equipe desse ano. O Afonso estava nomeado para melhor ciclista de primeiro ano. E como eu já andava a pesquisar o Afonso e ele estava nessa gala nomeado e eu já tinha interesse nele, confirmou-me também a minha pesquisa.

Para além dos resultados que fez de pesquisa, não só nas provas do BTT, o que é que mais o espantou?

O que mais me espantou, eu não tinha até essa pesquisa, nunca tinha ouvido falar. Só durante a gala, um vídeo que passou. E depois era só mesmo em resultados, eu não ia às provas BTT observar. Depois o contacto, eu mando uma mensagem depois da gala, se ele estaria interessado, se era o treinador desta equipe, porque até eu tinha visto na gala. E ele disse: "Sim, também vi a sua equipe, o que conseguiu." E perguntei se ele estava interessado em experimentar, ou em ingressar, mas podia experimentar, depois víamos. E ele mostrou-se logo interessado, curioso e satisfeito com as abordagens.

Nós sabemos que o Sport Ciclismo São João de Vere era nesta altura uma equipe quase como satélite do Feirense, e foi muito por isso, pelas palavras que o diretor do Feirense deu à Rádio Observador. Mas eu pergunto-lhe muito diretamente: o que é que nos primeiros treinos no São João de Vere mais impressionaram? A capacidade de resiliência e também essa vertente de ter do BTT, da forma como se adapta aos vários cenários de prova.

Exato. Ele tem uma adaptação fácil para, dadas as circunstâncias, que ele vinha sem base nenhuma, ele não tinha muito conhecimento de estrada. Eu penso que ele até nem vivia muito em colisão no ciclismo, não tinha ideia disso. Ou seja, íamos ali a um ponto de partida do zero, que já numa fase tardia para começar. E ele conseguiu adaptar-se logo bem e destaco a curiosidade dele, que ele estava sempre a perguntar, a fazer perguntas e com toda a humildade, sabia ouvir. E era curioso, perguntava o que é que podia melhorar e tudo. Estávamos ali no carro contra. Ele era da Figueira da Foz e os contactos, claro que há o telemóvel, mas eu gostava do contacto dele, sempre com ele, treinar com ele. Esse contacto foi feito mais ao fim de semana. Mas ele durante a semana me perguntava sempre o que fazer para melhorar, que estava a gostar. Uma das coisas que eu destaco foi a capacidade mental dele e a sua fácil adaptação ao que estava a surgir.

E referiu agora essa abertura para novos conselhos, para novas abordagens ao ciclismo desde a tenra idade. Eu pergunto-lhe se essa humildade, essa abertura, esse maiorEsse maior à vontade, propriamente dito, em receber novas abordagens e fazendo já esse plano para os dias de hoje, se podem beneficiar o Afonso, neste caso, por exemplo, ter ciclistas ao lado como o Damiano Caruso.

Sim, tenho visto alguns stories, é muito importante estar com ciclistas com essa experiência, que já passaram por muito, conhecem muito estes períodos de ciclismo e das realidades todas. Muito importante estar com ciclistas como o Caruso, sem dúvida. Porque durante a etapa há os altos e baixos, muitas coisas de um momento para o outro mudam, há coisas que não conseguimos controlar. E será importante uma pessoa como o Caruso estar ali ao lado.

Vamos aos dias de hoje. Já destacou aqui a sua resiliência, a sua humildade, neste caso, a capacidade de se adaptar muito facilmente a todos os cenários de prova. E nós conseguimos ver muito isso nestas últimas etapas, principalmente na tirada onde ele conquistou essa camisola cor-de-rosa. Vimos o Afonso cair, passar por várias dificuldades, não só em situação de pelotão compacto, mas acima de tudo na fuga. Conseguiu resistir, não terminou em primeiro, é certo, mas conquistou o segundo posto da tabela e consequentemente a camisola cor-de-rosa. Essas características já eram identificadas no período em que o treinou, não só no São João de Ver, mas acima de tudo no período onde ele esteve no pelotão nacional, concretamente no Feirense?

