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Álvaro Coelho, vou começar por lhe pedir, em primeiro lugar, um comentário às novas regras para eventos culturais que foram publicadas na sexta-feira e para perguntar se compreende as lotações estabelecidas pela DGS.

Isso é um mixed feeling relativamente às decisões que foram tomadas. Obviamente que a nossa expectativa, uma vez que é obrigatória a apresentação do certificado de um teste, é que a lotação já fosse 100%, mas, por outro lado, é uma evolução. Passámos de 50% para 66% de lotação, daqui a três semanas, mais ou menos, portanto, dia 5 de setembro, vamos passar para 75% e já foi também anunciado que algures em outubro, quando atingirmos 85% da população portuguesa com uma dose de vacina, passaremos para 100%. É uma evolução positiva, não é o que esperávamos. Obviamente que não salvou o verão. O setor cultural teve um verão pior do que teve no verão de 2020 e vamos ter que ser resilientes e vamos ter que esperar com paciência. É a nossa sina. De facto, as regras para a cultura parece que são sempre mais rigorosas que para outros setores de atividade. Aliás, basta ver as imagens que vemos da vida, do dia a dia dos portugueses para perceber que, de facto, só quando se vai a um teatro é que parece que as regras são cumpridas, a ir ao teatro e ir à missa.

Portanto, considera que há uma desigualdade na aplicação de regras em comparação com outros setores?

Isso não é bem uma desigualdade, mas de facto o critério não é o mesmo. Obviamente que o critério não é exatamente o mesmo. E de facto, o setor mais prejudicado por essa pandemia foi o setor cultural, a par das discotecas. E quando se fala que temos uma lotação de 66%, é preciso perceber que não há uma lotação de 66% para todas as tipologias de espetáculos, porque a tipologia com lugares em pé ainda está super limitada, ainda não está autorizada. Que é uma tipologia até das mais utilizadas em Portugal. Portugal não é um país muito rico, é um país que tem poucos equipamentos culturais e isso faz com que a maior parte dos eventos acabem por acontecer na rua. E acontecendo na rua ou ao ar livre, acontecem numa tipologia de plateia em pé, que não está autorizada. Já as salas, os próprios equipamentos culturais, obviamente, muitos espetáculos lá acontecem também são numa tipologia de plateia em pé. Espetáculos no Campo Pequeno, na Altice Arena, nos Coliseus, acontece muito ter essa tipologia também de plateia em pé, que não acontece há 18 meses. E portanto, nós continuamos com grande parte da nossa atividade proibida. Não é só uma questão de desproporção. Isto cria uma perceção errada. Aliás, ainda agora o governo alargou, e bem, os apoios do APOIAR aos bares e às discotecas e deixou a cultura de fora, como se a cultura já pudesse trabalhar, o que não é bem uma realidade. Nós conseguimos fazer alguns eventos numa tipologia de plateia sentada, com regras muito rígidas e obviamente que não é exatamente a mesma coisa do que se passa em muitos setores. Felizmente para muitos setores, obviamente, que as regras são muito mais descontraídas, em função também do nível de vacinação que existe em Portugal. Porque o que foi nos prometido, que precisávamos atingir um determinado nível de vacinação. Já o atingimos, já atingimos a tal meta dos 70%, mas no setor cultural ainda continuamos com estas regras super rigorosas, que resultam numa redução da atividade superior a 80%.

Perguntar-lhe também, a cultura ainda está à espera das conclusões dos eventos pilotos que foram realizados em março e em abril. Faz sentido estar a apresentar essas regras quando ainda não se sabe também as conclusões desses eventos-teste que foram realizados? Ou o Álvaro já tem também a noção de quando?

Os resultados não são do conhecimento público, mas obviamente as autoridades de saúde e o governo conhecem os resultados.

Vou perguntar-lhe sobre isso. Portanto, já tem informação sobre quando é que o público, quando é que o próprio setor pode conhecer essas conclusões que seriam também importantes para definir esta reabertura faseada da cultura?

Ainda não. Foi-nos dito que iriam ser disponibilizados resultados na semana que passou, mas ainda não nos foram disponibilizados. Mas com a evolução das regras, com o desconfinamento, a forma como estamos a desconfinar, os eventos-teste pilotos espero que tenham servido e tenham ajudado as autoridades de saúde a tomarem determinadas decisões, nomeadamente essas decisões de poder haver mais proximidade num conjunto imenso de atividades, com a apresentação do certificado digital ou de um teste negativo. E foi exatamente esse o objetivo dos eventos-teste pilotos.

