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Mário Amorim Lopes, deputado da Iniciativa Liberal. Muito boa noite, bem-vindo à emissão da Rádio Observador. Pergunto-lhe como é que vai ficar agora este período, como é que vai ser, de alguma forma, nesta gestão da crise relativamente ao mau tempo, como é que vai ser afetada esta gestão com a saída de Maria Lúcia Amaral?
Eu creio que não vai mudar muito, porque nós, na prática, já não tínhamos uma ministra da Administração Interna no terreno, em funções, a decidir, a coordenar e a comunicar. E nós já tínhamos alertado há cinco dias que o dissemos. E repare, nós não dizemos isto quando nós dizemos que o ministro não tem condições, não o fazemos de forma leve. Há quem o faça. Reiteradamente, quando um ministro qualquer comete erros, rapidamente pedem a cabeça do ministro. Nós não o fazemos. Nós temos sempre bastante cautela e quando o fazemos é porque, de facto, já não há condições. E foi isso que aconteceu. A ministra da Administração Interna primeiro esteve ausente no terreno e quando nós perguntamos onde é que ela estava, estava desaparecida em combate, e depois quando apareceu, percebeu-se que não tinha a capacidade de comunicação e nem o espírito de liderança que se exige de um ministro da Administração Interna. E, portanto, não é nada pessoal. Temos muito respeito, eu tenho muita estima pessoal por Maria Lúcia Amaral, é uma grande jurista, com reconhecido mérito e fez um bom trabalho como Provedora da Justiça, mas não tinha as competências que são necessárias para ser um ministro, sobretudo desta pasta, que é uma pasta muito exigente, que obriga a uma grande capacidade de decisão, uma grande capacidade de liderança, de coordenação de meios e também de comunicação. É muito importante sossegar as pessoas, tranquilizá-las e elas perceberem que houve uma catástrofe, é verdade, mas que o governo está a fazer tudo, os possíveis e os impossíveis, para resolver a situação e evitar desgraças maiores. E não foi isso que aconteceu. A ministra quando falou publicamente, correu francamente mal e não sossegou ninguém.
A ministra respondeu várias vezes "Não sei" a perguntas dos jornalistas.
Não sei e ando a aprender agora também.
Isto é uma questão de transparência ou um ministro tem de estar efetivamente preparado para que o trabalho não seja estritamente de gabinete?
Não, vamos lá ver. É importante que o ministro tenha a humildade para perceber que nem tudo que faz é bem feito. Isso é, aliás, uma característica desejável para qualquer político, não apenas do ministro. Mas é no tempo e no momento certo. Não é no meio de uma crise com pessoas desesperadas e a ministra a dizer que ainda estamos em processo de aprendizagem e que houve falhas e que não sabe sequer que falhas são essas. Há esse momento de conscientização, até para que os erros não sejam repetidos, para que não voltemos um outro governo a cometer os mesmos erros. Portanto, esse trabalho pode e deve ser feito com transparência e com frontalidade, reconhecendo o que é que foi bem feito e o que é que foi mal feito. Não é esse o problema. O problema é no momento de crise, no momento de desespero para muita gente, o que se esperava ali era uma imediata capacidade de decisão, era colocar todas as forças no terreno, era conseguir fazer com que a coordenação do sistema de proteção civil acontecesse e acontecesse de forma célere e que não existissem guerras de corporações, se as Forças Armadas deveriam ou não estar no terreno, porque era a proteção civil que estava a coordenar. Ali não havia fações, não podia haver corporações. O que era necessário era colocar todas as forças no terreno e depois garantir o trabalho de coordenação. E não foi isso que foi feito. A ministra não mostrou essa capacidade e, portanto, toda a coordenação destas diferentes forças do sistema de proteção civil, eu imagino que tenha sido bastante complicada, precisamente por falta de liderança e de capacidade de comunicação da agora ex-ministra Maria Lúcia Amaral. Mas enfim, uma vez mais, não é nada pessoal, simplesmente não tem as competências que são necessárias para esta pasta.
E estará Luís Montenegro à altura de manifestar essa capacidade, não demonstrada, como diz Mário Amorim Lopes, por Maria Lúcia Amaral?
