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Arranca hoje o Fólio, festival literário que decorre há oito anos em Óbidos. É a primeira edição do festival desde que o fundador, José Pinho, morreu. Tenho comigo o presidente da Câmara Municipal de Óbidos, Filipe Daniel. Filipe, de que forma é que a ausência de José Pinho exigiu ajustes na organização este ano?
Antes de mais, obrigado pelo convite e pela oportunidade de partilhar aquilo que é um dos grandes eventos de Óbidos e que começa, como disse, e bem, hoje e vai até ao dia 22 de outubro. De facto, o José Pinho, que infelizmente nos deixou fisicamente há relativamente pouco tempo, era uma pedra basilar e foi muito importante no arranque deste festival internacional literário de Óbidos. Tivemos que fazer algum ajuste, naturalmente, mas convém frisar que o José, durante estes 10 anos, temos a oitava edição, mas o Fólio decorre há 10 anos, porque houve um interregno por parte da Covid-19 nos anos de 2020 e 2021, mas foi de facto alguém muito importante, alguém com arrojo, com sonho, com capacidade de criação, com toda a sua criatividade e inovação, que lançou o desafio àqueles que me antecederam nestas funções autárquicas e que, sendo um território também reconhecido e conhecido do ponto de vista da criatividade e da inovação, foi bem acolhido. Portanto, nós temos que trabalhar uma estratégia de diferenciação para o território que se quer cada vez mais afirmar e esta oportunidade ligada à literatura, à cultura no geral, mas à literatura em particular, fazia todo o sentido e a prova é que, como dizia há pouco, com a oitava edição, nós temos vindo a consubstanciar um sem número de autores que esperam por esta data para poder vir mostrar os seus trabalhos, para poder vir desenvolver aquilo que de melhor se faz no país e no mundo, em matéria de cultura, de literatura em particular. E, portanto, o José foi de facto fundamental e infelizmente já não está fisicamente conosco, mas julgo que deixou uma boa semente, cuidou da planta e neste momento nós estamos em condições de poder honrar aquele legado que ele também ajudou a criar.
Num evento destes, com tanta história e a tal inovação de que falava, como é que se garante que existe de facto essa inovação sem que se perca a essência do que têm sido as últimas edições, muito marcadas também pelo papel de José Pinho?
Sim, esse traço da origem, da base e da importância que tem o Fólio estará sempre presente. Agora, cada edição terá sempre, e o José Pinho dizia isso muitas vezes, ou vezes sem conta, que cada vez que entrava numa edição, sentia sempre que era a melhor edição do que a anterior. E é isso que nós pretendemos fazer continuamente, é continuar a surpreender aqueles que vêm a Óbidos. Já o fazemos noutros eventos e no Fólio será naturalmente também algo a ter em conta. Nós este ano vamos reforçar significativamente o número de autores e criadores para mais 144 do que tivemos na edição passada, e que já foi uma edição muito intensa com o tema "O Poder". Este ano, com o tema "O Risco", é um risco que vamos correr, mas era um risco que o José Pinho também gostava de correr. Ou seja, o José Pinho era alguém que gostava de abraçar o desconhecido, que via no desconhecido e nesta oportunidade de se mergulhar numa incerteza, aquilo que lhe fazia também um estímulo adicional para podermos desenvolver. E nós também, este executivo e toda a equipa que está conosco a trabalhar no Fólio, desde os curadores aos ilustradores, a todos os autores que vêm e aos moderadores dos painéis, vêm todos embrenhados neste espírito de abraçar o desconhecido, libertarem-se de qualquer amarra que possam ter e desfrutar daquilo que será um grande espetáculo e um festival memorável. E este ano, com a ausência do Pinho, temos uma responsabilidade acrescida de poder honrar e fazer uma justa homenagem também a um dos grandes fundadores do Fólio.
Para a programação deste ano, vão também haver momentos de homenagem, correto? O que é que podemos esperar destes momentos?