Mas diz que o governo já tem essas conclusões, apenas não as divulga. Portanto, já terá todos os resultados.

Sim. Quem tem as conclusões são as autoridades de saúde, mas o governo também já as conhece.

Foi-vos dada alguma explicação do porquê deste atraso ou alguma previsão para quando é que serão apresentados estes resultados? Uma vez que tinha dito que seria na semana passada, mas entretanto isso não aconteceu.

Não. Se calhar, porventura, estamos num momento sério, portanto não devem considerar isso assim tão relevante. Mas hoje, com 70% da população vacinada, repare, quando os eventos teste-piloto foram feitos, o nível de vacinação era muito baixo. E o objectivo dos eventos teste-piloto era tentar perceber ou dar ao poder, às autoridades de saúde, com estes projectos, o que poderiam fazer se criássemos eventos-bolha, como é a aviação. A aviação é um caso de sucesso. Há mais de um ano que a aviação funciona a 100%, porque as pessoas para entrar num avião têm que apresentar um certificado digital ou um teste negativo. E ao que se saiba, não há grandes surtos na aviação, porque pode-se dizer assim: "Mas depois não se sabe se as pessoas apanharam o vírus no avião." Sabemos através das tripulações, porque as tripulações trabalham todos os dias nos aviões e se de facto esse sistema de bolha não funcionasse, as tripulações seriam talvez as profissões mais afectadas pela pandemia, e não foram. E portanto, de facto, consegue-se perceber se se filtrar quando se juntam pessoas, é possível ter uma vida muito próxima do que era antes da pandemia. E portanto, era essa a nossa expectativa para os eventos teste-piloto, que era poder salvar o verão, mas o verão não foi salvo. O verão não foi salvo e o governo não reconhece, nomeadamente o Ministério da Economia, não reconhece que o sector cultural, nomeadamente o sector que depende de ajuntamento de pessoas, como é o caso dos espetáculos, está a passar uma crise absolutamente sem paralelo. É como as discotecas. Exactamente como as discotecas. As discotecas podem abrir, mas não se pode dançar. E exactamente passa-se o mesmo connosco.

Sim, fazia-lhe também uma última pergunta nesse sentido. Disse há pouco que está previsto agora este alívio, em setembro novo alívio, em outubro ainda um alívio maior, de acordo com o plano que foi apresentado pelo governo. Já consegue fazer uma previsão de quando é que pode reabrir de forma quase total o sector da cultura? Em particular, o Álvaro está muito ligado a festivais de verão, que neste caso estão muito mais limitados ainda.

Estão no verão de 2022.

Claro, mas consegue já fazer uma antevisão de quando é que, por exemplo, se no inverno não havendo festivais de verão, mas há alguns festivais que começam a acontecer mais por volta do final do ano, se já há alguma previsão de que possa existir essa retoma ainda antes do Natal, neste caso.

