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Samuel Mira, também conhecido como Sam the Kid. Foi publicado esta semana um relatório sobre a segurança interna, fala do aumento da criminalidade e dentro dos fatores que levam a esse aumento, entre os vários fatores que são explicados, fala-se também do gênero musical enquanto fator de agregação. E são especificados aqui dois gêneros, um deles é o hip-hop, o segundo é o drill. Samuel Mira, começo por perguntar se faz sentido associar um gênero musical, seja qual for, já nos vamos centrar mais no hip-hop, à prática de crime.
Claro que a minha primeira resposta será não, porque estaremos a generalizar imensas pessoas que também fazem hip-hop ou drill e podem não estar associadas a esse tipo de violência. Mas se encontrarmos casos específicos, são casos específicos. Se forem três realizadores de cinema que cometeram crimes, vamos dizer que é toda a indústria cinematográfica que está assim? Eu acho isso um pouco injusto para o resto das pessoas que não cometem esses crimes. E também não podemos esquecer de uma outra coisa, que é o hip-hop em si, a cultura em si e o drill em si, já não são subculturas. Nos anos 80, 90, era um estilo de vida alternativo. E atualmente é uma coisa pop, faz parte da cultura popular, como faz parte as redes sociais, como o Instagram é popular. E se calhar, também há muitas rivalidades que são usadas através das redes sociais, porque alguém mandou uma boca num comentário e quando eu te apanhar vou fazer isso. E por que não culpam o Instagram? Porque o Instagram, se calhar, também foi uma das razões que fez com que despertasse um atrito. Porque falaste mal aqui neste comentário e agora eu apanhei. Isto aqui a falar de uma cultura juvenil, que às vezes parte para esse tipo de violência por esse tipo de razões. Então eu acho injusto. Mas não quero deixar de dizer que podem haver casos menos específicos que podem envolver pessoas que fazem música. Agora, julgar a música em si, acho que é um pouco ridículo. Mas não nego que há pessoas que podem cometer crimes e fazer música, claro, como podem ser pasteleiros e podem ser o que for. Por isso, a minha opinião é que é injusto, mas claro que não vou negar que podem haver casos específicos. Também não sou maluco e estou atento e vejo como é que os jovens estão, os mais jovens que eu, e vejo que é uma cultura popular. Antigamente, nós éramos só cinco ou seis, mesmo nos bairros, se calhar a ouvir rap, e agora é 99%. Então, não é um problema da música, porque estão todos a ouvir música, seja a pessoa mais bem comportada ou a mais radical. Por isso acho que não faz muito sentido estar a apontar para esse lado.
E este relatório nem fala apenas da música enquanto fator que leva ao crime. Diz mesmo que acaba por ser um fator de agregação de grupos que depois se constituem enquanto gangues, ou pelo menos enquanto grupos violentos e de certa forma organizados. Também é justo dizer que o hip-hop leva a estes grupos mais violentos?
Não. Eu não vejo as coisas dessa forma. O hip-hop nunca será a razão que leva as pessoas a fazerem atos violentos. Pode ser um por acaso, é uma coisa secundária, que pode fazer parte de uma pessoa que comete crimes, mas eu não acho que o hip-hop seja o chamariz para a violência. É isso que eu quero sublinhar. O hip-hop não é o chamariz para a violência. Podem haver grupos de jovens que têm esta paixão em comum e que podem ter rivalidades, sim, senhora, como houve desde sempre. Desde os anos 80, desde os anos 90, sempre houve grupos rivais em bairros que também ouviam outros gêneros musicais, que ouviam dance music ou techno, ou o que for. E as coisas nunca foram por aí, porque na realidade, se calhar, não eram artistas. E agora também estamos numa era que também é preciso perceber isso, que é muito mais fácil sermos artistas, gravarmos em casa músicas, pôr um vídeo no YouTube. Então, a lógica vai por aí, de assumir uma parte artística, que acho que não é por aí. Eu acho que se a parte artística não existisse, a rivalidade existiria a mesma e a violência poderia existir a mesma. A música traz um papel secundário, que não deixa de poder ser uma via para mandar bocas Da mesma forma que as redes sociais também poderão ser via para isso. E não vejo ninguém a falar das redes sociais, por exemplo. Porque é que tem que ser apontado o dedo a uma cultura que é tão vasta? Isso não tem lógica. A meu ver, estar a puxar o hip-hop como um todo, ao mesmo drill. Embora, se formos analisar a raiz do drill de Chicago, principalmente, que é uma cidade que também realmente tem essa fama de trazer muita violência e estar associada a gangs, talvez exista uma espécie de tentativa de transpor isso para cá, mas eu acho que quem tenta catalogar isso mais, podem ser neste caso, com este tipo de relatórios.