Sim. Por exemplo, se não foi na primeira, foi na segunda corrida, ali na Volta ao Alentejo, em meados de abril. É uma prova importante para o escalão de júnior e ele caiu logo na primeira etapa. Se não era a primeira corrida que estava a fazer. Eu acho que era a primeira. Eu fiquei ali um bocado assustado, ele não sabia o que era andar em pelotão. Ali já era um pelotão até internacional, com algumas equipas de fora, um pelotão grande e ali o medo deu: "Pronto, já vou perder o Afonso". Até à data, ele vinha treinar sempre ao fim de semana e aí já me despertou logo. Vi logo qualidades nele. Muita força, muita capacidade de resistência. E isso aconteceu, mas eu pensei: "Se calhar vou perder aqui o Afonso e vai desiludir-se com o ciclismo de estrada e vai começar a questionar. Se calhar é melhor não fazer mais isto". E não foi abaixo. Isto porque isto faz parte, infelizmente, não se vai cair sempre. E ele: "Não, não se preocupe, que eu estou a gostar disto e já estou pronto para outra." E pronto, aí eu vi logo.

Essa abordagem de BTT, onde muitas vezes as quedas são certamente mais frequentes, essa resiliência o BTT deu-lhe isso, certo?

Sim, sem dúvida. É por trilhos perigosíssimos também e isso também é normal às vezes cair e são quedas graves. Agora, tem as suas diferenças que no ciclismo é mais em pelotão e tudo mais de repente, às vezes, as quedas.

Volto e estamos a terminar esta Caminhadas a Passos Largos para o fim desta entrevista, mas ainda quero confrontá-lo com este papel que o Afonso tem neste momento, que é o papel da liderança. É um papel que não é lhe desconhecido, até porque em 2024 o Afonso veste amarelo na Volta a Portugal, concretamente até depois de uma etapa na chegada à torre. Também não conquista essa etapa, mas consegue vestir a camisola amarela de liderança da prova e mesmo o efeito mediático e também a Rádio Observador, à conversa com o diretor da equipa do Feirense, dizia-nos que esse papel, esse peso nos ombros da liderança e concretamente, depois, o peso mediático que isso tem, que não fazia confusão ao Afonso. É uma qualidade que pode ser uma vantagem para os próximos dias?

Sim, eu penso que sim. Ter passado por isso, de ter já andado de camisola amarela, claramente ele se vai relembrar de tudo isso. Ou seja, já passou por tudo isso, dessa chamada pressão. Acho que vai ajudá-lo no futuro.

Mas já sentia o Afonso confortável com esse papel de líder, por exemplo, no São João de Ver?

Claro que ele começou ali e tudo era novidade, fui ali muito de repente e não podia colocar, isto era uma opinião pessoal, não colocar tanta pressão, porque é um miúdo que vinha do BTT e que precisava de tempo para se adaptar à realidade. Não podia exigir já resultados, já prestações, tudo tem o seu tempo. Mas via uma pessoa, tudo o que eu lhe pedia, ele superava as minhas expectativas. E lá está, nunca baixava os braços, queria sempre mais. E via-se logo a qualidade e capacidade mental e emocional. Também foi muito importante os pais, tinha um bom ambiente familiar e toda uma equipa também que o ajudou.

Filipe, estamos a terminar esta entrevista. Como referiu ao início, estamos no início da segunda semana do Giro d'Italia. Esta tarde houve um contrarrelógio de 42 quilômetros, onde o Afonso Helano terminou na 41ª posição. Ainda assim, segurou a camisola rosa, mas por meros 27 segundos. Sabemos que no ciclismo todo o segundo conta, mas atendendo ao percurso que ainda resta do Giro d'Italia, a tarefa é cada vez mais hercúlea. Eu pergunto-lhe, atendendo àquilo que sabemos a esta hora, quais são as possibilidades realistas do Afonso, por exemplo, terminar no top 10?

Eu acredito muito que ele consiga, sinceramente. Porque conhecendo o Afonso, claro que há outros que agora trabalham mais recente do que eu e mais tempo, claro. Mas o Afonso nunca irá baixar os braços. E se puder, ainda vai tentar ganhar sempre tempo. A preocupação agora é defender. Mas ele se puder, e se puder ganhar tempo. Porque ele é um ciclista um bocado de ataque, irreverente. E subimos também na Volta a Portugal. Ele não usa camisola, se tivesse que atacar, atacava. Eu acredito muito nesse top 10.

Filipe, mais uma vez, muito obrigado por esta entrevista à Rádio Observador. O Giro d'Italia continua e a camisola cor-de-rosa nos braços de Afonso Helano, assim também, e esperemos que certamente seja até ao final deste Giro d'Italia. Mais uma vez, Filipe, muito obrigado.

Muito obrigado.