Nós, de uma forma tímida, o sector está de certa forma a programar-se para em novembro e dezembro já estar a trabalhar de uma forma normal. E porquê de uma forma tímida? Porque infelizmente, nós vivemos em Portugal um sistema em que o governo diz assim: "Afinal, esta semana não pode haver espetáculo." E portanto, os empresários assumem todos os prejuízos. Assumem, porque os espetáculos para serem lançados obrigam, obviamente, a grandes investimentos. Investimentos nos ensaios, investimentos publicitários. Investimentos, porque também começa-se a pagar aos artistas, começa-se a pagar às salas, começa-se a pagar às empresas que intervêm, todas. E de repente alguém diz assim, as autoridades de saúde determinam: "Afinal esta semana não pode haver espetáculo." E pronto, OK. E depois ninguém se lembra do sector. Eu há uns meses lembro-me de ter feito o seguinte comentário: claro que para outros sectores isto também é grave, para a restauração também é grave. Também compraram comida, mas pelo menos podem congelá-la. Nós não podemos congelar, nós gastamos e deitamos o dinheiro fora. E de facto, há um receio muito grande do sector de começar a trabalhar normalmente, apesar das promessas. Nós sabemos que ninguém controla a pandemia, porque infelizmente a gestão da pandemia não é uma gestão por decreto. Temos pena que, de facto, não se faça o mesmo que fez o Reino Unido, em que as metas foram muito claras, objectivas e foram cumpridas. Tinha sido anunciada uma abertura total a 19 de junho, que foi atrasada quatro semanas, mas hoje em dia o Reino Unido vive normalmente. O Reino Unido e os Estados Unidos. São dois países que estão muito avançados na vacinação, como Portugal, e de facto, a vida funciona de um modo muito próximo do normal. Nós somos talvez o país com mais regras na Europa neste momento. Aliás, isto até é esquizofrénico. Nós vivemos uma situação esquizofrénica por quê? Porque nós estamos a travar a atividade económica, por um lado, mas por outro lado, não estamos a garantir nada daquilo que se pretende ao não permitir os ajuntamentos na atividade económica. Em primeiro lugar, porque os jovens da norte a sul do país juntam-se em eventos clandestinos, sem interesse nenhum económico, juntam-se em grupos. Os chamados batalhões estão a acontecer descontroladamente do país de norte a sul Depois, obviamente, com a abertura e o prolongamento do funcionamento dos bares e restaurantes até às 22h, os jovens acabam por se ajuntar na rua. E é impossível evitar os ajuntamentos, mas eles estão a acontecer. Nós estamos a travar a atividade económica, mas não estamos a travar os ajuntamentos. E tem outra situação ainda mais esquizofrénica, que é: eu não posso organizar um festival, mas posso organizar uma excursão de 10 mil ou 20 mil pessoas, levá-las a outro país a um festival, eles podem ir, estar no festival, voltar a Portugal e já não é problema nenhum. É uma situação meio esquizofrénica, porque o que faria sentido é que nós não pudéssemos viajar para países onde as regras não fossem iguais às nossas. Parece uma situação meio esquizofrénica. Se nós quisermos ir a uma discoteca, é uma questão de viajar e ir a outro país. Se quisermos ir a um festival, vamos aos Estados Unidos, vamos ao Reino Unido, vamos a outros países, que as coisas acontecem normalmente.

Isso são preocupações que têm manifestado ao governo, do facto dessas regras não fazerem grande sentido, pelo menos para o sector?

A nossa maior preocupação é exatamente o facto de nos ter sido retirado, desde março, o direito ao trabalho. E de facto, o nosso sector foi dos sectores mais prejudicados com esse direito, porque quando nos mandam parar, nós não conseguimos trabalhar em takeaway, em delivery. O único modo que nós temos de trabalhar é exatamente com um conjunto de pessoas à frente, num palco. Não conseguimos trabalhar de outra forma. E de facto, há 18 meses que já não trabalhamos. E é preciso dizer que há um conjunto imenso, são centenas de empresas, são milhares de profissionais, que não trabalham há 18 meses. Porque, como eu já referi, apesar dos teatros, das salas de espetáculo estarem abertas, isto apenas dá trabalho a uma ínfima parte do sector. Porque o grosso do trabalho acontece nos grandes eventos, nos festivais, nas festas que acontecem em todas as cidades, aldeias e vilas do país, de norte a sul do país, que não aconteceram. Simplesmente, desde março de 2020 que não acontecem. De facto, isso faz com que seja um flagelo gigantesco no nosso sector. E os artistas não trabalham. Falar em qualquer artista, ele se calhar este verão fez três espetáculos, dois espetáculos, e muitos não fizeram um único espetáculo, quando o normal era terem feito 20, 30. E tudo isto depois que vem atrás. Porque não é só o artista, o artista é o frontman. É o homem da frente. Depois ligado ao artista está sempre um conjunto imenso de pessoas e de empresas. Repare uma empresa de palco. Quantos palcos é que se montaram desde março de 2020 em Portugal? Meu Deus e Deus! As empresas estão completamente desesperadas, sem trabalho. Agora, qual vai ser o drama disto? E muita gente já me tem perguntado: "Então e vocês, no vosso setor, qual vai ser o impacto desta pandemia?" Não sabemos. Nós só vamos saber quando voltarmos à normalidade, porque quando voltarmos à normalidade é que vamos perceber quais foram as empresas que sobreviveram, porque elas hoje podem existir, mas quando voltarmos à normalidade, elas podem já não existir. Porque nós sabemos que quando as empresas tiverem que enfrentar os encargos das moratórias a 100%, aí é que vai ser o problema, e falta pouco mais de um mês para que isso comece a acontecer. E vamos também perceber quantos profissionais é que se mantiveram no setor e não mudaram de setor.