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Dom Rui Valério, muito bom dia, bem-vindo à Rádio Observador. Um dia após a morte do Papa Francisco, perguntava-lhe que balanço é possível fazer do pontificado de Francisco?

Olá, muito bom dia. Eu diria que o balanço que está a fazer talvez seja o tempo daqui para frente que no vai regular e mostrar. Para já, aquilo que nós constatamos foi que a morte do Papa Francisco, a sua partida, não deixou ninguém indiferente, mas a todos envolveu quase que numa nuvem de tristeza e ao mesmo tempo de um sentimento de se ter perdido alguém que nos era muito próximo, que era muito do nosso âmbito familiar. E isto diz muito do que foi o seu pontificado. Foi um pontificado de proximidade. Não só o Papa Francisco se quis fazer próximo de cada um, e isso era mais do que evidente nas suas viagens apostólicas, nas audiências que ele próprio presidia na Praça de São Pedro, mas fundamentalmente, ele foi um homem altamente comprometido e empenhado em aproximar povos, em aproximar distantes. Isso resulta da sua perspectiva pela paz. Também é daí que deriva aquela sua máxima de ir às periferias e trazer os que são descartados para o centro da vida social.

E nessa aproximação, Dom Rui Valério, creia que Francisco marcou a diferença em relação aos seus antecessores, nomeadamente em relação ao Bento XVI?

Quando estudamos a história da Igreja, há um dado que para nós é bem evidente e que todos os especialistas fazem questão, aliás, de sublinhar. É que todos os papas e cada papa é o papa necessário e providencial para o seu tempo e para a sua época. E portanto, o Papa Francisco presidiu à Igreja numa época específica em que, quer pela sua personalidade, quer sobretudo pelas suas perspectivas evangélicas e existenciais, era o papa do momento, assim como o Papa Bento XVI foi o papa do momento apropriado para a sua época, o São João Paulo II, João Paulo I, Paulo VI e assim sucessivamente. Portanto, eu diria que fazendo aqui jus a uma máxima que nós usamos tantas vezes, foi o homem certo para o momento certo.

Para o momento certo e os cardeais acabam por ter essa capacidade de ajuizar. O senhor presidiu ontem à noite uma celebração na Sé de Lisboa de homenagem ao Papa. Falou de um sentimento de orfandade, mas disse também que o pontificado do Papa Francisco não terminou ontem de manhã com a morte física. Acredita que essa mensagem vai perdurar ou também acredita que o próximo papa vai continuar na mesma linha?

Uma das palavras-chaves do pontificado do Papa Francisco foi a palavra esperança.

Sim.

Não só porque ele falou muito da esperança, o ano do Jubileu em curso foi por ele batizado como o ano da esperança, peregrinos da esperança, não só porque ele, de facto, representou e representa esperança para tanta gente, sobretudo para quem se sente que está no último lugar, para aquelas pessoas que de alguma maneira não se sentem em pé de igualdade com outros nas possibilidades que a própria vida lhes oferece. Portanto, esperança é realmente uma palavra-chave para dizer Papa Francisco. Ora, um dos méritos e uma das dimensões da esperança é a transformação de cada acontecimento numa promessa. É fazer de cada facto, de cada instante, como que uma semente que é lançada à terra e que depois durante algum tempo, no silêncio e até no escondimento, germina para dar vida a uma nova vida. Eu estou profundamente convencido que seja o magistério proclamado do Papa Francisco, as suas homilias, as suas mensagens, seja, sobretudo, os seus gestos representam e foram para a humanidade esta semente que agora está a germinar e que vai dar frutos. E eu tenho a certeza que são frutos maravilhosos, sobretudo no capítulo da paz, no capítulo da compreensão e no capítulo da fraternidade. E já agora, se me permite, também no capítulo do maior respeito ecológico, a tal ecologia integral.

Sim, que também ele foi sempre relevando em todas as intervenções que fez. O senhor conhece muito melhor os critérios e os equilíbrios para a eleição de um papa. Será que é desta, será que pode ser um português a suceder Francisco?

