Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Junta-se a este jornal o presidente da Federação Portuguesa de Atletismo, Jorge Vieira. Bom dia, obrigada pela disponibilidade de estar connosco, Jorge Vieira. Estamos aqui a ver uma troca de acusações entre os melhores atletas nacionais do triplo salto. Como é que olha para esta troca de argumentos na praça pública?

Muito bom dia, Carla. É um papel difícil o meu, porque eu estava decidido a não intervir, porque essa intervenção já foi feita noutras ocasiões, nomeadamente nos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2021. E não é bom termos na praça pública dois dos nossos melhores atletas, dois dos nossos cinco campeões olímpicos da modalidade envolvidos numa querela deste género. Naturalmente que eu não quero beliscar a imagem de nenhum deles com as palavras que eu possa dizer sobre este caso. Eu sempre me preocupei, ao longo da minha vida, porque é uma vida dedicada à modalidade e muito tempo na federação, com dois aspectos fundamentais: preservar a imagem dos nossos atletas, sejam eles quem forem, mas ainda mais dos nossos campeões, mas também preservar a imagem e o bom nome da instituição que represento. E neste caso, eu não interviria se apenas os dois atletas estivessem numa querela pública, com acusações mútuas, com comentários. Estão no seu direito. Naturalmente que se deveriam privar disso, mas estão no seu direito de se expressarem e eu respeito também isso ao máximo. Mas ao tocar o Nelson Évora na imagem da federação e no seu comportamento em todo este processo, eu vejo-me obrigado, naturalmente, a intervir com a máxima tranquilidade, esclarecendo o que se passa.

Então rejeita as acusações de Nelson Évora, que diz que Pichardo foi comprado, houve uma cunha e o processo de naturalização foi acelerado.

Rejeito, mas totalmente. Eu já esclareci isto noutras ocasiões. Em primeiro lugar, eu gostaria de dizer o seguinte: a federação não teve sequer uma troca, eu próprio, uma troca de palavras com o Pedro Pichardo antes de ele estar naturalizado. Portanto, não houve nenhum convite da nossa parte, não houve nenhum aliciamento. Compra é um termo, na realidade, que me choca, porque quem cala consente. E se eu, ao ouvir uma acusação destas, eu estivesse calado ou ficasse calado, a instituição, federação, não se expressasse relativamente a isto, naturalmente, como diz o povo, quem cala consente. Mas é impossível consentir uma acusação deste género, porque naturalmente nós não comprámos atleta nenhum, nunca comprámos. Nunca uma naturalização de um atleta partiu da federação. Nós nunca convidámos nenhum atleta a ser português. Nunca, nunca, na história.

Mas o processo foi mais rápido no caso de Pichardo.

Foi e passo a esclarecer esse aspecto. Isso é feito de acordo com a lei portuguesa. Há um regulamento que se pode consultar, a Rádio Observador pode consultar, o Nelson Évora pode consultar, qualquer cidadão pode consultar, porque são leis da República, são leis públicas. A lei que tem o regulamento da nacionalidade portuguesa, no seu artigo 24º, aponta casos especiais. E nos casos especiais, é apontado precisamente a situação de atletas ou de qualquer outra área, eu arrisco-me a dizer, na área da ciência, na área da cultura, na área do desporto, em qualquer área onde os cidadãos candidatos à nacionalidade possam, e eu vou tentar esclarecer com a leitura, porque eu não leio todo, porque naturalmente ocuparia muito tempo, mas o ponto um do artigo 24º diz o seguinte: o membro do governo responsável pela área da Justiça pode conceder a nacionalidade portuguesa por naturalização. E agora, passando para baixo aquilo que cobre estas situações. Aos estrangeiros que tenham prestado ou sejam chamados a prestar serviços relevantes ao Estado português ou à comunidade nacional, quando satisfaçam os seguintes requisitos. E então, de seguida, as várias alíneas com os requisitos. E em nenhum desses requisitos está o esperar 11 anos, ou esperar cinco anos, ou esperar três anos. Pode ser uma concessão da nacionalidade imediata. Ora, obviamente, que isto é apreciado pelo membro do governo, neste caso, o membro da Justiça, o Ministério da Justiça, e com certeza que é também sustentado, isto também está aqui na lei, por pareceres. E houve um parecer da federação. Houve um parecer da federação precisamente a justificar que este atleta, ao ser naturalizado, poderia prestar serviços ao Estado português, ao país.

Jorge Vieira, o que Nelson Évora alega é que ele, Nelson Évora, teve de esperar vários anos para conseguir essa naturalização e Pichardo apenas alguns meses. Portanto, um tratamento diferente.