Eu imagino que esteja.
No que toca a esclarecimentos sobre a pasta da Administração Interna. Amanhã há debate quinzenal. Que explicações espera do primeiro-ministro?
Agora sim, é um momento importante para que haja aqui um ato de contrição e para o governo reconhecer que fez muita coisa mal feita. Demorou 48 longas e penosas horas a decretar o estado de calamidade. Demorou na reação, a comunicação inicial, ia dizer titubeante, mas não foi titubeante, foi lamentável, porque tivemos aqueles episódios diferentes ministros que de facto não sossegaram as pessoas e até as deixaram com uma angústia ainda maior. E, portanto, estas falhas têm que ser reconhecidas. E entretanto, Luís Montenegro tem que arranjar uma pessoa efetivamente competente para o cargo, porque desde que o governo adverso tomou posse em 2024 e na sua reeleição, ou o cargo está mal dissuado, mas a verdade é que tanto com Margarida Blasco e agora com Maria Lúcia Amaral, não correu de todo bem, já com o governo anterior do Partido Socialista também não tinha corrido bem.
Falou-me agora de duas pessoas, duas ministras, a quem foi apontado precisamente esse problema de falta de capacidade de comunicar, nomeadamente para os media.
Sim, esse é de facto um dos problemas. Repare, a capacidade de comunicação, sobretudo numa pasta como esta da Administração Interna, é muito importante. Isto não é um cargo técnico. Se fosse um cargo técnico, nós contratávamos técnicos Mas nós elegemos políticos e o que se exige dos políticos é que sejam capazes de comunicar com honestidade e de tranquilizar as pessoas. E essa comunicação falhou. Falhou com Margarida Blasco. Aliás, é incompreensível como é que Luís Montenegro não aprendeu a lição e não encontrou um perfil que conseguisse conciliar uma competência técnica, que a ministra tem, é indubitável do ponto de vista jurídico. Só que o ministro da Administração Interna não é necessariamente um jurista, tem de ir muito além daquilo que são as competências técnicas. Tem de ter esta capacidade de se impor no terreno, de coordenar, de liderar e deixar as pessoas associadas. E não foi isso que aconteceu. Enfim, eventualmente esta pasta está amaldiçoada, porque já com o governo PS também tivemos Eduardo Cabrita ou Constança Urbano de Sousa e também não correu propriamente bem. Enfim, talvez seja um problema da pasta, mas eu creio que exige-se mais previdência por parte do primeiro-ministro e que seja capaz de encontrar um perfil que reúna estas características.
Vou fazer-lhe aqui uma pequena provocação, Mário Amorim Lopes. Há pouco, em entrevista à SIC, Gouveia e Melo foi questionado sobre como iria reagir se fosse convidado para assumir esta pasta. Não fechou totalmente a porta. Disse, no entanto, que não deve imiscuir-se em cargos governativos, mas diz também que estará sempre disponível para trabalhar para o Estado português. Como é que veria Henrique Gouveia e Melo, ex-candidato à Presidência, substituir Maria Lúcia Amaral, se recebesse esse convite?
Bom, Henrique Gouveia e Melo disse: "Aprendi a nunca dizer não", o que é, de certa forma, revelador de que ele próprio não fechou a porta. Enfim, eu acho que o almirante, agora na reserva, já mostrou capacidade de coordenação e logística na altura da distribuição das vacinas. Isso é mérito também dele. Obviamente, havia uma equipa por trás, não é apenas ele, mas houve essa capacidade de liderança e de comunicação em momentos difíceis. Portanto, eu acho que reúne algumas das competências para poder ocupar esse cargo. Eu, sinceramente, não vou naturalmente fazer aqui uma pronúncia definitiva sobre o perfil da pessoa, mas como primeira impressão, não me pareceria descabido.
Muito bem. Fica aqui a reação de Mário Amorim Lopes a essa eventualidade. É o estado em que está neste momento esse hipotético convite. Agradeço-lhe, Mário Amorim Lopes, por ter estado conosco. Desejo um resto de uma boa noite, resto de boa semana também