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Chamamos agora à conversa Fernando Silva, é membro da Comissão Nacional de Eleições e ministro sombra do Chega, precisamente para esta pasta da Administração Interna. Muito boa noite, seja bem-vindo a esta emissão. Pergunto se o problema de Maria Lúcia Amaral foi só a resposta a esta tempestade ou se esta ministra, na sua opinião, já estava demasiado fragilizada.

Boa noite uma vez mais. O problema é que a ministra acaba por também ser o sinal global de um falhanço nesta matéria que afeta o governo. Claro que ela é o rosto desta circunstância, mas não podemos esquecer que no verão tivemos um processo de incêndios no país em que, de uma forma geral, o Ministério da Administração Interna e o governo não teve propriamente uma intervenção com o maior sucesso. E agora, no inverno, com o problema que nós tivemos, obviamente que não esperamos que se controle o temporal, não esperamos que se controle o efeito imediato, mas o que nós esperamos é que o Ministério da Administração Interna tenha uma capacidade de intervir no terreno e de rapidamente encontrar respostas para auxiliar aqueles que são devastados pelos efeitos, e essa resposta não houve. Não sei se era uma circunstância anunciada. O que este momento revelou, o que esta questão imediata revelou, foi de facto uma incapacidade de encontrar soluções e de transmitir também uma voz de segurança para nós percebermos o que vai ser feito. Nós não ouvimos, em momento algum, em nenhuma circunstância, em nenhuma intervenção, nós não ouvimos com segurança, da boca da ministra da Administração Interna, o que ia ser feito, que medidas estavam a ser tomadas e não conseguimos perceber verdadeiramente qual era a sua capacidade de intervenção. Este é um processo que mancha, sem dúvida nenhuma, o Ministério da Administração Interna e naturalmente o governo, pela falta de soluções.

Mesmo que o trabalho eventualmente estivesse a ser feito, pergunto-lhe isto porque a ministra disse há dias, na sede da Proteção Civil, quando foi questionada pelos jornalistas, que não tem aparecido da forma como seria expectável, porque estava no gabinete a trabalhar.

E até disse mais, disse que até estava a fazer um trabalho invisível.

Exatamente.

E é verdade, muitas vezes há um trabalho invisível que se faz, mas o trabalho invisível que se faz, nós esperamos é que depois tenha um lado visível de ação e de intervenção. Na mesma intervenção, nós não ouvimos da boca da ministra dizer: "Está aí o resultado do trabalho invisível feito. Estas medidas, estas consequências, estes resultados, estes efeitos." Não vimos nada dessas consequências. E portanto, foi um trabalho invisível que também não nos conseguiu a ninguém transmitir, e transmitir com segurança, qual era a consequência positiva desse trabalho. Repare, o ministro da Administração Interna, aquilo que se espera é que ele transmita consequências, transmita efeitos dessas mesmas medidas. E não houve capacidade nenhuma de perceber como é que a própria estava a lidar com o problema. E provavelmente, em vez de se ter fechado em gabinetes, se logo na manhã seguinte ter ido pro terreno, para falar com os autarcas, para falar com as pessoas, para ver as medidas no terreno, teria sido mais eficaz em termos de perceção e de tentar transmitir a quem estivesse então no gabinete a estudar medidas, porque uma tragédia destas não se resolve fechado num gabinete a estudar medidas invisíveis. E volto a dizer, é que as medidas são tão invisíveis que a visibilidade das mesmas não a conhecemos.

Fala nesta situação que tem assolado o país com o mau tempo. Como é que fica, na sua opinião, agora a gestão deste período, sendo que a pasta não fica órfã, vai ser assumida por Luís Montenegro?

Também não sabemos que papel é que Luís Montenegro tem tido até aqui na gestão da própria pasta. Obviamente que a saída de um ministro em plena crise, em pleno momento da necessidade de intervenção, é um sinal de fraqueza do próprio e é um sinal de ausência de capacidade para intervir. Se a ministra fazia mais sentido, depois disto passado, depois desta circunstância, olhar para trás e ver: "Não tive uma capacidade de intervenção, não tive uma capacidade ativa e, portanto, vou me demitir." Obviamente, o que é que se vai mudar agora? As estruturas são as mesmas. E o que é que nós temos? Em cada momento que há uma crise, nós depois temos uma estrutura em que ninguém sabe quem intervém, ninguém sabe quem é que coordena, ninguém sabe quem manda no terreno as execuções das medidas.

Mas podemos também assumir por isso que está a dizer que o facto de se demitir o ministro não resolve por si só os problemas no terreno.

Claro que não resolve, de todo não resolve Isto é, o ministro pode revelar que o ministério em si teve uma incapacidade de intervenção. Não é só o ministro que não teve essa incapacidade de intervenção. E nós não estamos à espera que de hoje pra amanhã, só porque é Montenegro a assumir a pasta, porque é o primeiro-ministro a chamar a si a pasta, que toda a estrutura altere. Esta estrutura devia ser alterada, devia ser modificada, devia ser adaptada e preparada para circunstâncias como esta ou outras. Obviamente que, volto a dizer, ninguém pode impedir que a força da natureza se manifeste como manifestou. Não era disso que estávamos à espera que um cidadão português possa esperar. O que nós esperamos é que, perante uma tragédia que ocorre e perante uma circunstância que se percebe que vai ter efeitos a curto prazo e imediatos, que haja uma intervenção no terreno e que aqueles que são protecção civil, bombeiros, toda a coordenação que aqui falta, não é por Luís Montenegro agora assumir a pasta que de repente passa tudo a funcionar. Ninguém pode acreditar que essa seja uma consequência imediata.

E nesse sentido, quão rápido deve ser Luís Montenegro a nomear outro ministro? Ou na sua opinião, deve manter-se?

Não é a nomeação de um novo ministro que agora, de um momento pra o outro, que vai passar a ter novas políticas. E as políticas não são exclusivas do ministério, são as políticas do governo. A administração interna é um-

É uma pasta pesada

...ministério central, é uma peça fulcral em qualquer governo. Repare, isto mexe com a vida das pessoas, isto mexe com o bem-estar das pessoas, isto mexe com as consequências imediatas. É disso que nós esperamos respostas desde já. Vamos nomear um novo ministro e estamos à espera que o novo ministro no dia seguinte tenha solução pra tudo? O que nós queremos é que os operadores do terreno, a preparação que têm e os meios que dispõem, que sejam eficazes na sua intervenção. E temos percebido que essa eficácia não existe. Foi, sobretudo, pela demora, e não sou eu apenas a dizê-lo, porque isso já foi identificado até pelo seu presidente da República, que a resposta a conseguir perceber qual era a dimensão do problema e a necessidade de intervenção, essa resposta demorou e ainda não a encontrámos de forma eficaz. E portanto, por um lado, dizemos: não precisamos de ajuda externa, mas também não resolvemos o problema internamente. A certa altura, até a propósito da ajuda externa, a questão que foi colocada foi no sentido de dizer: "Não, nós não precisamos de pedir tijolos e lonas." Quer dizer, como se o problema neste momento fosse de falta de tijolos e lonas. Portanto, há aqui toda uma falta de capacidade de num curtíssimo espaço de tempo perceber o que era preciso fazer para solucionar os problemas, e isso falta pessoas no terreno que tenham essa capacidade para poder mudar.