Achas que não acaba por ser uma visão da população em geral?
Da população em geral aqui em Portugal?
Sim, em Portugal, claro. Este tipo de associações.
Não, é assim, eu estou a falar da raiz da coisa. É como em Los Angeles, na West Coast, havia também uma sonoridade que era apelidada de gangsta rap, mas a sonoridade também vinha acompanhada por um discurso que tu tinhas que viver, que não é muito visto cá em Portugal. Nós em Portugal, felizmente, temos uma taxa criminosa de gangs que é muito menor. Aliás, nem há um historial de gangs em que o filho já nasce no gangue, enquanto nos Estados Unidos isso é uma coisa mesmo quase cultural. É uma coisa que já vem de gerações e gerações de gangs. Enquanto que aqui eu acho que é mais uma fase juvenil que pode acontecer. Mas como este é um género musical muito popular, que já nem é uma subcultura, é tão popular que depois a nível rítmico, tu podes ouvir uma Beyoncé a usar esses ritmos e a trazer outros temas, a trazer um tema de amor com aquele ritmo. Podes ouvir a Alicia Keys com aquele ritmo e a trazer um tema de amor. Por isso é que eu estou a dizer que é injusto dizer drill. Por quê? Então a Alicia Keys faz drill também. E agora? A Alicia Keys também anda a cometer crimes? Por isso é um pouco ridículo estarmos a pôr a coisa dessa forma, porque música é música, arte é arte e cabem lá todo o gênero de temas. Mas para tentar dar aqui o outro lado da versão e onde pode haver um fundo de verdade, é que na raiz desse subgênero, por assim dizer, podem estar coisas mais afiliadas a gangs de Chicago. Estou a falar do drill de Chicago, porque inicialmente existe o drill de Londres mas até o drill de Londres não estará tão ligado a gangs como o drill de Chicago.
Portanto, isto também acaba por ser um caso muito específico, não é?
Exatamente. E aquilo que eu quero dizer é que é tão pop e tão popular que já furou mundialmente e permite que a música não seja só com essa temática, mas também pode ter essa temática. E se não tiver essa temática, não deixa de ser esse gênero de música. Estás a perceber? É tipo: "Não, esta música é de amor, então não é drill, tem só o ritmo", porque drill é drill. Por exemplo, mesmo a definição de trap, que é também uma espécie de outro gênero dentro do hip-hop. O drill é hip-hop e trap é hip-hop. Isso na minha visão. Pode haver pessoas com outras opiniões, mas o hip-hop é a cultura da qual também fazem parte o drill e o trap. E o trap também em si, a origem desse gênero, dessa palavra, é porque até veio uma expressão que é trap house. Trap house é a casa onde as pessoas estavam com as drogas e etc. Tem a ver com traficantes, que viviam um pouco esse lifestyle. Aliás, o trap agora até já ultrapassou o facto de já foi pop e agora já está a deixar de ser. Ou seja, as coisas podem ter uma raiz ali, mas depois quando se transformam em pop, toda a gente consome e toda a gente faz com as mais variadas temáticas. Então é injusto estarmos a pôr a coisa dentro de uma caixa de violência. É isto que eu quero dizer. Mas sempre reforçando o facto de não ser cego e ver pessoas que podem cometer crimes e que fazem drill e etc. Mas não vamos é generalizar e meter a raiz do problema aí. Senão não tem lógica nenhuma.
E será que esta necessidade, não vamos chamar assim, mas o facto do relatório discriminar e falar do gênero musical enquanto agregador, de uma forma geral, mas depois discrimina o hip-hop e o trap. Diz que geralmente são esses os gêneros musicais que estão na base dessa agregação. Será que esta discriminação, escrever quais os gêneros musicais mais frequentes ou pelo menos que o relatório mais vezes encontrou, até que ponto é que isso também pode contribuir para o estigma que existe contra essa cultura?
Sim, não é nada benéfico para a cultura, porque a cultura é pop e acaba por ser até ignorante, ofensivo, até sinceramente um pouco racista, vou ser sincero, porque parece que ainda contém um certo estigma, que antigamente era ou de bairro, ou se fores black tem que ser essa música, esse tipo de cenas. Faz lembrar um artigo famoso que há pouco tempo até ressuscitou, não sei se era da Capital, que falava sobre os gangues de Lisboa. Era os zulús, os raps, os black boys. Os raps localizam-se no Cacém, Maçã, Samaí e Damaia. Identificam-se com visual característico, cabelo rapado com desenhos ou tranças. Era uma coisa muito estereotipada, que nem era bem real. Foi a capa de um jornal e era super insultuosa e super racista nesse aspecto, que é sempre baseada num fundo de verdade, mas depois passa para o reino da fantasia e da ofensa, a meu ver.