Nós fizemos o mural, posso adiantar, uma vez que já vamos hoje iniciar o Fólio. Temos um mural em homenagem ao José Pinho e depois vão seguir algumas homenagens também durante todo o evento. Também não vou disponibilizar já toda a informação. Acho que o programa, uma vez que já está disponível online também, as pessoas poderão aceder a este mesmo programa que está disponível no site do município. E portanto, reservarem, na medida do possível, as mesas, porque sei que é muito difícil, muitas das vezes existem mesas em simultâneo que as pessoas gostariam de poder apreciar, mas também estaremos em condições de gravar essas mesmas mesas e libertá-las durante o ano. Isso foi um dos desígnios que solicitei no início do mandato, porque as mesas eram tão ricas e eu queria também de estar em tantas que, não me sendo humanamente possível, ajustámos esta oportunidade e esta possibilidade de captação de imagens de vídeo para podermos depois libertar mais tarde e assim as pessoas poderem apreciar de facto aquilo que são temas prementes da nossa sociedade e que é uma pena as pessoas não poderem ouvir. Mas naturalmente, é um convite sempre. A forma presencial e o sentir este evento do Fólio é completamente diferente de estarmos à frente do monitor, ou neste caso atrás do monitor, a poder apreciar aquilo que se passou neste espaço magnífico, nesta vila magnífica de Óbidos.
De facto, traz muitas pessoas com gostos diferentes que querem ver e ouvir os vários autores. Filipe, perguntava-lhe se há previsão do número de pessoas que esperam receber.
Em relação à questão do número de pessoas, é sempre muito relativo. Apesar de haver uma grande procura com antecedência em relação àquilo que é o programa para poderem reservar alojamento, para poderem marcar refeições. Existe uma pressão, no bom sentido, para com a Câmara, para podermos disponibilizar o programa rapidamente. Mas aquilo que nós, mais do que o número, é a qualidade do evento que queremos proporcionar às pessoas. E este ano, como dizia há pouco, com a ausência física do José Pinho, torna-nos aqui um sentimento de grande responsabilidade, mas também um orgulho enorme daquilo que estamos a fazer e daquilo que apresentámos este ano para fazer. De resto, fizemos um pré-lançamento no dia 14 de setembro, junto da entrevista do Ricardo Araújo Pereira com o Woody Allen, que foi na Cinemateca de Lisboa, um espaço pequeno para tanta gente que estava na rua e é este tipo de adesão e tração que podemos esperar destes eventos. Os números, muitas das vezes, nós sendo otimistas, falhamos por baixo, porque de facto as pessoas estão habituadas a vir a Óbidos e a ver eventos de grande qualidade. Aliás, essa é a nossa premissa para fazer qualquer tipo de ação no Conselho de Óbidos, é fazermos eventos ou promovermos eventos com esta sala de elevadíssima qualidade, sempre com uma aposta grande na inovação, criatividade, mas sempre também, e aqui é bom salientar isto, todo o décor, toda a parte cenográfica que temos, grande parte dela é reutilizada de alguns eventos ou de eventos anteriores. E portanto, também tendo inovação, conseguimos também garantir a parte da sustentabilidade, que é algo que também nos orgulha afirmar ano após ano.
Pergunto-lhe se não é só a organização do próprio evento que se está a preparar, mas pode ser sim uma coisa ao nível de toda a vila, por exemplo, os hotéis. Tem havido, de facto, esta adaptação que vá para além da organização do evento?
A nossa política de eventos no Conselho de Óbidos também visa quebrar a sazonalidade. E portanto, este evento vem no decorrer de um conjunto de outros, que as unidades hoteleiras devem estar preparadas e estão preparadas para responder a este desígnio. Infelizmente para Óbidos, felizmente para os conselhos vizinhos, aquilo que nós fazemos é demasiado para a capacidade e a mobilidade das unidades hoteleiras que temos no Conselho. Mas como disse, infelizmente para Óbidos, porque havia investidores que poderiam ganhar com esta política que nós estamos a desenvolver de sucessivos eventos durante todo o ano, mas os conselhos vizinhos de Caldas da Rainha, de Peniche, de Bombarral, que também têm alguma capacidade e vão beneficiar seguramente com estas unidades. A nossa capacidade de alojamento acaba por ficar esgotada durante grande parte do ano e por isso é que somos líderes, apesar de um conselho pequeno, com uma demografia também não muito grande, cerca de 12 mil pessoas, mas que acabamos por ser líderes de alojamento ao nível do Oeste. E portanto, isto espelha bem aquilo que é a correta visão deste município naquilo que se traduz em desenvolvimento económico e social para um território.