Eu colocaria essa afirmação em segundo lugar. Em primeiro lugar, aquilo que nós desejamos é que o próximo papa seja como foi o Papa Francisco, o Papa Bento XVI, o São João Paulo II, mas que seja o rosto vivo do Evangelho. Isto em primeiro lugar. O Papa é o rosto vivo do Evangelho, é realmente o pontífice, aquele que constrói, estabelece pontes, é o vigário de Jesus Cristo, alguém que nos dá a sensação de estarmos na presença Daquele que não se cansara de nos interpelar para amar a todos, amar os nossos inimigos. Em segundo lugar, sim, seria maravilhoso que no ano em que o Papa João XXI, Pedro Hispano, de origem portuguesa, pudesse ter novamente e pudesse ele próprio ver, e nós também, um outro português no trono de São Pedro. Seria maravilhoso.

Independente da nacionalidade, Dom Rui Valério, quais devem então ser as prioridades do próximo Papa? Deve apostar na continuada renovação interna da igreja, mais na questão da hierarquia, ou olhar mais para fora, para a igreja popular que está em expansão, não na Europa, mas na Ásia, na África e na América Latina?

Eu creio que esses dois movimentos vão sempre em conjunto. Ou seja, como o Papa Francisco demonstrou e ficou provado com ele, quanto mais ele estava verdadeiramente comprometido, empenhado, envolvido numa certa ou profunda renovação daquilo que é a própria igreja, o próprio cristianismo, mas sempre numa fidelidade profunda ao evangelho e a Jesus Cristo, tanto mais ele estava comprometido e também ali empenhado profundamente na transformação e renovação do próprio mundo. Aliás, isto está na própria lógica do evangelho. Quando Jesus falava da igreja, falava da igreja como aquele fermento que leveda toda a massa. Portanto, é como se nós quiséssemos dizer ou estivéssemos a dizer que é a partir da transformação do coração de cada um que é possível existir e haver essa transformação no mundo e na sociedade. É a partir da paz que cada um senta dentro do seu coração que é possível, depois, encarnar essa paz, essa solidariedade, essa fraternidade e harmonia ao nível de todas as nações. Assim também, esse movimento ad intra está em linha, está na senda, está no encalce daquela transformação depois ad extra. Completam-se esses dois movimentos, não se opõem.

O Papa Francisco também não fugiu às polémicas a abordar questões políticas, para desagrado até de alguns setores da Igreja Católica. Creio que Francisco foi demasiado político ou foi uma forma diferente de fazer política em relação aos seus antecessores?

O Papa Francisco foi capaz de ter um olhar holístico sobre toda a realidade humana e existencial. Verdadeiramente, os seus enunciados, que faziam depois primeiras páginas dos jornais e aberturas telejornais, não eram apenas uma mera teoria ou princípios abstratos. Ele depois aplicava-os no dia a dia. E uma dessas aplicações foi exatamente o ter olhado de frente a questões difíceis, a questões complexas, mas ter olhado de frente a essas situações com coragem e, sobretudo, com grande discernimento do Evangelho. Quando ele falava com aquela abertura e desenvoltura como falou acerca de todas essas questões que nós habitualmente chamamos fraturantes, pois bem, ele estava nos a dizer que, por um lado, era um olhar profundamente radicado no Evangelho e, por outro lado, era o olhar de um homem que era profundamente, intensamente livre. É uma palavra que se aplica ao Papa Francisco e foi, aliás, essa palavra "livre" que ele usou respondendo a uma interpelação que eu pessoalmente lhe fiz num dos momentos maravilhosos que tive a sós com ele, quando lhe perguntava qual o conselho que ele daria a um recém-nomeado Patriarca de Lisboa, ainda jovem. E ele me olhou e disse: "Sê líbero, sê livre". Ora, é depois dentro desta moldura e deste contexto que o Papa Francisco, primeiro, ele próprio analisou, contemplou e refletiu essas situações, essas questões, e depois é um gesto e uma postura que eu tenho a certeza que vai perdurar e atuar em toda a sociedade, não só dentro da Igreja, mas na sociedade no seu todo.

E fica essa mensagem e esse exemplo do Papa Francisco. Dom Rui Valério, Patriarca de Lisboa, muito obrigado pela participação nestas manhãs "360" da Rádio Observador. Obrigado.

Obrigada, bom dia.

Muito bom dia e continuação de uma santa Páscoa.