A tal questão da generalização.
Exato.
Simão, só uma última questão. Há uns anos, não há muito tempo, havia quase este estigma também associado ao rock. É o rock and roll. Até existe aquela história do sexo, drogas e rock and roll, que foi uma ideia que foi desaparecendo aos poucos. Agora o rock and roll já é quase um clássico. Achas que o hip-hop, e quem diz o hip-hop, diz também aqui outros estilos, como o rap, o trap, o drill, etc. Será que também podem passar por esta mudança gradual dentro da opinião pública ou pelo menos dentro destes estigmas que existem agora?
Eu acho que, por exemplo, essa situação de sexo, drogas e rock and roll será sempre associada ao gênero musical dito meio jovem que estará a vingar, que é quando tu és uma superestrela, a tua vida está mesmo no topo e és uma espécie de um jovem entre os 20 e os 40. Porque depois chegas ali aos 50 e seja o que for, seja uma vida de gangster, seja uma vida de rockstar no sentido de consumo de drogas diariamente, seja tudo o que for de excesso, chega ali uma certa idade já normalmente as pessoas acho que ganham algum juízo, algumas com a paternidade, algumas mesmo com o próprio corpo, que começa a dar sinais dos abusos todos que cometeste. E então chega a hora de uma nova geração, que pode vir com um novo gênero musical, e esse estigma irá sempre aparecer, porque eu acho que estará sempre mais associado o sexo, drogas e rock and roll a uma faixa etária do gênero musical que estiver a ter as superestrelas do que propriamente à música. Isto para dizer o quê? Que em relação ao hip-hop, também já estamos aqui a passar uma fase em que grupos lendários já estão na casa dos 50, 60 e começam também a ter uma abordagem um pouco mais madura. Já poderão começar a ter menos público em relação às superestrelas que estão agora na casa dos 20, mas é importante eles continuarem e se calhar pela primeira vez, porque se calhar vamos agora começar a passar pela fase do hip-hop avô, haver uma maturidade maior e começar a criar também circuitos mais maduros em que as pessoas que também tenham 50 anos vão assistir às músicas de rap que sempre gostaram e que sempre cresceram a ouvir, enquanto irá continuar a haver outro hip-hop e outro rap para a juventude. Aí é que está, aí ainda se torna mais difícil de generalizar. Quando temos o avô a rapar e o neto a rapar, não vamos dizer que o hip-hop é violência, porque se existe o avô, o pai e o neto a rapar, onde é que ficamos? Fica muito mais difícil de generalizar enquanto clichê. Porque a arte do cinema, o cinema já tem pessoas de 90 a realizar, pessoas de 70, pessoas de 20, e não vamos generalizar com qualquer tipo de adjetivo. É uma arte que cabe lá qualquer tipo de emoção. Há um cinema mais rebelde, há um cinema mais conservador. E eu acho que o hip-hop, como qualquer arte, como qualquer cultura, estando a chegar a uma idade já avançada, vai ser cada vez mais difícil de pôr numa caixinha.
Vai-se tornar pop, no fundo. Que é aquilo que já estavas a explicar há pouco.
Sim, pop já é há muito tempo. Pop, a meu ver, já é há muito tempo. Até já é há tanto tempo que ficamos assim: "Quando é que isto acaba?" Porque até já é pop há muito tempo. É uma linguagem que as pessoas já estão bastante familiarizadas e eu até pensava que haveria menos preconceito de já termos ultrapassado certas situações e esse tipo de relatório, apesar de, repito mais uma vez, ter um fundo de verdade, acaba por generalizar, não fica bem. Uma pessoa quando lê, é desnecessário transmitir isso dessa forma. É uma coisa que se calhar eles podem guardar para eles enquanto ver que aquele indivíduo fulano tal também faz música, faz parte daquele grupo que faz música, do que dizer o drill, o hip-hop, tumba, está tudo, carimbo, já, toma. Não fica bem. Não fica bem porque se houver um caso do apito dourado, não vemos esse tipo de situação a dizer que todo o futebol português é cheio de corrupção. E é mais ou menos isso que transparece com este tipo de relatório.