Com certeza, e é um tratamento diferente. Eu explico porque é um tratamento diferente. Eu lamento que se continue a bater nesta situação. Eu espero que isto não alastre. Para mim, isto é um ponto terminado aqui, porque a situação é diferente. Por quê? O Nelson Évora vem para Portugal com nove anos de idade. Se não me engano, são nove anos de idade. Naturalmente, não colhia nenhum argumento dentro disto que eu acabei de ler da lei. Não se esperava de uma criança de 9 anos, de 10, de 11, de 12, de 13, 14, 15, 16, 17, até júnior, quando o Nelson começa a conquistar resultados de nível internacional na categoria de júnior, não se poderia nunca alegar, nem eu sei se na altura esta lei existia já nestes termos Não se poderia alegar, naturalmente durante todo este período jovem do Nelson Évora, qualquer argumento para acelerar a naturalização dele. Teve que se esperar pela maioridade dele e aí foi imediatamente naturalizado e iniciou precisamente aí uma carreira internacional grandiosa, primeiro em júnior, depois em sénior e sucessivamente uma carreira brilhante.

E fez esse percurso. Jorge Vieira, Nelson Évora deixou também uma outra crítica e gostava de ouvir, como responsável máximo do atletismo em Portugal. É que a federação está nesta altura mais apostada em comprar atletas já feitos do que apostar na formação e neste momento não há substitutos para estes grandes nomes que temos no triplo salto.

Sim, era bom que fosse possível termos substitutos sempre para os nossos campeões. Era bom. No desporto português, com a dimensão do nosso país, com a dimensão do nosso desporto, seria bom termos sempre aquilo que se chama a reserva dos campeões e termos obviamente solução para essa situação. Não temos. Aparecerem atletas do nível, com o talento do Nelson Évora, de um Pedro Pichardo, de outros atletas, naturalmente que é muito difícil. Mas temos neste momento, curiosamente, a treinar no grupo de treino onde está o Nelson Évora em Espanha, um atleta português, Tiago Pereira, que é dos melhores do mundo, ficou em quarto agora no Campeonato da Europa e que é produto feito em Portugal, integralmente feito em Portugal. Esteve à beira das medalhas por poucos centímetros neste Campeonato da Europa de pista coberta. Eu espero que ele consiga lá chegar e por isso mesmo está a treinar com o mesmo treinador que treinou o Nelson Évora nos últimos anos e que eu espero que conte também com o contributo do Nelson para ele evoluir. Agora, mais uma vez, dizer-se que a federação compra atletas, é para mim intolerável ouvir essa palavra. É intolerável ouvir essa palavra, porque nós não compramos atletas de maneira nenhuma. Nós apoiamos atletas para chegarem à excelência e temos tido com certeza algum papel também na carreira do Nelson Évora. E eu vi bem, porque eu acompanho o Nelson Évora desde essa idade. Já eu era treinador, depois dirigente da federação, agora presidente da federação, sempre apoiamos o Nelson Évora ao melhor nível e para ele ter a carreira que teve, brilhante, extremamente longeva, com muitos anos de êxitos e com certeza que nós tivemos aí algum papel. Mas naturalmente que, mais uma vez, entramos nas opiniões. Agora, dizer-se que nós não apoiamos jovens e apostamos na compra de atletas, mais uma vez, isso é de uma injustiça tremenda. É de uma injustiça que eu não poderia calar de maneira nenhuma, porque nós não compramos atletas. Nós não convidamos atleta nenhum para ser português.

Ficou muito chateado. Jorge Vieira, já falou com algum destes atletas, Nelson Évora ou Pedro Pichardo, depois de ontem?

Não, depois disto, não. Depois disto não, porque obviamente que eu sei bem como é que as emoções funcionam. Sei um bocadinho, naturalmente. A Rádio Observador já hoje ouviu um psicólogo. Eu também sou psicólogo e percebo alguma coisa de quando é que se deve intervir nestas situações.

E não é a oportunidade para falar com eles.

Não é. É preciso dar tempo a que a razão se sobreponha à emoção. Nas emoções surgem todos estes termos que são usados, às vezes impróprios, que depois nos arrependemos quando começamos a pensar sobre aquilo que dissemos.

Mas fica um mau exemplo para os restantes atletas, sobretudo para os mais jovens.

É inevitável. Poderíamos falar nisso mais tempo sobre o que é o perfil, o que é a personalidade dos campeões. Os campeões têm também este perfil, que por vezes também é extremamente direto, faz parte da sua assertividade e por isso também são assertivos e resilientes no seu comportamento como atletas, mas por vezes pode levar a alguns excessos. Mas é sempre esta personalidade que também os leva a ser campeões. É algo que faz parte.

É preciso o equilíbrio. Jorge Vieira, muito obrigada.

Eu espero que esse equilíbrio venha a ser restabelecido. Espero que haja o bom senso, mais uma vez, para que se tornem outra vez ou recuperem de novo. Isto é, mantenham a boa imagem que têm, porque eu sempre disse, até para os Jogos Olímpicos de Tóquio, que o meu sonho era que os dois subissem ao pódio. Seria extraordinário. Não foi possível. Mas eu espero que os dois reflitam sobre o que dizem e que acertem as contas pessoalmente e que continuem a dar uma boa imagem deles e da modalidade.

Jorge Vieira.

Que têm uma magnífica imagem e tem que ser preservada. Eu farei também a seu tempo, no tempo certo, tentarei dar o meu contributo também para que tal seja possível.